Religião

03/07/2020 | domtotal.com

O diabo é pai da mentira e alguns grupos católicos querem entrar para a família

Fundamentalistas católicos promovem desinformação e chegam a acusar o Vaticano de maus tratos a Bento XVI

O papa emérito Bento XVI no aeroporto de Munique, sul da Alemanha. Fundamentalistas atribuem manchas no rosto a supostas agressões
O papa emérito Bento XVI no aeroporto de Munique, sul da Alemanha. Fundamentalistas atribuem manchas no rosto a supostas agressões (Sven Hoppe/ AFP)

Gilmar Pereira*

A onda de radicalismos políticos tem sua face religiosa e isso tem atingido em cheio a Igreja no Brasil. Alinhados à direita radical, indivíduos e grupos que se arrogam guardiões da fé desferem ataques a correntes teológicas e lideranças católicas. Um golpe recente envolveu fake news com o papa Francisco em suposta agressão ao emérito Bento XVI.

No dia 22 de junho, um canal no YouTube de conteúdo radical alegou que o papa emérito estaria sofrendo maus tratos no Vaticano. O apresentador do vídeo toma uma foto em que Bento aparece com o rosto manchado e começa a levantar suposições a partir de uma fonte aleatória.

"O enfermeiro Diego de Melo tem mais de 15 anos de enfermagem e levantou as seguintes possibilidades numa live feita no Facebook: o inchaço no rosto pode ter sido provocado por agressões físicas, tapas no rosto do santo padre que resultaram nas marcas no seu rosto e no nariz. Podem ser também alimentos tóxicos que causariam esse inchaço. Podem ser alimentos aos quais o papa é alérgico e que, mesmo assim, estão servindo a ele.  Podem estar servindo ao papa algum tipo de chá que estaria envenenando o papa Bento XVI", diz o youtuber.

O autor da teoria conspiratória chega a pedir investigação da CIA e da Interpol, alegando que o santo padre é preso no Vaticano. Pede que se faça "hemograma completo em jejum" (sic) para saber "o que estão dando na alimentação do papa e se ele está sendo envenenado". Ele ainda apela para que Bolsonaro e Trump possam socorrer o pontífice e mobilizem a comunidade internacional. Apesar de estapafúrdia, a teoria encontrou ressonância nas redes com dezenas de milhares de reações (likes), mensagens de apoio e ataques a Francisco, que é visto por essa ala como um "antipapa".

O autor do vídeo se intitula professor Emílio e reside na cidade de Dom Viçoso, pertencente à Diocese da Campanha, no Sul de Minas. Segundo a assessoria, "O bispo da diocese da Campanha, dom Pedro Cunha Cruz, informa que este senhor não fala em nome desta Igreja particular confiada ao bispo. Ele apenas reside no território diocesano, mas não possui vínculo algum com nenhuma paróquia da diocese. O professor Emílio exerce um magistério próprio, sem vínculo com nenhum padre ou bispo". A atuação de Emílio tem se circunscrito sobretudo ao espaço web. Anteriormente ele residiu em Taubaté, onde, segundo fontes da arquidiocese, teve uma passagem ruidosa.

Vale ressaltar que o nomeado professor é formado em matemática e não em algum curso da área da saúde. Isso se percebe no argumento do "hemograma em jejum", haja vista que o resultado desse exame não se altera pela ingestão de alimentos (como no caso da glicemia, por exemplo), e permitiria, numa primeira análise, ver o volume e a quantidade das hemácias. Um envenenamento poderia ser visto em vários outros exames, mas um hemograma não seria suficiente para provar esse ponto, como pretendia o dito professor. Segundo fontes vaticanas, a pele de Bento XVI é muito delicada e comumente apresenta vermelhidões seja por frio ou por sol, como no caso de sua visita à Alemanha, ocasião onde a suposta foto foi tirada.

Como neste caso, a ação de milícias católicas tem encontrado na internet seu púlpito, já que, sem ligação formal com a Igreja, não podem ocupar os microfones dos templos. Um dos nomes mais emblemáticos desse tipo de prática é Bernardo Küster, que recentemente teve seu nome envolvido nas investigações sobre fake news da Polícia Federal. Küster é diretor de um site criado por Olavo de Carvalho e apoiador do presidente Jair Bolsonaro, além de crítico ao papa Francisco.

Em seu canal no YouTube, Küster foi um dos mais ferozes críticos ao Sínodo da Amazônia. Na ocasião, ele se deslocou a Roma para fazer a cobertura do evento. Entretanto, o youtuber não integra o grupo de vaticanistas ordinários que são credenciados junto a Santa Sé. Por jamais ter acompanhado esse tipo de evento in loco, acabou cometendo uma série de erros técnicos e de interpretação. Com uma linguagem forçada, Küster acabou agradando aos bolsonaristas contrários à assembleia e dividindo opiniões. A reunião dos bispos também foi alvo de críticas por parte da ala ultraconservadora católica. Por defender o bioma amazônico e os povos da região e, sobretudo, da ecologia integral, o papa e o sínodo foram acusados de "esquerdismo".

