Religião

10/07/2020 | domtotal.com

Sobre curas e libertações: uma reflexão crítica

Risco de cultos cristãos se tornarem meros espetáculos é bastante real

O desejo obstinado da cura pode cegar o fiel para as más intenções de quem, em nome da fé, só quer extorquir dinheiro
O desejo obstinado da cura pode cegar o fiel para as más intenções de quem, em nome da fé, só quer extorquir dinheiro (Unsplash/ Rosie Fraser)

Felipe Magalhães Francisco*

Jesus foi um taumaturgo. Isto é: ele realizava atos de poder, o que comumente se chama de "milagres" nos meios cristãos. No judaísmo daquele tempo, o que o Nazareno fazia não era nenhuma novidade: havia outros taumaturgos. A grande inovação na atuação de Jesus, ao curar enfermos e libertar pessoas perturbadas pelos males, foi a de atribuir esses acontecimentos à inauguração do Reino de Deus que ele anunciava. No episódio narrativo, no qual João Batista, preso, envia seus discípulos para confirmar se Jesus era mesmo o Cristo, a resposta do Nazareno foi a de que os discípulos fossem contar a João o que eles viam: pessoas eram curadas e libertas (cf. Lucas 7,18-23).

Preferimos a expressão "atos de poder", para dizer o que Jesus fazia, uma vez que os próprios evangelhos evitam o uso do termo "milagre" e, quando o fazem, é em sentido crítico. Jesus, segundo as narrativas, critica o povo que ia até ele, apenas interessado nos milagres. O evangelista João torna sua reflexão ainda mais profunda, quando chama os atos de poder de Jesus de ?sinais?: eles não têm fim em si mesmos, mas apontam para algo muito maior. É nesse sentido que os evangelhos usam o termo milagre em sentido crítico. O que Jesus realiza na vida das pessoas é algo muito maior que as curas e libertações, simplesmente. Os atos de poder de Jesus carregam um sentido ético bastante forte.

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Cada pessoa curada ou liberta por Jesus estava em situação de vulnerabilidade: social, econômica, religiosa... Quando Jesus atua em prol dessas pessoas, ele não apenas lhes restitui a saúde. É bem mais que isso: ele as integra na vida do seu próprio povo, uma vez que os males que as afligiam as submetiam à marginalidade. Isso era o Reino de Deus acontecendo, quando os empobrecidos e empobrecidas, em primeiro lugar, ganhavam a feliz oportunidade de usufruir do cuidado salvífico de Deus, manifestado no Filho Jesus. É por essa questão eminentemente ética do Reino de Deus, que Paulo critica a comunidade de Corinto, por hipervalorizar os dons carismáticos: se eles não estivessem a serviço do amor, tão próprio do Reino, eles não tinham sentido algum (1Coríntios 12-13).

Rememorar tudo isso é deveras importante quando o risco de cultos cristãos se tornarem meros espetáculos é bastante real. O processo crescente de subjetivação da experiência dá fé, por meio de psicossomatismos, e o interesse por parte de lideranças em arrebanharem um número sempre alto de fiéis nos cultos e celebrações são um prato cheio para esse risco de uma experiência religiosa que apenas foca nas manifestações carismáticas, sobretudo de curas e pretensas libertações. Para além do prejuízo da fé, esse caminho favorece bastantemente o personalismo religioso, tornando-se verdadeiro culto às pessoas daqueles que operam os "milagres". Em nosso país, basta uma mudança de canais de TV para vermos como isso está terrivelmente presente no seio cristão. Sem contar o quanto isso se torna lucrativo para os charlatães!

O charlatanismo de muitos milagreiros não costuma ser questionado, por muitas pessoas, pela "efetividade" dos milagres que, aparentemente realizam. Ora, do ponto de vista científico, há muitas questões que se deve levar em conta. Uma delas, sem dúvidas, é a força do sugestionamento. Sabemos que somos um todo, e não pessoas com corpo, alma e espírito estanques: o que afeta o corpo, certamente afeta a mente e vice-e-versa. O sugestionamento, então, entra nessa perspectiva da integralidade da pessoa humana: do ponto de vista psíquico, é bem possível que alguém, que ocupe um pretenso lugar de saber (ou autoridade), atue sugestivamente, a fim de que um sintoma físico cesse. Não significa, em todo o caso, que houve cura. É interessante que, no processo de desenvolvimento da psicanálise, o sugestionamento, a partir da hipnose, foi uma ferramenta utilizada por Freud, o que logo foi abandonado, pelo fato de tal prática não resolver, de modo profundo, a causa do problema, mas apenas o sintoma.

Do ponto de teológico, há uma antiga tradição de pensamento, que remonta ao período escolástico, a respeito de a Graça divina ser infinitamente maior que o ministro que opera os sacramentos. Assim, a atuação salvífica da Graça divina não depende do sujeito que ministra a ação cultual. Ainda que essa questão teológica não seja aceita por muitos, por simplesmente ver os ministros litúrgicos como meros instrumentos, há algo nela, para o nosso caso específico, que é preciso se levar em conta. De um lado, temos o fiel, sofrendo por um mal que lhe aflige, e com bastante vontade e fé de que se cure; de outro, muitas vezes, alguém que se aproveita da ingenuidade e da simplicidade da fé de muitos, para extorquir, oferecendo curas e milagres. Não atuaria, a graça de Deus, nalgum desses casos, trazendo o refrigério para a pessoa que sofre, dada a força interior de sua fé? Aqui, a fé está intimamente ligada à vontade do sujeito: há estudos que buscam mostrar a força do pensamento positivo, por exemplo, no processo de enfrentamento de uma doença, como auxílio de cura.

Não queremos dizer, com isso, que toda oração por cura e libertação seja produto de meios marcados pelo charlatanismo. Aqui, pois, vale o valioso dom do discernimento dos espíritos. No caso dos meios cristãos, o fiel da balança, para verificarmos se alguém atua de modo sincero, honesto e fiel para com a fé, é o Evangelho do Reino, que conta com a gratuidade do serviço de quem o prega com palavras e obras. Além disso, é preciso investir no fortalecimento de uma fé profunda e autêntica, por parte dos fiéis, a fim de que a experiência religiosa ultrapasse uma relação de interesse com o divino; bem como para que consigam romper com os oportunistas, que se apropriam da fragilidade alheia para possuir poder, em suas muitas facetas. A verdadeira cura e libertação, pois, é a do poder da mentira e da enganação!


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*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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