Cultura TV

07/07/2020 | domtotal.com

Pérolas aos poucos

Séries fora do radar que merecem uma conferida

Marco Bocci vive o agente Marco Pagani em 'Infiltrado na máfia'
Marco Bocci vive o agente Marco Pagani em 'Infiltrado na máfia' (Divulgação)

Alexis Parrot*

Tomo emprestado o título da bela canção de Zé Miguel Wisnik e decido escutá-la enquanto seleciono algumas pequenas pérolas que acabam perdidas no vórtice dos catálogos quilométricos das plataformas de streaming.

(Diz a música: "Eu jogo pérolas aos poucos ao mar; eu quero ver as ondas se quebrar. Eu jogo pérolas pro céu, pra quem? – pra você, pra ninguém... que vão cair na lama de onde vêm.)

Injustamente pouco vistas e pouco comentadas, são séries que acabam saindo de cartaz antes que nos demos conta até de sua existência ou disponibilidade. É um pecado mortal dos serviços de streaming que nos fornecem sinopses e fichas técnicas falhas, pouca informação e divulgação ainda mais precária.

Para driblar um pouco esse buraco negro onde muita coisa boa acaba caindo, separei três séries fora do radar que merecem uma conferida.                     

Infiltrado na Máfia (Amazon Prime)

O título brasileiro é óbvio e muito menos sutil que o original, italiano: Solo. É o sobrenome do personagem principal mas também uma anotação sobre a condição inerentemente solitária de um policial infiltrado – nesse caso não na Cosa Nostra siciliana, mas na 'Ndrangheta da Calábria.  

Já vimos essa história várias vezes: o antigo seriado O homem da Máfia partia do mesmo princípio e Johnny Depp viveu um de seus melhores papéis como o agente em crise existencial (secundado por um inesquecível Al Pacino), no filme Donnie Brasco. Ainda assim, o interesse se mantém; talvez pelo algo de áspero e incômodo que sustenta tanto a trama quanto a execução da série.

A produção não é milionária e, talvez por isso mesmo, não busque o operístico. A calabresa Gioia Tauro, onde se passa a maior parte da ação da primeira temporada é um lugarejo miserável, sem as possibilidades de orgasmo visual que outras regiões da Itália permitem. De imponente ali, apenas o mar e a voracidade das famiglias que lutam pelo controle do porto.

Está longe da sofisticação dramática de uma Suburra, mas com interpretações intensas e ganchos bem construídos, a guerra entre Coronas e Garganos prende a atenção e satisfaz os admiradores do gênero. Estes bandidos não se encaixam n'O poderoso chefão e nem n'Os bons companheiros porque estão mais para milicianos do que para mafiosos clássicos – o que, infelizmente, nos faz sentir muito próximos do que estamos assistindo. 

Visible – Out on Television (Apple TV+)

Muito antes de Pose, Rupaul's drag race, Queer eye, When we rise, Transparent ou a brasileira Drag me as a queen cogitarem de existir, a maneira como a comunidade LGBTQ+ e suas questões eram vistas e tratadas pela televisão nem sempre primou pelo respeito ou pelo humanismo. Se estes programas e outros tantos alcançaram um lugar ao sol no mainstrean televisivo, é porque houve pioneiros e pioneiras antes deles, responsáveis por um legado a ser reconhecido e comemorado. 

Esta celebração existe, é a série documental Visible – out on television. Sem meias palavras, por meio do depoimento de várias personalidades assumidamente fora da heterocisnormatividade e vasto material de arquivo, o programa monta um precioso painel histórico e crítico sobre como a TV dos EUA vem tratando o tema, desde seus primórdios.

Segundo a série, foi durante a transmissão dos inquéritos anticomunistas do McCarthysmo (verdadeira caça às bruxas implementada pelo Senado norte-americano nos anos 50) que a palavra "homossexual" foi dita pela primeira vez na televisão, evidentemente em conotação pejorativa. Ficamos sabendo também que o galã Raymond Burr, intérprete do personagem clássico Perry Mason, era gay e tinha marido – embora, como era praxe obrigatória até bem pouco tempo, nunca tenha assumido publicamente sua orientação sexual. 

Testemunhos pungentes de estrelas como Ellen DeGeneres, Neil Patrick Harris, Michael Douglas e Laverne Cox, somados à participação de ativistas, nos fazem refletir e emocionam. Visible – out on television é um programa obrigatório para todos os integrantes, simpatizantes ou envolvidos de alguma maneira com a comunidade LGBTQ+ mas, principalmente, para aqueles outros que não enxergam a causa como problema seu.

Em tempos de radicalização do conservadorismo nos costumes e na política, é importante que todos nós tenhamos a exata noção do desserviço prestado pela televisão quando escolhe assumidamente abraçar o preconceito e a discriminação. Para que a história não se repita, o problema deve ser encarado como de cada um de nós.    

Shape of Pasta (Quibi)

Um dos primeiros lançamentos da nova plataforma Quibi, com produtos para serem assistidos apenas no celular. Misto de Tik Tok com Netflix, toda sua programação é composta de vídeos com dez minutos ou menos, para serem consumidos em trânsito ou por quem acha que não tem tempo a perder.

Em uma primeira temporada de sete episódios, o chef norte-americano Evan Funke nos leva para conhecer massas de formato raro, produzidas apenas em localidades específicas da Itália. Com episódios de menos de dez minutos, nem é preciso dizer que só se visita um local de cada vez.

Apaixonado pela massa artesanal, Funke empreende essa viagem para aprender a técnica dessas iguarias e travar conhecimento com as responsáveis pela sua produção. São todas nonnas clássicas, verdadeiras mestras de saberes e fazeres populares, à frente da tarefa de manter viva a tradição culinária daquela região.

Além da verdadeira experiência cultural de poder testemunhar em detalhes a manufatura de tipos de massa fresca cuja existência o simples mortal desconhecia por completo, agrada ver a reverência com que o chef trata o assunto e as personagens do programa.

Grande, barbudo e careca, Funke parece mais um lenhador à primeira vista. Mas o visual pesadão é contraponto para sincera humildade e sensibilidade à flor da pele, o que só serve para torná-lo mais interessante como apresentador. O respeito extremo pela cultura que está visitando traduz-se em pura emoção no momento do encontro. O homem se porta em restaurantes e cozinhas com o mesmo ardor e solenidade que um católico visita as igrejas em Roma.

Gordon Ramsey tem muito a aprender com Evan Funke.

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL



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