Economia

02/01/2020 | domtotal.com

Depois do confinamento, crise encurrala as pequenas empresas

Mundo afora, estabelecimentos fecham devido à crise do coronavírus

Fábrica Dibbo Fashion após desconfinamento, perto de Daca, em 18 de junho de 2020
Fábrica Dibbo Fashion após desconfinamento, perto de Daca, em 18 de junho de 2020 (AFP)

As pequenas e médias empresas, afetadas pela crise do coronavírus, lutam para sobreviver após o confinamento, entre o risco de falência e a esperança de reativação.

Algumas empresas estão paradas ou perderam força, outras estão sobrecarregadas ou endividadas.

Desde as primeiras medidas para conter a epidemia que paralisou a atividade global, os governos liberaram bilhões de dólares para ajudá-las a resistir. São a espinha dorsal da economia, essenciais para a recuperação.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma recuperação mais lenta que o esperado e uma recessão global de 4,9% neste ano. Enquanto isso, para o setor de hotelaria, o comércio e fábricas esta é uma experiência traumática.

Em Paris, Dacca, Nova York e Wiesbaden, os jornalistas da AFP conversaram com líderes empresariais que visitaram em março ou abril, no auge da crise, quando falavam de uma "catástrofe econômica".

Agora, alguns estão à beira da quebra, outros recuperam a confiança.

A seguir o que eles nos disseram:

Em Paris, um hotel parado

O telefone ainda toca no saguão, mas o hotel está deserto. O Celeste, muito perto de Montmartre, fechou no início de março. Dois meses após o levantamento das medidas de confinamento na França, ainda não reabriu devido à falta de reservas.

"Quando existem, a maioria é cancelada no último minuto, um dia antes e às vezes no mesmo dia", explica Khadija Radja, diretora do estabelecimento independente, estilo Art Deco, de 30 quartos.

No início de junho, as restrições de viagens foram retiradas e o Palácio de Versalhes e a Torre Eiffel reabriram. O hotel baixou os preços, mas foi de pouca utilidade. "As pessoas ainda hesitam em vir a Paris", diz Radja, 49 anos.

As perspectivas são limitadas entre cancelamentos e adiamentos: em julho, o hotel só será reaberto se o nível de ocupação for de 50% e em agosto fechará.

O impacto é considerável: o hotel perdeu 70% de seu faturamento anual, seus seis funcionários estão em regime de desemprego parcial, os custos fixos continuam a correr e há um grande empréstimo a ser reembolsado devido a uma reforma que custou 2,5 milhões de euros antes de sua abertura em 2018.

Em março, tinha "uma situação de liquidez insustentável". Pensou que teria que demitir os funcionários, mas conseguiu evitar isso graças à ajuda do governo, explica.

Como todas as empresas francesas, o hotel Celeste se beneficiou de medidas excepcionais de auxílio: adiamento do pagamento de impostos e seguridade social, prolongamento do desemprego parcial e empréstimo garantido pelo Estado.

"Este empréstimo foi útil: tomamos emprestado uma certa quantia de dinheiro, importante, não precisamos reembolsá-la imediatamente, não antes de 2021 e em quatro anos".

Para setembro, espera o retorno dos turistas europeus. "Estamos tentando resistir ao golpe", diz, mas "a crise que acabamos de experimentar ainda não acabou".

A França é o principal destino turístico do mundo. O setor, que gera 7% do PIB, teme uma onda de falências após o verão.

Em Dacca, setor têxtil em apuros

"Peço a Alá que mantenha meus clientes na Espanha e Portugal em boa saúde (financeira). Se eles estiverem bem, também estaremos bem".

Para Rubel Ahmed, proprietário da fábrica têxtil Dibbo Fashion, no centro industrial de Aschulia, nos arredores da capital de Bangladesh, tudo se joga a milhares de quilômetros de distância. Todos os anos, exporta camisas no valor de US$ 5 milhões, especialmente para a Espanha.

Quando os dois países do sul da Europa foram confinados, os varejistas adiaram pedidos no valor de centenas de milhares de dólares. Parou de exportar e a fábrica fechou.

Desde o início de maio, as lojas de roupas reabriram na Europa e as exportações são novamente permitidas em Bangladesh.

