Coronavírus

06/07/2020 | domtotal.com

Vacina contra a tuberculose pode ser alternativa para enfrentar a Covid-19, aponta pesquisa

BCG possui efeitos capazes de ajudar o sistema imunológico a combater algumas outras enfermidades, como câncer de bexiga, esquistossomose e até AIDS

Apesar das previsões positivas quanto à etapa de regulação, ainda não se pode estimar uma data para a oferta da vacina.
Apesar das previsões positivas quanto à etapa de regulação, ainda não se pode estimar uma data para a oferta da vacina. (Sumaia Villela/Agência Brasil)

A Universidade Federal de Minas Gerais está desenvolvendo, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o Instituto Butantan-SP e com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Doenças Tropicais (INCT-DT), uma vacina contra a Covid-19 baseada no uso de BCG recombinante. O objetivo dos pesquisadores é criar uma variante do método de imunização utilizado para tuberculose por meio da expressão de antígenos do vírus Sars-CoV-2.

O projeto foi iniciado em março com base nas pesquisas que o grupo já realizava com a vacina do bacilo Calmette–Guérin, a famosa BCG. Como explica o coordenador do estudo, professor Sergio Costa Oliveira, do Grupo do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB, ela possui efeitos inespecíficos capazes de ajudar o sistema imunológico a combater algumas outras enfermidades, como câncer de bexiga, esquistossomose e até aids.

“Nós pensamos em pegar essa plataforma da vacina existente contra tuberculose, que já é usada há vários anos e se mostrou extremamente segura, e fazer essa bactéria [bacilo Calmette–Guérin] produzir proteínas do vírus Sars-CoV-2, gerando uma vacina dupla. Ou seja, vai funcionar tanto para tuberculose quanto para a covid-19”, esclarece Costa.

Além de prevenir contra duas doenças, o método é resguardado pelo plano nacional de vacinação, o que implica certas facilidades em relação à liberação de uso da vacina. “Quando estamos lidando com vírus, é preciso seguir protocolos de segurança muito rígidos. Como a BCG já é utilizada no Brasil, será muito mais rápido para obter aprovação. Afinal, a única modificação consiste na produção de novas proteínas do vírus pela bactéria”, destaca o professor da UFMG.

O poder da BCG

O trabalho dos pesquisadores tem como foco a bactéria Mycobacterium bovis, alvo da vacina BCG. Ela tem potente efeito adjuvante na indução da imunidade humoral e celular em animais e humanos, o que resulta no aumento da eficiência de vacinas e tratamentos baseados em seu uso. Essa imunização é a mais utilizada no mundo, com mais de quatro bilhões de administrações registradas.

Segundo os pesquisadores, a vacina do bacilo Calmette–Guérin induz proteção em neonatos, apresenta alta estabilidade, pode ser produzida facilmente em larga escala e com baixo custo. O BCG recombinante mantém as vantagens do BCG, que é um organismo de crescimento lento e fornece exposição antigênica de baixo nível e persistente, favorecendo a indução de uma resposta imune celular e/ou humoral duradoura com apenas uma dose. Por conta dessas características, a BGC é tão promissora como base imunizante para a covid-19.

Há também fortes indícios de que a BCG apresenta outros efeitos heterólogos associados à diminuição da mortalidade e menor prevalência de outras infecções. Por isso, muitos especialistas acreditam que, em países onde a vacinação é obrigatória, seria menor a incidência de casos de coronavírus.

A estratégia vacinal do grupo consiste na construção de uma cepa de BCG capaz de expressar a proteína viral spike e do nucleocapsídeo, presente no Sars-CoV-2. Os pesquisadores também pretendem usar um adjuvante para ativar a produção de Interferon do tipo I, proteína que tem desempenhado importante papel na resposta antiviral e no recrutamento de linfócitos.

Testes
Apesar das previsões positivas quanto à etapa de regulação, ainda não se pode estimar uma data para a oferta da vacina. O processo de desenvolvimento está em fase inicial. A expectativa é que os testes com animais em laboratórios sejam concluídos até o fim deste ano, o que possibilitaria avançar para testagem preliminar em humanos em 2021.

Recentemente, o grupo do Laboratório de Imunologia de Doenças Infecciosas da UFMG, junto com outras iniciativas do Programa de Pós-graduação em Genética, coordenado pelo professor Vasco Azevedo, foi aprovado na chamada da Capes 11/2020 em Fármacos e Imunologia. O programa foi lançado, em caráter emergencial, para apoiar pesquisas científicas e tecnológicas destinadas exclusivamente ao combate da pandemia de Covid-19.



Agência UFMG



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