Religião

10/07/2020 | domtotal.com

Por que protestar contra a injustiça é um ato fundamentalmente cristão?

Cristo protesta contra um mundo usurpado pelo pecado e pela morte

Cristo protesta contra um mundo usurpado pelo pecado e pela morte, e protesta em nome de um mundo transfigurado pela ressurreição
Cristo protesta contra um mundo usurpado pelo pecado e pela morte, e protesta em nome de um mundo transfigurado pela ressurreição (Maria Oswalt/ Unsplash)

Thomas Graff*
America

"E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão? E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra. E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão" (Gênesis 4, 9 -11)

Em mais um evento de brutalidade policial sancionada pelo governo, os Estados Unidos testemunharam o assassinato de George Floyd pelo policial Derek Chauvin em Minneapolis. Cumpre-se, angustiosamente, aquilo que a filósofa política Hannah Arendt definiu contra intuitivamente como a "banalidade" do mal, o oficial Chauvin parecia assustadoramente calmo enquanto asfixiava lentamente o Floyd com o joelho do lado de fora de uma loja de bairro: oito minutos e 46 segundos de silêncio ensurdecedor e incontestado, salvo o protesto lamentável dos transeuntes e do próprio Floyd, ofegando o suficiente ar para chamar sua mãe.

Como protestamos contra uma execução tão grotesca de injustiça? Como, de fato, clamamos pelo final do silencioso racismo sistêmico, que se modifica em resposta a cada vitória dos direitos civis, a fim de garantir sua transmissão para a próxima geração?

Um inventário de nossos tesouros

Como católico, tem sido encorajador e motivador acompanhar a resposta da Igreja Católica à morte de George Floyd: escuto a liderança clerical denunciar o "perigo real e presente" e a "realidade contínua" do racismo nos Estados Unidos; ouço vozes proféticas leigas, incluindo Gloria Purvis, apresentadora de rádio da EWTN, chamando-nos a considerar até que ponto o racismo se tornou um "ponto cego" eclesial entre católicos brancos; mas encontro poucas comunidades da Igreja Católica marchando ao lado de nossos irmãos e irmãs cristãos e não-cristãos.

Por que não estamos, como o ministro presbiteriano, reverendo Alexis Wagoner, da Igreja da Aldeia na cidade de Nova York, descreveu recentemente: "devemos colocar nosso corpo onde está nossa teologia"? Talvez, de fato, estejamos fazendo isso quando pensamos que privatizar cada vez mais uma religião significa privatizar os corpos. Cumprimos, e não esquecemos, nossa teologia encarnada.

Na pior das hipóteses, os cristãos preferiram gritar e protestar pelos danos materiais à igreja e os grafites, sem saber que nossa imagem litúrgica central é a imagem do Cristo crucificado, cujo corpo foi quebrado pela violência e adornado com o grafite romano, "INRI". Ou seja, nossa fidelidade a Cristo e a seu corpo, a Igreja, tem menos a ver com nos tornarmos uma Igreja prejudicada por danos e pelo fogo, do que uma Igreja compassiva próxima aos que mais sofrem os danos.

O cardeal São John Henry Newman certa vez opinou sobre a tradição intelectual e espiritual cristã: "[...] temos uma vasta herança, mas nenhum inventário dos nossos tesouros". Em uma breve tentativa de fazer um balanço de nossa história compartilhado, e da mesma forma defender uma prática encarnada do cristianismo mais conscientemente, Newman propôs que o cristianismo é mais bem entendido na natureza e na prática como uma forma de protesto.

Deus no mundo

O cristianismo oferece uma visão radicalmente divergente de como a humanidade pode enfrentar, cortar e curar as experiências de violência, de sofrimento e de perda e, ao fazê-lo, revelar e mostrar quem é Deus no mundo: um Deus de compaixão sem limites pelos aflitos, aqueles moralmente marginalizados; um Deus de unidade, que congrega a "comunidade amada" na caridade contra as tentações da arrogância e do orgulho, do abuso de poder e da indiferença aos pobres.

Para começar, o cristianismo como protesto revela quem é Deus no mundo. Vamos começar com a ousada e lamentável história do Livro de Jó. Como leitores, viajamos desde a inocência e a prosperidade de Jó, até uma aposta divina e uma aflição implacável, passando por um debate apaixonado entre amigos sobre a legitimidade moral do protesto de Jó sobre sua aflição imerecida, inclusive transitamos pela esmagadora presença-ausência de Deus, que revela o mistério insondável de existência para aqueles que mais desejam entendê-lo.

