Religião

02/07/2020 | domtotal.com

Quando um católico deixa o seminário ou a vida religiosa

Sentimentos de dúvida e rejeição, muitas vezes, fazem parte desse momento de auto-descoberta

O processo de saída do seminário ou vida religiosa costuma ser carregado por dor pessoal e julgamento social
O processo de saída do seminário ou vida religiosa costuma ser carregado por dor pessoal e julgamento social (Mateus Campos Felipe/Unsplash)

Simcha Fisher
America Magazine

Joe Heschmeyer já teve tanta certeza de sua vocação para o sacerdócio que esqueceu que devia discernir seu chamado. Todos ao seu redor pensavam que devia ser padre. Sua mãe, como descobriu mais tarde, ofereceu Joe ao Senhor quando criança, como Ana fez no Antigo Testamento. Heschmeyer escrevia sobre sua vocação frequentemente em seu blog Shameless popery, falando de sua ordenação como se fosse inevitável. As coisas estavam indo tão bem que perdeu a noção de que estava no seminário para pensar e refletir sua vocação.

"Logo depois que entrei no seminário (2011), parei de perguntar a Deus se era isso que ele queria. Senti que a pergunta já havia sido respondida. Minhas notas eram boas, eu era querido por todos, tudo o que era da dinâmica interna do seminário parecia estar bem. Parecia uma validação suficiente da minha vocação. Esqueci de perguntar a Deus: 'Ainda estamos no mesmo projeto?'", disse Heschmeyer.

Somente depois que alguns amigos e familiares compraram passagens de avião e reservaram quartos de hotel para sua ordenação diaconal é que Joe começou a sentir alguma dúvida. Ele tentou atribuir suas apreensões ao "nervosismo de última hora", mas uma nuvem de inquietação pairava sobre sua cabeça. Joe ficou pensando no ônibus, no caminho de volta de um retiro.

"O arcebispo estabelece um tempo para falar com o seminarista antes da ordenação. Uma espécie de conversa, onde você pode compartilhar o que estiver em seu coração. Geralmente é um tempo muito curto, por respeito – uma coisa de 10 minutos. Fiquei lá por meia hora, falando de todas essas dificuldades". O arcebispo imediatamente assegurou que, se tivesse alguma dúvida, podia esperar mais tempo antes de fazer o compromisso final.

"Foi uma carga tremenda que foi tirada dos meus ombros, uma experiência esclarecedora e dolorosa. Percebi que estava feliz por não estar sendo ordenado. Não era o que eu queria sentir, ou esperava sentir", disse Joe.

Ele decidiu pedir um tempo para depois considerar voltar a participar da formação no seminário – um plano que, segundo o padre Matt Mason, diretor de vocações da diocese de Manchester, Nova York, não é incomum. Mas nove dias depois de um retiro de 10 dias, Joe sabia com certeza que não queria ser padre.

Sair do seminário ou da vida religiosa pode parecer liberdade ou desorientação, rejeição ou clareza. Para muitos, a experiência acaba gerando frutos de autoconhecimento e um relacionamento mais profundo com Deus. Mas primeiro vem o sofrimento.

"Discernir" é um processo amplo e extremamente mal compreendido, e muitos católicos veem isso como um sinal de fracasso, e não como realmente é: uma maneira de responder ao chamado de Deus para outra vocação. De acordo com um relatório do Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado, da Universidade de Georgetown, cerca de 74% dos seminaristas da turma de 2019 completaram quatro anos de seminário universitário, o que significa que 179 dos 695 homens que começaram o estudo avançado de teologia em 2015 não continuaram seus estudos. Segundo o padre Mason, a maioria das pessoas que sai do seminário o faz depois de dois ou três anos. "Estar no seminário não é o equivalente a se casar com a Igreja", disse o padre Mason. Sair do seminário pode ser considerado um divórcio, mas você ainda não está nesse tipo de relacionamento. É mais parecido com um namoro". E é um relacionamento que qualquer das partes é livre para romper, disse.

