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11/07/2020 | domtotal.com

25 anos do massacre de Srebrenica, na Bósnia

Mais de 8 mil homens e adolescentes bósnios (muçulmanos) foram mortos no genocídio; Mães e viúvas vivem em agonia até hoje

Lápides de vítimas do massacre de Srebrenica em um memorial na cidade de Potocari
Lápides de vítimas do massacre de Srebrenica em um memorial na cidade de Potocari (AFP)

Em 1995, mais de 8 mil homens e adolescentes bósnios (muçulmanos) foram assassinados em Srebrenica, uma cidade que caiu no dia 11 de julho daquele ano nas mãos das forças sérvias da Bósnia. O massacre, qualificado de genocídio pelo Tribunal Penal para a ex-Iugoslávia (TPII), foi o mais grave na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

As forças sérvias do general Ratko Mladic, condenado à prisão perpétua pela justiça internacional, realizaram o massacre, que ocorreu cinco meses antes do fim da guerra da Bósnia. O conflito que envolveu bósnios, sérvios e croatas entre 1992 e 1995 deixou 100 mil mortos e 2,2 milhões de refugiados.

A queda da cidade

Desde o início do conflito na Bósnia, em abril de 1992, as Forças Armadas sérvias cercaram Srebrenica, uma cidade de maioria muçulmana na Bósnia oriental, a 15 quilômetros da Sérvia.

Em abril de 1993, em uma última tentativa de evitar a queda da cidade, a ONU declarou como "zona de segurança" uma área de 148 quilômetros quadrados e enviou Capacetes Azuis para assegurar a proteção.

Em 11 de julho de 1995, porém, Srebrenica caiu nas mãos das tropas do general Ratko Mladic, comandante militar dos sérvios da Bósnia, partidário, como seu alter ego político Radovan Karadzic, de uma "República sérvia" etnicamente pura.

Sem armas e sem apoio aéreo, os Capacetes Azuis holandeses da Forpronu (Força de Proteção das Nações Unidas) recuaram para a base vizinha de Potocari, onde observaram a chegada de milhares de civis que esperavam proteção, mas que foram deixados para trás.

A matança

Nos dias seguintes, as forças sérvias da Bósnia separaram os homens e adolescentes muçulmanos das mulheres e os levaram em caminhões para a execução. Centenas de homens que fugiram para as florestas próximas  foram capturados e assassinados.

As escavadeiras começaram a enterrar os corpos em valas comuns. A maioria das valas foi posteriormente aberta com tratores para deslocar os cadáveres e dissimular o alcance do crime.

Em poucos dias, o massacre deixou mais de 8 mil mortos. Os primeiros depoimentos reunidos pelas organizações humanitárias apontam as atrocidades cometidas pelos homens de Mladic.

As condenações por genocídio

Até o momento foram 15 condenações, cinco delas por genocídio, e há dois julgamentos em curso contra três homens. Radovan Karadzic foi condenado em 2019, em um julgamento de apelação no TPII, à prisão perpétua.

Karadzic foi a principal autoridade a prestar contas. O ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic morreu em 2006 durante o julgamento.

Em 2017, a Justiça internacional condenou à prisão perpétua seu braço armado, Ratko Mladic, conhecido como o "açougueiro dos Bálcãs".

Ele ainda tem pendente um julgamento em apelação no Mecanismo Internacional dos Tribunais Penais Internacionais (MTPI), que assumiu o lugar do TPII após seu fechamento em 2017.

Críticas à comunidade internacional

A comunidade internacional foi acusada de abandonar as vítimas, sobretudo, por não ter ordenado ataques aéreos.

Em um relatório publicado no ano 2000, Kofi Annan, então secretário-geral da ONU, culpou o conjunto da comunidade internacional por seu fracasso em assumir a proteção de Srebrenica.

Um ano mais tarde, um relatório da missão de investigação da Assembleia Nacional francesa apontou a responsabilidade dos sérvios, mas também da ONU e de Estados como a França, que participaram das operações de manutenção da paz.

Uma ferida aberta na Holanda

A atitude dos Capacetes Azuis holandeses continua sendo uma questão sensível na Holanda. Em 2002, o governo holandês renunciou após a publicação de um relatório sobre sua responsabilidade no massacre de Srebrenica.

Vários casos relacionados com o massacre chegaram à Justiça holandesa, muitos deles graças às Mães de Srebrenica, uma associação de famílias das vítimas.

Em 2014, o Estado holandês foi considerado civilmente responsável pela morte de 350 muçulmanos que se refugiaram em Potocari. Mas, em 2019, o Tribunal Supremo da Holanda inocentou parcialmente o Estado por considerar que sua responsabilidade não poderia ser totalmente comprovada.