O fenômeno de youtubers de catolicismo radical tem sido recorrente e se espalhado no Brasil. Até mesmo o atual presidente da CNBB, dom Walmor, como arcebispo de Belo Horizonte, sofreu investidas de um movimento denominado Instituto São Pedro de Alcântara. O grupo estava insatisfeito com as jornadas de estudos sobre Teologia e Diversidade Sexual promovido pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje) em 2018 e 2019. O grupo não aceitava o teor dos debates teológicos, confundindo teologia e catequese.

Na abertura da jornada de 2019, um grupo de jovens entrou no campus da Faje, como se fosse assistir ao evento, e abriram faixas no hall do auditório, em silêncio. Foi-lhes pedido que se retirassem do recinto. Os manifestantes ficaram algum tempo na calçada, em frente à faculdade, rezando o terço como "desagravo" ao debate teológico.

Apesar de as pessoas protestando terem sido poucas, sua manifestação ganha maior amplitude nas redes, onde controlam a narrativa. Em vídeos, com aspecto de denúncia de uma suposta degradação da Igreja e da atuação eclesial junto ao ensino superior, os autores teceram críticas à Faje e à Arquidiocese de Belo Horizonte, nas pessoas de dom Walmor e de dom Mol, bispo auxiliar. A arquidiocese chegou a divulgar nota apoiando o ambiente universitário da instituição jesuíta, caracterizando-a como espaço de diálogo e de diversidade.

Segundo o professor e padre Élio Gasda, coordenador do grupo de pesquisa Teologia e Diversidade Afetivo-Sexual, as explicações para essa prática de acossamento na web por grupos tradicionalistas são muitas e variadas, mas adverte que isso não se trata de algo novo. Para ele, grupos assim "sempre existiram, desde o tempo de Jesus de Nazaré e das primeiras comunidades cristãs". Gasda é doutor em Teologia, pós-doutor em Filosofia Política e leciona ética teológica e práxis cristã. 

Segundo sua análise, esses grupos reacionários de extrema direita católica "sempre estiveram aí. Contudo, ganharam muita força, principalmente depois do enfraquecimento do governo do PT, da esquerda, do Lula, da Dilma... Dentro da Igreja eles também foram muito reforçados com João Paulo II. Mais que João Paulo, talvez Bento XVI, que era mais discreto, mas tinha mais solidez teológica", aponta.

Para o professor, esses grupos "têm apego a doutrinas morais, ao moralismo", sendo essa sua grande bandeira. Observando a tentativa de intervenção nos eventos do grupo de pesquisa Teologia e Diversidade Sexual, ele percebe que "são grupos muito pequenos – isso tem que ser dito –, mas que encontraram nas redes sociais um canal de expressão e de manifestação. Ganharam realmente muita força, mas muito mais nas redes do que na vida real. Lembro-me que, aqui na Faje, quando ouvimos sobre sua reação, estávamos preocupados com a multidão que viria protestar. De repente, vieram meia dúzia de gatos pingados, com uma faixinha bem simplesinha, e nada mais. Então, o virtual não correspondeu ao real".

Gasda também aponta a proximidade ideológica desses grupos com os lefebvrianos, bispo que se opôs ao último concílio: "Essa é aquela turma sobre a qual é dito que 'saiu perdendo no Concílio Vaticano II', mas não desapareceu. Eles perderam, mas não foram derrotados; continuaram, na linha do Lefebvre. É um grupo muito pequeno, mas muito forte. Enfrentam, realmente, a esquerda mais progressista, mais aberta, mais crítica, mais profética. Enfrentam o catolicismo de fronteira do papa Francisco, mas também enfrentam e batem de frente com a Canção Nova, com as mídias católicas, pentecostais e neopentecostais. Eles são um grupo muito à parte, parecidos com os fariseus, separados. Não aceitam coisa nenhuma, nem o pentecostalismo católico, nem o a teologia mais avançada, mais aberta, mais progressista. É complicado lidar com esse tipo de grupo, porque são fechados sobre si mesmos".

De fato, tais grupos contam com pouca atuação pastoral prática. Sua ação consiste mais na promoção de sua interpretação do Magistério da Igreja – quase sempre fundamentalista e atenta aos documentos anteriores ao Vaticano II e pós Trento – mesmo que não contem com preparo teológico suficiente. Raramente se engajam nas paróquias e, quando o fazem, costumam promover desavenças em nome de um suposto rigorismo litúrgico.

Quase ausentes da vida da Igreja, esses grupos pequenos se fazem parecer maiores pela internet. "Atualmente as redes, a mídia, a internet lhes deram asas, reforçaram a divulgação desses grupos. Claro que têm seus limites, nós estamos descobrindo isso agora. Têm um alcance muito limitado, mas, ao mesmo tempo, muito midiático, o que não deixa de ser limitado. O que aconteceu foi que as redes deram visibilidade a algo que sempre esteve aí", conclui o professor Gasda.


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*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, possui formação em Fotografia, é estudante de psicanálise e responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total



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