Os homens que vivem a formação para serem padres diocesanos normalmente passam de seis a oito anos no seminário (depois passam um "ano pastoral" trabalhando em uma paróquia como diáconos) antes da ordenação; e as mulheres geralmente passam de cinco a sete anos (com algumas exceções) vivendo em uma comunidade religiosa antes de sua profissão final de votos. Deve ser um tempo de formação e discernimento, um tempo para aprender sobre a vida que podem levar permanentemente e, com orientação espiritual, para decidir se Deus quer que fiquem para sempre ou se os chama a outra coisa.

Joe ficou envergonhado ao dizer a sua família, amigos e leitores do blog que estava saindo do seminário. "Provavelmente parecia que estava tendo uma crise de fé, apesar de estar fazendo o que parecia que Deus estava me chamando para fazer. Eu estava dando um passo na fé que pareceria o contrário. Parecia algo totalmente oposto ao plano de Deus, disse.

Época de transição

Para Madalena Visaggio, deixar o seminário foi o primeiro passo para uma transição ainda maior. Como seminarista, ela se identificava como homem. Vários anos e escolhas difíceis depois, agora se identifica como mulher. Visaggio, agora escritora de quadrinhos, com um programa de televisão que foi ao ar no SyFy Channel em 2020, já quis se tornar padre ou pelo menos tentou descobrir se deveria. Seu tempo no seminário foi curto, mas sua saída não aconteceu porque ela não se esforçou por ficar.

"Ainda me encontro com pessoas que agem como se eu tivesse deixado a Igreja por que ficou difícil. Mas não é verdade. Eu fiz meu dever. Tentei ficar. Mas eu não podia", disse Visaggio.

Ela estava falando de sua decisão final de deixar a fé, mas muitos homens e mulheres usam palavras semelhantes ao falar sobre sua decisão de deixar a vida religiosa. Foi uma agonia decidir sair, trouxe vergonha e alívio, que vieram com apoio e condenação; mesmo quando sabiam que era a coisa certa a fazer, não estava claro o que se fazer.

"A última vez que fui à missa foi na Páscoa de 2017. No dia seguinte, segunda-feira, estava voltando do trabalho para casa. Era um dia brilhante e bonito. Sentei-me nos degraus do Bom Pastor em Inwood [Manhattan] e tive uma conversa sobre separação com Deus", disse Visaggio.

Para Visaggio, ingressar no seminário foi uma tentativa de tomar um caminho após anos de deriva. Ela se converteu ao catolicismo quando adolescente. Foi uma autodidata da fé e esteve fortemente envolvida no ministério leigo quando ainda se identificava como homem. Visaggio disse que muitas pessoas sugeriram que entrasse no seminário. Após 10 anos de receio, Visaggio tomou a iniciativa.

Seu semestre e meio no seminário "começou muito positivo e cada vez mais foi se tornando um tormento", disse. "A formação que recebemos foi excelente. A vida litúrgica era robusta. Amei fazer a Liturgia das Horas. Adorei as missas matinais e noturnas. Amei as noites de oração e alguns dos sacramentos. Amei a adoração", aponta Visaggio. Mas também foi impiedosamente intimidada e se sentiu intensamente deslocada, social e espiritualmente. Esse sentimento de não pertencimento realçou sua crescente necessidade de lidar com sua identidade, mas sabia que não podia fazer isso no seminário.

Um ponto positivo: o reitor deixou claro, cedo e frequentemente, que sair não era um fracasso. O seminário era algo para experimentar, um tempo para discernir; e muitos homens foram embora. "Nunca houve vergonha ou julgamento nisso", destaca Visaggio.

Quando a decisão não é sua

Isso parece o ideal. Porém, assim como no namoro, quando apenas uma parte deseja interromper as coisas, o processo pode ser doloroso, mesmo quando apropriado.

Jessica Packard, que agora administra os programas para jovens e grupos no zoológico de Kansas City, não teve escolha sobre seu futuro quando era noviça. "Basicamente, elas me chamaram para falar e me expulsaram. Foi como um fim de relacionamente, uma dessas conversas: "você será mais feliz fora". Mesmo assim, não teve conversa – disse.

