Religião

03/07/2020 | domtotal.com

Santa insistência

Tomé tinha necessidades pessoais e daí se entende que a régua da comunidade cristã não pode nivelar a todos

Tomé propõe a experiência com o Cristo tocando as marcas de seu fracasso e da potência de quem o arranca da morte
Tomé propõe a experiência com o Cristo tocando as marcas de seu fracasso e da potência de quem o arranca da morte (Free Bible Images/ Lumo Project)

Gustavo Ribeiro*

No imaginário cristão a figura de Tomé é emblemática e representa, sobretudo, os incrédulos. E esta incredulidade se tornou sua marca registrada, por isso, sua profissão de fé, no versículo mais importante da perícope que narra a experiência do apóstolo com o Ressuscitado, fica esquecida.

Não é nosso desejo realizar uma exegese da perícope evangélica, mas de lê-la para uma compreensão da postura cristã neste nosso tempo, tentando encontrar novas pistas na leitura já cristalizada deste texto tão importante.

Leia também:

Neste tempo que tantas questões emergem, sobretudo as mazelas sociais, tendo, inclusive os cristãos e as Igrejas cristãs implicações no que foi produzido de exclusão e violência, qual seria o caminho a ser trilhado pelos que anunciam o Cristo? 

A comunidade é sem dúvidas a grande testemunha do Ressuscitado, mas não pode tolher a experiência pessoal. A manifestação do Ressuscitado é comunitária, mas a experiência é pessoal. Tomé não está na comunidade quando o Ressuscitado aparece, mas é seu seguidor.

Tomé é injustamente tratado como incrédulo, quando na verdade ainda precisava fazer sua experiência. Tomé tinha necessidades pessoais e daí se entende que a régua da comunidade cristã não pode nivelar a todos.

Tomé não é aquele que não crê, mas aquele que precisa experimentar para aprofundar o crer. Ele é repreendido pelo Ressuscitado, mas de maneira nenhuma deve ser tomado como simplesmente um incrédulo, justamente porque já vivia no seguimento de Jesus.

A realidade é o Ressuscitado que se dá a experimentar, que se permite ser tocado, que deve ser tocado para aprofundar a fé. Não é a realidade que produz a fé, mas é ela que a destrava do dogmatismo e a abre para a radicalidade evangélica, porque desperta o cristão para a sua vocação verdadeira de estar no mundo como sinal do Reino.  

Tomé propõe um modelo de cristão que não se prende à argumentação lustrosa de uma comunidade que se perdeu (no nosso caso, não no dele) e que já não apresenta o Jesus da experiência evangélica. Tomé propõe a experiência com o Cristo tocando as marcas de seu fracasso e da potência de quem o arranca da morte.

O apóstolo talvez nos ensine uma "santa insistência", que soa como impertinência no texto evangélico, mas que no nosso contexto, é um exercício necessário. Quando a imagem e a mensagem de Jesus são apresentadas de maneira tão distorcidas e até mesmo fantasiosas ou falsas, é necessário "ver e tocar" o Senhor. Quando testemunho dos irmãos e irmãs ou, sobretudo, das lideranças, já não comunica a fé, é preciso insistir para encontrar pessoal e profundamente o Ressuscitado, como experiência pessoal, mas, também, de resgate comunitário. 

Num tempo em que os psicologismos imperam, propor uma vivência da fé que parta da experiência do real, do concreto da vida é revolucionário. A pós-modernidade é a liquefação do real, a dissolução do concreto. O que em certa medida é benéfico à profissão da fé, porque faz ceder a capa cristalizada das verdades de fé, que aparentavam um lustro, mas na verdade eram subterfúgios tradicionalistas, que nada tem que ver com a radicalidade evangélica. 

Olhar para o apóstolo Tomé hoje nos faz entender que um pouco de dúvida é saudável para a experiência cristã, sobretudo quando a fé tem sido utilizada para justificar tantas barbaridades, quando a Igreja tem sido sustentáculo de tentativas fascistas de governo.

Que Tomé nos ajude a querer experimentar o Ressuscitado para nos colocar à disposição dos que, também, necessitam ver e tocar o Senhor!


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:
https://chat.whatsapp.com/GuYloPXyzPk0X1WODbGtZU

*Gustavo Ribeiro é natural de São Vicente de Minas/MG. Atualmente residindo em São José/SC, onde trabalha como Analista de Pastoral Sênior em um colégio católico. Graduado em Teologia. Graduando em Pedagogia. E pós-graduando em Gestão Escolar. Poeta nas horas vagas, que são poucas.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!