O protesto de Jó é um ato não de profundo cinismo contra um Deus insensível ou remoto, mas de convicção obstinada na justiça de Deus. Jó insiste, contra todos os advogados externos, que seu sofrimento é imerecido e, por extensão, que os seres humanos habitam um mundo infinitamente maior e diferente daquele que pensamos através do jogo da justiça retributiva, praticado por seus amigos. Se o seu protesto é ininteligível, então o mundo também o é; e isso é apenas algo que o personagem está disposto a conceder diante do próprio Deus. Por fim, se não paradoxalmente, Deus repreende os amigos de Jó e o elogia, porque em seu protesto "falou bem de mim" (Jó 42, 7). É um consolo difícil: o sofrimento e a perda são tão imerecidos e ao mesmo tempo são aspectos inevitáveis da existência humana.

Longe do que pensam algumas pessoas sobre o livro de Jó, achando que oferece a seus leitores um exercício moralista ou uma espécie de analgésico emocional para aliviar a dor espiritual, o livro parece ter sido escrito com o objetivo expresso de agravar e destacar o problema do sofrimento injusto. No entanto, contempla também a provocativa alegação teológica de que qualquer resposta inteligível ao sofrimento humano envolverá significativamente protestar diante do próprio Deus a quem se adora.

Em certo sentido, é, em última análise, uma expressão de confiança: Jó pode tão fortemente interrogar e fazer exigências a Deus. Sob esse prisma: questionamento, dificuldade, desacordo e protesto, testemunhamos a forma mais elevada, não de desconfiança ou traição, mas de fidelidade e amor. Podemos reconhecer isso em nossos próprios relacionamentos: discutimos – para melhor ou para pior – com aqueles a quem amamos porque confiamos neles. Confiamos que nossa voz deve ser ouvida e será ouvida pelo outro, e que nossos relacionamentos podem e crescerão como resultado.

Do mesmo modo, para o cristão, protestar diante de Deus, diante de um sofrimento inocente e mal atendido, representa uma forma de fidelidade, em que Deus possa revelar-se o que prometeu ser em um mundo marcado pelo sofrimento, isto é, um Deus de inesgotável justiça e compaixão: "De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito, e também tenho escutado o seu clamor, por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo"(Êx 3, 7); o Deus que liberta o cativo e lembra do esquecido.

Ouvimos o clamor do povo de Deus hoje?

Fidelidade e idolatria

Marchando pelo bairro Harlem em uma comemoração estridente dos manifestantes, ouço a voz fraca e aguda de uma criança, saindo de uma pequena janela não identificável do apartamento. O canto flutua acima da multidão, inocente e misteriosa: "Não consigo respirar! Eu não consigo respirar! Não consigo respirar!" Não muito diferente da famosa cena de conversão de Santo Agostinho nas Confissões, é a criança que nos ensina a verdadeira sabedoria: tolle lege (pegue e leia). Observe a miséria do racismo na América. Ouça seus gritos por causa da brutalidade policial. Conheça os sofrimentos deles.

Trump certamente levou a Bíblia com ele para um golpe publicitário; ele certamente não leu nada do que estava escrito nela. A ação do presidente só pode ser descrita como uma inversão paródica da separação de Moisés no mar vermelho. A resposta retumbante do presidente ao seu povo clamando por justiça em nome de George Floyd foi ordenar que a polícia separasse um mar de manifestantes de Washington DC com gás de pimenta, bombas de fumaça e balas de borracha para chegar sozinho à terra prometida de autoestima e piedade fraudulenta.

Vamos presumir uma leitura caridosa da sessão de fotos do presidente na Igreja Episcopal de São João: Talvez ele realmente tivesse o desejo sincero de compartilhar na praça pública as boas novas do evangelho: esperança de uma comunidade humana renovada, enraizada no perdão de Cristo ao pecador. Mesmo concedendo o mínimo de boas intenções, o golpe publicitário tentou objetivamente promover a paz bíblica através de atos de violência. Tentou espalhar uma mensagem de paz às custas da própria audiência.

O evangelista João, o homônimo da própria igreja diante da qual Trump fez seu discurso, escreve: "Aquele que dize: 'Eu amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê"(1 Jo 4,20). Aplicando o modelo de João, a foto do presidente com a Bíblia significa que, funcionalmente, ele é um mentiroso.