Packard agora vê que não pertencia à ordem e que provavelmente entrou na vida religiosa pelas razões erradas. Sendo a mais velha de sete filhos, passou o primeiro ano de faculdade bebendo e festejando, vivendo desordenadamente a vida. Ela acha que seu desejo de ingressar em um convento foi parcialmente uma correção exagerada de seus excessos e, por outro lado, uma tentativa desesperada de evitar responsabilidades.

A impressão dela sobre a vida religiosa era que "quando você entra, você vive uma vida boa. Você recebe suas atribuições e responsabilidades. Apenas usar uma camisa de mangas compridas ou de mangas curtas foi a sua maior decisão. No final, acho que estava fugindo da tomada de decisões", disse Packard.

No início, sua decisão de participar parecia uma predestinação. Ela percebia e sentia continuamente proximidade com o fundador da ordem, em sua vida diária, como sinais irrefutáveis de Deus. Pouco antes de vender o carro e doar suas roupas, mandou uma mensagem para o diretor de vocações e brincou dizendo que sentia que o fundador a estava perseguindo. "Vou tomar essa grande decisão e pronto", disse a si mesma.

Packard durou 61 dias. Ela adorava muitos aspectos da vida no convento, mas frequentemente entrava em conflito com suas superioras e questionava regras escritas e não escritas da vida no convento. Relutante em admitir para si mesma o quão miserável se sentia, Packard ficou chocada quando as irmãs na liderança de sua comunidade disseram que devia ir embora. Durante o rosário, pediram para ela entrar na lavanderia, onde reuniões importantes aconteciam, e comunicaram a decisão. Ela não teve permissão para se despedir de suas amigas. Apenas uma das irmãs trouxe uma xícara de sopa para que comesse sozinha.

"Isso foi às 17 horas. Eles disseram: 'Vamos acordar às 6 horas e levá-la ao aeroporto'", disse Packard. Enquanto abomina a maneira como o convento manejou sua partida, também acredita que as irmãs pensavam que estavam fazendo o possível para evitar que ela fizesse um show. "Acho que pensaram que estavam lidando bem com isso", disse Packard. "A Igreja é santa, mas é composta de seres humanos, da mesma forma as ordens religiosas". Essa prática de escoltar abruptamente as mulheres em segredo é cada vez menos praticada, mas continua em algumas comunidades.

Também já foi comum nos seminários, mas muitos diretores vocacionais agora tentam dar mais ênfase à liberdade e à transparência. "Em épocas anteriores, poderia ter acontecido que um homem desaparecesse no meio da noite, mas hoje somos mais abertos sobre essa pessoa que decide sair; desejamos o melhor para eles e os mantemos em oração'', disse o padre Mason.

Packard disse que não se arrepende de seu tempo no convento, embora ainda guarde rancor contra o fundador. "Eu meio que penso [em minha experiência na vida religiosa] como se tivesse sido um retiro muito longo. Faço uma oração: 'Seja feita a vossa vontade'. Esse tem sido o meu mantra desde então. Quando não consigo pensar em palavras para orar, continuo orando: 'Seja feita a vossa vontade'", disse.

A transição de Packard na volta à vida secular foi dolorosa. Voltou para a faculdade e ingressou em uma irmandade que, resumidamente, a expulsou após três semestres. "Eu não pretendo estar perto de grandes grupos de mulheres", riu.

Packard agora se vê como uma espécie de embaixadora para outros católicos que não se encaixam em um molde de piedade e decoro. "Eu não me apresento. Olá, sou Jess. Fui expulsa de um convento. Mas estou disposta a compartilhar minha experiência, especialmente com jovens em discernimento'', disse ela. Algumas das meninas que ouviram seu testemunho entraram na vida religiosa, e ela se orgulha disso.

Em busca de apoio

Uma transição difícil para a vida secular é comum para as mulheres que abandonam a vida religiosa, principalmente se deixaram o convento de forma involuntária e abrupta. "Essa experiência de formação intensa deixa uma marca", disse Penny Renner, que administra o blog da Leonie's longing, uma organização pequena, mas internacional, fundada para apoiar pessoas que deixaram a vida religiosa.

