Cultura

03/07/2020 | domtotal.com

Diderot, viciado em shopping

Pense duas vezes antes de enfiar a mão no bolso

O triste caso do filósofo consumista deu origem ao termo 'efeito Diderot', presente na história daí em diante e chegando aos nossos dias com todo vigor
O triste caso do filósofo consumista deu origem ao termo 'efeito Diderot', presente na história daí em diante e chegando aos nossos dias com todo vigor (freestocks / Unsplash)

Fernando Fabbrini*

Denis Diderot era um filósofo francês. E como costuma acontecer com intelectuais, o coitado vivia duro, fazendo contas para esticar os ganhos minguados com traduções e resenhas literárias. De repente, surgiu uma nova despesa assustadora: a filha ia se casar e ele não tinha dinheiro pro dote – condição essencial da época.

Felizmente (ou infelizmente, como veremos a seguir) ele foi ajudado na emergência por uma grande amiga – a imperatriz Catarina da Rússia, sua fã por conta da colaboração de Diderot numa das enciclopédias mais famosas daquele período. Catarina, rica e generosa como sempre, abriu os cofres e liberou uma quantia razoável para seu amigo escritor.

Aí a coisa tomou outro rumo. Diderot pagou o dote da filha e, de quebra, comprou um manto vermelho para fazer bonito na festa de casamento. Olhando-se no espelho, o filósofo admirava a roupa nova. Porém, começou a botar defeito no resto – nos seus sapatos, na camisa, nos culotes, nas meias, no tapete da sala, nos armários, nas cortinas, nos quadros. O contraste entre a beleza do manto novo e a feiura – segundo ele – do restante de seus pertences desencadeou um pesadelo. Diderot torrou o resto do dinheiro da amiga Catarina e endividou-se cada vez mais comprando roupas, acessórios e quinquilharias feito um louco.

O triste caso do filósofo consumista deu origem ao termo "efeito Diderot", presente na história daí em diante e chegando aos nossos dias com todo vigor. É uma armadilha sempre pronta para esvaziar nossos bolsos e encher a nossa casa de inutilidades.

Todo mundo já experimentou algo semelhante. Você compra sapatos novos, da moda. Na loja ao lado vê meias que combinam muito melhor com os sapatos. Depois, começa a cismar que aquele terno e aquela camisa já estão meio démodé, assim como a gravata e o cinto de couro. Cuidado: o fantasma de Diderot acaba de reencarnar no seu cartão de crédito. E se você bobear, daqui a pouco vai trocar de carro sem poder fazê-lo – pagando em prestações infindáveis e complicando a vida, tudo por causa do sapato novo.

Jovens, bombardeados pelos ditames da moda, são bem vulneráveis ao risco Diderot. E crianças também, muitas vezes repetindo hábitos dos pais, prisioneiros desse redemoinho consumista e ansioso. Claro que há antídotos para este veneno. Os estudiosos de comportamento recomendam uma única pergunta antes de enfiar a mão no bolso:

– Estou comprando isso porque preciso ou porque quero?

Se Diderot tivesse a prudência de perguntar-se, aproveitaria o casamento da filha, esqueceria o maldito manto novo e não morreria na miséria. E olhem que nem existiam shopping centers na França em 1765.

Em contrapartida, muita gente já percebeu que gastar dinheiro à toa com coisas é uma grande besteira, seguindo a filosofia de Sócrates. Conta-se que o grego adorava passear pelos mercados de Atenas; olhava tudo e não comprava nada. Aos amigos curiosos que lhe inquiriam a respeito, Sócrates respondia:

 – Gosto de ver tudo que não preciso para viver feliz...

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália



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