Enquanto no país "centenas de fábricas faliram ou demitiram funcionários", na Dibbo Fashion o barulho das máquinas é ouvido como antes: a fábrica retomou a atividade e nenhum dos cerca de 300 trabalhadores foi demitido.

Mas a que preço? Além de uma perda de lucro de US$ 100 mil, Rubel Ahmed, de 40 anos, deve pagar um empréstimo com juros baixos concedido pelo governo para pagar seus funcionários e, acima de tudo, dinheiro emprestado por seus parentes.

"Eu tive que pedir emprestado à minha esposa para não fechar. Ficou furiosa. Disse a ela que lhe devolveria quando as exportações fossem retomadas. Mas ela preferia que eu fechasse a fábrica".

Ele sente angústia por sua fábrica, sua esposa, seus dois filhos, seus funcionários que continuam perguntando "se a situação vai melhorar". Ele não tem a resposta.

Nesta semana, um embarque para a Europa deve acontecer, o primeiro desde janeiro.

"Se eu conseguir exportar os pedidos que já foram feitos, poderei seguir em frente", acredita. Mas "se meus clientes os rejeitarem, será a falência". "Não poderei resistir às perdas e dívidas".

A indústria têxtil representa 84% das exportações de Bangladesh. As principais marcas de roupas ocidentais cancelaram bilhões de dólares em pedidos.

Um spa para cães em Nova York

Antes do confinamento, a rede de cuidados para cães Biscuits & Bath tinha 13 lojas em Nova York, empregava quase 220 pessoas e ganhava entre US$ 1 e US$ 2 milhões por mês.

Apenas três lojas foram reabertas, 40 funcionários voltaram ao trabalho (quase todos os demais foram demitidos em março) e os ganhos para junho devem atingir o máximo de US$ 300 mil.

A recuperação é gradual, explica David Maher, diretor de vendas e marketing, e leva mais tempo para concluir o trabalho devido aos protocolos implementados para evitar o contágio.

Mas a empresa, criada há 20 anos, acredita que sobreviverá graças a clientes assíduos que mantiveram contato durante o confinamento, explica Maher. Quando os serviços retomaram em meados de abril, a demanda foi "esmagadora".

Desde então, a rede conquistou clientes fazendo promoções, como novos donos de cães adotados durante o confinamento rigoroso. E com a crise, Maher acredita que haverá menos concorrência.

A demanda "aumenta todos os dias", diz ele, e "o clima é muito otimista". O plano é reabrir outras duas lojas em julho. Então tudo vai depender da demanda a longo prazo, diz ele.

Nos Estados Unidos, as empresas continuam a demitir, apesar da recuperação da atividade e, segundo o FMI, o PIB cairá 8%.

Em Wiesbaden, volta à normalidade para o vidro acrílico

As divisórias transparentes de vido acrílico, baluartes eficazes contra a propagação da epidemia, estão por toda parte: lojas, farmácias ou administrações.

Claus Mueller, 63 anos, chefe da fábrica familiar Plexiglas Riesner em Wiesbaden, ao oeste de Frankfurt, fabricou e vendeu o máximo que pôde no início da primavera.

"Agora se acalmou. As divisórias de proteção eram necessárias para permitir que as empresas reabrissem e a maioria delas está equipada, de modo que a situação se normalizou", explica.

"Certamente voltaremos ao nível de vendas pré-crise".

A demanda foi tão alta que em março, quando a reportagem o entrevistou, Mueller estava preocupado por não poder garantir "capacidade de produção" porque a cadeia de suprimentos estava prestes a parar.

O artigo gerou uma cadeia de solidariedade. "As pessoas nos ligaram e nos ofereceram material", conta. Os pedidos chegaram da Europa, mas "havia tantos que não podíamos" satisfazer a todos.

Mueller se recusou a tirar proveito do plano de resgate do governo alemão para as empresas afetadas pelo confinamento. "Isso seria injusto. Se você é um dos vencedores de uma crise, não pode pedir ao Estado que o ajude".

Em março, seu volume de negócios dobrou em relação ao normal. Dezenas de milhares de empresas, geralmente de propriedade familiar e altamente especializadas, constituem uma das forças econômicas na Alemanha.


AFP



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