Renner, que deixou o convento aos 24 anos, disse que muitas mulheres saem com uma vida espiritual ferida. "A vocação das religiosas é ser a esposa de Cristo. É uma missão que vai direto ao âmago da natureza feminina. As mulheres nos procuram imaginando que falharam com Deus ou que Deus as rejeitou. Elas se perguntam: Por que Deus me chamou para isso e depois me mandou embora?", disse Renner.

A organização promove a ideia de que as mulheres que saem da vida religiosa não foram rejeitadas por Deus. Também oferece ajuda mais tangível, incluindo treinamento profissional e orientação financeira. "Uma mulher que está em um convento há muitos anos pode nem saber como comprar um telefone quando sai", disse Renner.

"O problema de desistir de tudo [para participar desse outro projeto] é que você precisa começar do nada [se sair da vida religiosa]. Nosso trabalho é ajudá-los a expandir sua rede de apoio", aponta Renner. Os escritórios vocacionais são orientados para as pessoas que estão entrando, mas muitas vezes não existe um programa formal para acompanhá-las se deixarem o seminário ou convento, acrescentou. "Há uma crescente conscientização de que essa é uma área de necessidade", disse.

O desejo de Leonie é ajudar principalmente as mulheres, embora esteja aberto a apoiar homens. Não parece haver uma organização comparável com foco em ex-seminaristas. O padre Mason disse que, como diretor de vocações, faz um esforço para acompanhar os homens que foram embora e manter contato, se for isso o que eles querem. "Não vamos simplesmente largá-los e dizer 'boa sorte'", disse Mason.

O padre também vê como parte de sua missão educar os colegas católicos de um seminarista sobre o que significa discernir uma vocação, para que haja menos julgamento e mais apoio quando alguém sair. Mas é difícil explicar a alguém que nunca esteve no seminário ou no noviciado como é sair.

Renner disse que homens e mulheres podem se sentir à deriva depois de sair, mas, em sua experiência, os homens parecem mais propensos a gerenciar sua saída como um problema a ser resolvido, enquanto as mulheres percebem a saída como um julgamento a si mesmas. Elas frequentemente se retiram por um tempo, especialmente se viveram enclausuradas. Muitas mulheres ficam deprimidas, dificultando a construção de uma nova vida.

Leonie's Longing ajuda a conectar as mulheres com os cuidados de saúde mental e, se necessário, com instituições de caridade locais e com conselheiros de carreira. As mulheres atendidas procuraram a organização porque lutam com a reentrada na vida secular. Mas algumas transições são mais complexas do que outras.

Carrie Chuff, que esteve enclausurada por cinco anos, como Packard, saiu do convento sem roupas, bens ou perspectivas de emprego. Eles devolveram o depósito de U$ 500 que ela lhes deu quando entrou e acrescentaram outros U$ 500 para ajudá-la a se levantar, mas Carrie se sentiu irremediavelmente em defasagem em comparação com as colegas quando se encontrou na vida secular. Mas enquanto a saída de Chuff, como a de Packard, foi mantida em segredo, sua partida se deu por uma escolha pessoal. A partida parecia mais liberdade, do que rejeição.

"Eu me senti tão livre. Estávamos dirigindo... o sol estava nascendo e eu queria sair [da cidade] antes do amanhecer. Tínhamos um céu dourado, a coisa mais linda que eu já vi. Senti tanta liberdade e paz. Foi glorioso. Foi um presente de Deus", disse Chuff.

Ela tinha 18 anos quando se juntou à ordem religiosa. Embora tivesse alguns medos, sentiu-se atraída por tornar sua vida um presente para Deus. "Eu queria oferecer minha vida como sacrifício pela conversão dos pecadores. Queria estar completamente à disposição de Deus. Realmente me apaixonei por Deus na sétima série e queria doar minha vida a ele. A melhor maneira de fazer isso, talvez a única, era me tornar religiosa", lembra Chuff.

Mas, surpreendentemente, ninguém a avisou de que as irmãs da comunidade em que entrou mantinham o silêncio absoluto, exceto nos dias de festa. Ela estava preparada para uma vida de obediência e rigor, mas não para a angústia que cada vez mais a engolia. Carrie tentou se adaptar, pensando que era a vontade de Deus. "Tentei me tornar muito maleável. Olhando para trás, as coisas não estavam como deveriam. Talvez eu fosse maleável demais", apontou.