A agonia das viúvas de Srebrenica 25 anos após genocídio

Mejra Djogaz, 71 anos, sobrevivente do massacre de Srebrenica, junto ao túmulo de seus filhos Omer, 19, e Munib, 21 (Elvis Barukcic/AFP)Mejra Djogaz, 71 anos, sobrevivente do massacre de Srebrenica, junto ao túmulo de seus filhos Omer, 19, e Munib, 21 (Elvis Barukcic/AFP)Fátima Mujic recita várias vezes ao dia a oração dos mortos, por seus filhos e seu marido, mortos no genocídio de Srebrenica. Mas quando pensa em Refik, seu filho mais velho, a dúvida toma conta, porque 25 anos após o massacre seu corpo ainda não foi encontrado.

"Eu ainda acho que ele está vivo em algum lugar. Para os outros, eu já sei o que aconteceu, mas quando oro por ele, minhas mãos tremem, não sei o que fazer", disse esta viúva de Srebrenica, no leste da Bósnia.

Dois de seus três filhos e seu marido, cujos corpos foram encontrados em valas comuns depois da guerra, foram enterrados em 2010 no Monumento ao Genocídio de Srebrenica. O Monumento, construído perto de Srebrenica, é um memorial e também um cemitério onde repousam 6.643 vítimas do massacre de julho de 1995.

Duzentas e trinta e sete outras vítimas foram enterradas fora da Bósnia. Mais de mil pessoas ainda estão desaparecidas.

Fátima Mujic, de 75 anos, vive em Ljesevo, uma cidade perto de Sarajevo. Afirma que vive esperando "a ligação" que anunciará que o corpo de Refik foi encontrados. Ele tinha 25 anos, uma filha de 18 meses e um menino de 40 dias.

Mas as últimas das 84 grandes valas comuns foram descobertas em 2010.

"Mamãe, não me deixe"

Desde julho de 2019, "os restos mortais de apenas 13 vítimas foram encontrados", diz Emza Fazlic, porta-voz do Instituto de Pessoas Desaparecidas, e lamenta "a falta de informação" que permitiria encontrar os restos desaparecidos.

Poucos dias após o 25º aniversário do massacre, neste sábado (11), Fátima recorda seu "combate" frente às forças da ONU em Potocari, perto de Srebrenica, onde hoje está o memorial, para salvar seu filho mais novo, Nufik, de 16 anos.

Milhares de mulheres, crianças e idosos se reuniram na área em 11 de julho de 1995, na esperança de obter a proteção dos soldados holandeses.

Os soldados sérvios separavam os homens e os adolescentes dos outros e os levavam para executá-los.

Nufik "grudou em mim e disse 'mamãe, não me deixe'. Eu acariciei seus cabelos encaracolados e disse 'não vou deixar você'. Eles o levaram embora, eu os segui", conta Fátima. Seus outros dois filhos e o marido, que haviam fugido pelas colinas arborizadas, foram capturados.

Nem ódio nem reconciliação

Outra viúva, Mejra Djogaz, de 71 anos, decidiu passar o resto de seus dias onde sua vida "parou" há 25 anos. Mora em uma casa ao lado do memorial. Todas as manhãs, quando sai para regar as plantas no quintal, vê milhares de estelas brancas.

Omer e Munib, seus dois filhos que morreram no massacre, descansam ali. Tinham respectivamente 19 e 21 anos de idade. "Não tenho motivos para viver. Cuido das flores, mas estão estão nessa terra escura", diz.

Seu terceiro filho, Zuhdija, de 20 anos, e seu marido Mustafa haviam sido mortos três anos antes, em 1992, durante o cerco a Srebrenica.

"Meus filhos não fizeram mal a ninguém, não bloquearam o caminho nem de uma formiga. Pergunto-me por que mataram meus filhos? Eram meus vizinhos", diz, referindo-se aos militares sérvios que moravam em sua cidade.

Ramiza Gurdic, 67 anos, também se pergunta "quem são esses homens" que mataram seus dois filhos e seu marido. "Eles tinham filhos, como era a alma deles?"

Mehrudin tinha 17 anos e Mustafa 20. Com o pai, fugiu pela floresta. Mustafa temia o pior. "A separação foi difícil. O mais velho tinha um cigarro na boca e já preparava outro. Ele disse: 'Mãe, nunca mais vou te ver'. O mais novo não disse nada", explica Ramiza.

Seus restos mortais foram encontrados, mas apenas "metade de Mehrudin". Ramiza tem esperança de encontrar a outra metade. "Sua mãe não o trouxe ao mundo sem cabeça ou braços. Ele os tinha e era um menino bonito", afirma.

No entanto, não guarda rancor de seus assassinos. "Que Deus lhes dê o que eles merecem (...) Nem ódio, nem mal, mas também nada de reconciliação", diz.


AFP



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