Brasil

07/07/2020 | domtotal.com

Veterinária que alugou casa para capitão Adriano, miliciano morto na Bahia, é investigada

Ex-PM estaria envolvido em esquemas de 'rachadinha' no gabinete de Flávio Bolsonaro

Ex-capitão da PM, Adriano Magalhães da Nóbrega foi morto em confronto na Bahia
Ex-capitão da PM, Adriano Magalhães da Nóbrega foi morto em confronto na Bahia (Reprodução)

Uma veterinária do Rio de Janeiro pode ajudar os investigadores a descobrir o patrimônio oculto do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano, morto em fevereiro na Bahia, e a entender como funcionava a "rede de amigos" que lhe dava proteção. Acusada de ser funcionária fantasma em uma agência do Tocantins, Juliana Magalhães da Rocha alugou, por R$ 50 mil e em seu nome, uma casa na Costa do Sauípe, onde o miliciano passou a virada do ano.

Investigada pela polícia e pelo Ministério Público no Rio e na Bahia, Juliana já foi tratada por investigadores como prima e cunhada do capitão Adriano. A veterinária teria negociado o aluguel da casa de veraneio de 5 de dezembro a 5 de fevereiro com a viúva do ex-PM, Julia Emília Mello Lotufo. Parte do pagamento foi feito em dinheiro vivo, segundo a investigação. A polícia da Bahia cercou a casa no fim de janeiro, mas Nóbrega conseguiu escapar.

O nome da veterinária foi citado nas investigações pela primeira vez por Leandro Abreu Guimarães, competidor de vaquejadas da Bahia, que acolheu capitão Adriano em sua propriedade, em Esplanada, para onde o miliciano fugiu após a batida policial na Costa do Sauípe. "Juliana, na condição de veterinária, cuida de animais no circuito de vaquejada, e disse ter conhecido o Adriano em função da profissão", diz registro do depoimento, em 12 de abril.

Preso por porte ilegal de armas, Guimarães ficou alguns dias na cadeia e foi liberado, com tornozeleira eletrônica. Ele disse desconhecer a ligação do amigo com a milícia e negou tê-lo ajudado na fuga. Nóbrega foi morto num povoado vizinho, na propriedade do vereador Gilson da Dendê (PSL), que também disse não ter nada a ver com o caso. Durante ano em fuga e, segundo investigadores, passou também por Tocantins, Sergipe, Rio Grande Norte e outros estados.

Embora não seja foragida, Juliana nunca foi encontrada por investigadores, nem na apuração sobre capitão Adriano, nem para ser notificada no processo em que é acusada de ser funcionária fantasma no Tocantins.

Defesa nega vínculo com capitão Adriano

O advogado Danilo Bezerra de Castro, que defende a veterinária Juliana Magalhães da Rocha em um processo que corre no Tocantins, disse desconhecer vínculos dela com o ex-PM. 

O Ministério Público do Tocantins moveu ação cível contra Juliana em janeiro de 2019, afirmando que ela recebeu salário da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Tocantins (Adapec) de julho de 2015 a outubro de 2016 sem trabalhar. O pedido decorre de um processo administrativo, aberto em 2016, que resultou na demissão de Juliana em agosto de 2018. 

Na ação, o promotor Gustavo Schult Júnior informa que "declarações colhidas de servidores" confirmam que ela "não comparecia ao serviço". A Justiça do Tocantins tentou notificar a veterinária no endereço do Rio, mas não a localizou. 

O advogado de Juliana nega que sua cliente fosse "funcionária fantasma". Castro disse que a acusação foi feita, de forma injusta, por outro servidor da Adapec com quem ela se desentendeu. Por nota, a Adapec informou que a veterinária foi aprovada em um concurso público em dezembro de 2014, contratada em janeiro 2015 e exonerada no ano seguinte, "pela prática da infração disciplinar de abandono de cargo". 

Rachadinha

Investigadores seguem rastros do dinheiro movimentado pelo ex-PM em duas frentes: a que apura assassinatos, extorsão e formação de quadrilha da milícia Escritório do Crime e a que tem como objetivo supostos crimes de organização criminosa e peculato no antigo gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

A ex-mulher do miliciano, Danielle Mendonça da Nóbrega, e a mãe dele, Raimunda Veras Magalhães, trabalharam no gabinete de Flávio de 2007 a 2018. O Ministério Público do Rio afirma que as duas eram "fantasmas" e formavam um dos núcleos do esquema de "rachadinha", quando assessores contratos devolvem parte dos salários para o deputado.

Danielle e Raimunda receberam R$ 1 milhão em salários da Alerj no período. Segundo os promotores do Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção (Gaecc), pelo menos metade desse valor retornou por meio de transferências, cheques ou depósitos para conta do ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz, apontado como operador do esquema.

Preso desde o último dia 18, Queiroz trabalhou com Nóbrega no 18º Batalhão da PM, no Rio. Desde 2003, a dupla é investigada pela morte de um homem, durante abordagem na Cidade de Deus. O caso não foi concluído. Ainda de acordo com o MP, em dezembro, a mulher de Queiroz, Márcia de Oliveira Aguiar, que está foragida, e um advogado de Flávio, Luiz Gustavo Botto Maia, se encontraram com a mãe do ex-PM no sul de Minas para discutir a fuga para família Queiroz.

O ex-assessor teria mantido "contatos recentes" com o miliciano e participado da rede de proteção de seus familiares, segundo o MP. No pedido de prisão de Queiroz, os promotores dizem que Raimunda foi orientada por ele a "permanecer escondida, temendo a retomada da investigação".

Queiroz e Nóbrega são apontados como responsáveis por impedir que Danielle fosse a um depoimento no Ministério Público e ordenar que ela "não mencionasse em conversas telefônicas os crimes praticados na Alerj." Segundo o MP, isso pode ser embaraço às investigações. 

Defesas

Fabrício Queiroz contratou o advogado Emílio Catta Preta, que defendia Nóbrega e a família dele. O criminalista nega que Queiroz tenha cometido qualquer ilegalidade. Em recursos entregues à Justiça, afirma que o Ministério Público fez ilações que ignoram fatos. 

O senador Flávio Bolsonaro, defendido pelos advogados Rodrigo Roca e Luciana Pires, nega irregularidades. Sua defesa conseguiu no Tribunal de Justiça do Rio, decisão que garantiu foro especial para ele – retirando o processo da primeira instância, sob responsabilidade do juiz da 27.ª Vara Criminal, Flávio Nicolau Itabaiana. Pela decisão, o caso das "rachadinhas" será julgado pelo Órgão Especial do TJ. O MP recorre da decisão. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


Agência Estado



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