Ela percebeu no primeiro ano que não pertencia mais à ordem, mas ignorou os sinais, esforçando-se para continuar adaptando-se para "se tornar mais santa", disse. "Eu tinha muito medo de decepcionar as pessoas, de desapontar a minha família, à paróquia. Tinha medo do que as pessoas pensariam. Esse medo me fez ficar muito mais tempo do que eu devia ter ficado", disse Chuff.

Suas superioras passaram a depender da esperta e competente noviça e fizeram acomodações extraordinariamente generosas para ela, esperando que suas dúvidas fossem uma tentação. "Elas estavam abertas a me ajudar, mas era mais para me ajudar a ficar, em vez de me ajudar a discernir se eu tinha uma autêntica vocação religiosa, em primeiro lugar", destacou Chuff.

A depressão de Chuff finalmente se tornou insuportável. Extenuada, tremendo de medo, ela disse à madre superior que queria ir para casa. Ligou para a mãe e ficou animada, partiu sem dizer adeus.

Uma das irmãs, sentindo o que estava acontecendo, puxou uma conversa no corredor e exigiu saber se estava saindo. Chuff admitiu que sim. "Ela me deu um grande abraço e me disse: 'Você tem a coragem de fazer o que eu nunca fiz.' Isso partiu meu coração. Sempre me lembrarei disso".

Chuff agora está bem, casada, tem seis filhos e é amiga de algumas das outras mulheres que deixaram o mesmo convento. Apesar da dor daqueles cinco anos, ela não acha que seu tempo no convento tenha sido desperdiçado.

A ordem organizava retiros regulares para os leigos e ela aprendeu silenciosamente não apenas ideias espirituais, mas lições sobre a vida conjugal e familiar. "Eu sei que Deus trabalhou nisso. Eu nunca sinto que sou um fracasso. Sou grata pelo meu tempo lá. Isso me transformou em quem eu sou agora", disse Chuff.

Para Heschmeyer, também, a formação que teve no seminário foi inestimável, mesmo que o tenha levado em uma direção inesperada. "Está certo continuar, mas seguir a voz de Deus não significa que esse caminho acaba. Deus precisa mais dos santos do que dos sacerdotes", disse.

O padre Mason também aponta que as vocações não consistem simplesmente em uma decisão ou um momento no tempo. "Deus nunca para de nos chamar, mesmo dentro de nossas vocações", disse o padre Mason.

Um chamado dentro do outro

A direção desse chamado pode ser surpreendente. "Eu tive que voltar para a casa dos meus pais. Não era onde eu esperava me ver com 30 anos”, disse Heschmeyer. Rapidamente aceitou um emprego em uma escola confessional, onde sua carreira lhe permitia evangelizar como faz um padre, mas sem as dores de cabeça dos deveres administrativos.

E imediatamente depois que saiu do seminário, voou para Phoenix para fazer uma visita surpresa a uma amiga com quem havia interrompido o contato quando tentava discernir o sacerdócio. Quando apareceu na porta dela pedindo para namorar, ela nem sabia que havia saído do seminário.

"Havia muitas surpresas reunidas em uma só", disse Heschmeyer. "Felizmente, ela disse que sim, do contrário, poderia ter sido uma viagem extremamente triste". Os dois namoraram por três meses e depois se casaram. Eles agora têm um filho.

Heschmeyer sabe que seu relacionamento levantou algumas sobrancelhas e algumas pessoas podem suspeitar que ele deixou o seminário por uma mulher. Mas não é assim, disse. "Não pensava que se Anna dissesse que não, eu voltaria [para o seminário]. Acho que fui chamado para me casar e, se for verdade, sei qual porta bater", acrescentou.

Heschmeyer, como Chuff, disse que as coisas que aprendeu ao discernir a vida religiosa acabaram ajudando-o em sua vida de casado. Sua esposa chama o seminário de "escola de charme para homens", onde aprendeu etiqueta e tato, e também ganhou alguma maturidade psicológica.

