Coronavírus

07/07/2020 | domtotal.com

Na contramão da ciência mundial, Bolsonaro insiste na eficácia da cloroquina

Infectado, presidente diz usar o medicamento que não tem comprovação no combate à Covid-19

Bolsonaro mostra medicamentos durante uma de suas habituais lives
Bolsonaro mostra medicamentos durante uma de suas habituais lives (Reprodução/Facebook)

Isabela Santiago

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou nesta terça-feira (7) que está infectado pelo novo coronavírus. Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem mantido uma postura de minimizar a doença, chamando-a de "gripezinha" e indo na contramão das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), quanto ao distanciamento social e uso de máscara, por exemplo.

Mas uma das posturas do presidente tem se mostrado firme: a alegação do uso da cloroquina e hidroxocloroquina no combate à doença. Mesmo sem nenhuma comprovação científica, Bolsonaro sempre colocou tais medicamentos, usados no combate à malária e artrite reumatóide, como uma verdadeira tábua de salvação contra o novo coronavírus.

O presidente do Brasil se espelhou no comportamento de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que foi um dos pioneiros a falar sobre a cloroquina. No dia 19 de março, quando a epidemia registrava pouco mais de 10 mil casos confirmados e 150 mortes, Trump declarou com otimismo os estudos sobre o medicamento no combate à Covid-19. "Vamos poder fazer com que esse medicamento esteja disponível quase de imediato", disse aos jornalistas.

A partir de então, Bolsonaro começou a fazer declarações públicas sobre o uso da substância. 

"Sabe quando esse remédio (hidroxicloroquina) começou a ser produzido no Brasil? Ele começou a ser usado no Brasil quando eu nasci, em 1955. Medicado corretamente, não tem efeito colateral". (Bolsonaro,  dia 25 de março de 2020)

Ainda no final de março, pouco se sabia sobre os efeitos da cloroquina no tratamento da Covid-19, a não ser que era um medicamento antigo e barato usado principalmente no tratamento da malária. Tendo, porém, múltiplos efeitos colaterais, como náuseas, vômito, erupções cutâneas e condições oftalmológicas, cardíacas e neurológicas. À época, alguns estudos tinham mostrado uma relativa melhora do quadro de pacientes com doença que tomaram a hidroxicloroquina associada à azitromicina.

No dia 30 de março, a A 'Food and Drug Administration' (FDA), agência que regulamenta os medicamentos nos Estados Unidos (FDA), autorizou o uso limitado da cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento do novo coronavírus no país, para a alegria de Trump.

“Há 40 dias venho falando do uso da hidroxicloroquina no tratamento do Covid-19. Cada vez mais o uso da cloroquina se apresenta como algo eficaz” Bolsonaro, dia 8 de abril de 2020.

No início de abril, apenas três de 65 estudos que investigavam os efeitos da cloroquina contra a Covid-19 estavam finalizados e já mostravam resultados controversos. Nesse período, o uso da droga acabou sendo autorizado por algumas autoridades, mas de modo compassivo, tendo em vista os efeitos colaterais da medicação.

A discussão sobre o uso do medicamento foi uma das causas para a saída de Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido do cargo de ministro da Saúde pelo presidente no dia 16 de abril. Seu sucessor, Nelson Teich, seguiu pela mesma linha e pediu exoneração do cargo no dia 15 de maio, exatos 28 dias após ter assumido o cargo. Tanto Mandetta quanto Teich são médicos e se colocaram na contramão daquilo que Bolsonaro acreditava ser o correto: implantar o uso da cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.

Somente em maio é que os resultados de estudos envolvendo as substâncias começaram a mostrar que não havia comprovação entre a cura do novo coronavírus e o uso da cloroquina. E mais que isso, que o uso dessas substância poderia agravar os quadros em alguns pacientes com problemas de coração, por exemplo. 

"Até porque não tem outro remédio. É o que tem. Ou você toma cloroquina ou não tem nada. O que eu fico chateado também é que quem não quer tomar, não toma" (Bolsonaro, 23 de maio de 2020)

No dia 25 de maio, a cloroquina teve seus testes suspensos pela OMS por conta de um estudo publicado no dia 22 pela revista científica The Lancet que revelou um aumento da mortalidade de pacientes infectados que fizeram o uso da substância. Mesmo assim, o Brasil seguia na contramão, tendo seu uso liberado.

Enquanto isso, a doença continuou se expandindo por todo o mundo e, principalmente pelo Brasil, atualmente  o 2º país no ranking de infectados e mortos pelo novo coronavírus no planeta, perdendo apenas para os Estados Unidos. Essa ascensão da doença deve-se, principalmente, à uma falta de planejamento e organização para o controle da Covid-19. Governos municipais e estaduais foram se organizando autonomamente, enquanto, até hoje, o Brasil se encontra sem um ministro da Saúde efetivo em meio ao caos de uma pandemia.

Nesta terça-feira (7), um estudo francês feito com cerca de 55 mil pacientes concluiu que o uso da cloroquina e hidroxicloroquina não tem nenhum efeito preventivo em relação à Covid-19.

O que resta saber é o motivo do presidente, mesmo estando com a doença, continuar batendo na tecla do uso da cloroquina para o tratamento do novo coronavírus quando já não existem provas da sua eficácia.

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