"Aprendi a levar a vida emocional a sério. Você tem que entrar nesses lugares internos assustadores e desconfortáveis e ser totalmente humano, e não ser cabeça fechada. O seminário me fez confrontar e tratar a vida de maneira adulta", disse Heschmeyer.

Esse processo de auto-descobrimento começa antes mesmo que um homem entre no seminário. O processo de ingresso leva muitos meses e nem todos são convidados a entrar. "Não aceitamos pessoas do nada", disse o padre Mason. Sua diocese geralmente se familiariza com um candidato muito antes de permitir sua entrada, disse, e o próprio processo de ingresso é longo e intenso. Para ordens religiosas, como os jesuítas, o processo de admissão é ainda mais cansativo.

O padre Philip Florio, S.J., diretor de vocações das duas províncias da Costa Leste dos jesuítas, disse que os aspirantes se submetem a uma avaliação em várias etapas, às vezes durante um ano, antes mesmo de serem convidados a ingressarem. Os candidatos trabalham com um diretor espiritual, um diretor de vocações e um acompanhante espiritual. Eles oram em uma comunidade, fazem retiros e encontros.

Seis meses depois, um possível seminarista escreve uma autobiografia espiritual de 12 a 15 páginas e passa por uma entrevista de cinco horas para revisar a história familiar e pessoal, o desenvolvimento pessoal, espiritual e psicossexual, o relacionamento do aspirante com a Igreja e seu entendimento sobre o sacerdócio. Em seguida, inicia o processo formal de entrada de quatro meses, culminando em entrevistas com três jesuítas e uma leiga.

"Insistimos que seja uma mulher porque 50% da Igreja é feminina. Se você não pode falar com uma mulher, não estamos interessados", disse o padre Florio. Mesmo se um candidato for aceito e entrar, nada é conclusivo. "Os aspirantes ainda entram e saem", explica. Sua liberdade para fazê-lo é primordial. "O Espírito Santo trabalha em liberdade, e nós honramos essa liberdade", disse o jesuíta.

A ordem espera que, se os candidatos forem embora, seja em termos amigáveis, com uma maior clareza sobre suas próprias vidas.

Madalena Visaggio experimentou essa clareza quando deixou o seminário. Embora finalmente tenha rejeitado a maneira como a Igreja avalia os atos morais, disse que o tempo que passou no seminário foi, em última análise, esclarecedor psicologicamente.

"Acho que precisei passar por esse processo para me forçar a realmente levar a sério, pela primeira vez, o que estava acontecendo na minha cabeça. Mesmo tendo tomado algumas decisões ruins depois que saí, pelo menos tomei decisões. Estava morando com minha futura ex-esposa menos de um ano depois de sair. Começaria a faculdade e me casaria dentro de dois anos e meio. Foram todos grandes erros, mas é incrível o fato que eu os cometi", disse Visaggio.

Visaggio lembra particularmente os cuidados que um padre lhe ofereceu depois que se assumiu como trans. "Ele apenas me deixou falar sobre isso e perguntou como eu estava me sentindo. Ele não partiu de uma posição de crítica, mas de cuidado pastoral. Ainda estou em contato com ele. É um homem maravilhoso", disse.

O Leonie's Longing foi fundado precisamente para oferecer essa escuta crítica e muitas mulheres entram em contato com o grupo simplesmente para expressar gratidão por essa comunidade existir. "Elas dizem: É a primeira vez que me entendo", aponta Renner.

"Para mim, a coisa mais curativa de fazer parte de uma comunidade [é que] posso ver que são mulheres generosas, talentosas e adoráveis. Olho para elas e não consigo pensar: 'Essas são as mulheres que Deus rejeitou'. E se eu não consigo pensar nisso, também não consigo pensar em mim como uma mulher rejeitada por Deus".

Publicado originalmente em America Magazine


Tradução: Ramón Lara

*Simcha Fisher é palestrante, escritora freelancer e autora do The Sinner's Guide to Natural Family Planning. Simcha posta diariamente no simchafisher.com e semanalmente no The Catholic Weekly. Mora em New Hampshire com o marido e 10 filhos. Siga-a em: @SimchaFisher



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