Ou, como o ex-arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, observou recentemente em um boletim aos seus paroquianos locais sobre a foto-oportunidade, "objetivamente, esse foi um ato de idolatria – fora do lugar da verdade, usando o texto que testemunha a majestade de Deus como apoio em um drama pessoal". Ironicamente, ao reduzir o texto sagrado a um golpe publicitário dependente da violência, o presidente executou e divulgou o pecado rudimentar da idolatria contra o qual a narrativa bíblica adverte.

Mas talvez nosso atual comandante em chefe seja apenas o infeliz, ainda que oportunista, representante de nossas próprias idolatrias preferenciais na América. Pois não teremos outros deuses diante da lei e da ordem. Nós também idolatramos e, portanto, fomos prejudicados pela justiça que deveria nos libertar. E assim nós, como cristãos em particular, continuamos acenando as palavras de nossa própria condenação; continuamos eclipsando o mistério ao invés de revelar quem é Deus no mundo.

Amor em ação

Mais uma vez, especialmente aqui, em meio a nossas buscas de autossabotagem da justiça e seu desespero correspondente, o cristianismo como protesto representa quem Deus é no mundo e, assim, redime nosso desejo de justiça na prática do amor.

Conforme divulgado nas narrativas do evangelho, é finalmente Jesus Cristo que, como totalmente humano e totalmente divino, clama com mais força contra a injustiça do pecado diante de Deus. Em seus gritos ofegantes a Deus Pai na Sexta-feira Santa, casados com sua glorificada saudação de "a paz esteja convosco" no domingo de Páscoa, Cristo protesta contra um mundo usurpado pelo pecado e pela morte, e protesta em nome de um mundo transfigurado pela ressurreição. Cristo, em seu protesto, representa quem Deus é no mundo: vida sem reservas oferecida sem limites para sua amada humanidade, resgatando comunidades humanas agora marcadas pela misericórdia, a não-violência e a cura mútua.

Em um mundo destruído que nos convenceu de que o único contexto realista da justiça é a violência, seguir a Cristo é sustentar que o único contexto sustentável da justiça é a misericórdia. Poderíamos dizer, portanto, que compaixão ou justiça realizada na e através da misericórdia é, ela própria, a expressão mais alta do protesto humano. O protesto cristão interrompe os ciclos de violência, subverte a lógica sufocante da justiça retributiva e, portanto, capacita novamente a liberdade humana. Essa convicção certamente ressoa na linha de frente de alguns dos mais brilhantes defensores contemporâneos dos direitos civis, incluindo o trabalho do advogado público Bryan Stevenson em nome dos encarcerados e condenados no corredor da morte, capturado com pungência em seu texto de 2014, Just mercy, (Luta por justiça, na versão brasileira), e sua adaptação cinematográfica homônima de 2019.

É certo que um protesto compassivo em nome do outro é fácil de escrever e quase impossível de praticar. "O amor em ação é uma coisa dura e terrível", medita Dostoiévski, "comparado ao amor em sonhos"; para não mencionar o amor em artigos online.

Frequentemente, em nossos feeds de notícias e em nossos corações, deixamos de ouvir o grito dos oprimidos, não porque somos intuitivamente impiedosos ou apáticos, mas porque os gritos são violentos. Um refrão comum nas últimas duas semanas: "A morte de George Floyd foi uma terrível tragédia, mas tumultos e saques são indesculpáveis". Começamos a ver, com razão, que a violência gera violência. A famosa leitura de Santo Agostinho da carta aos Romanos talvez já tenha nos alertado sobre a desonestidade dos tumultos. Acaso, não são tão responsáveis os que se revoltaram durante a noite quanto os que se revoltaram durante o dia?

Como sugeriu a colunista Jamelle Bouie, a anarquia dos manifestantes que protestam apenas reflete a impunidade da polícia. Ou melhor, a impunidade policial é apenas uma anarquia autorizada pelo Estado. A natureza mimética da violência não justifica nem desculpa protestos violentos; antes, demonstra a cumplicidade inevitável de cada forma de violência com a outra e o consequente absurdo de apoiar uma forma de violência para reprimir a outra.

A linguagem dos feridos

Devemos fazer uma pausa para lembrar que, mais precisamente, a violência gera feridas, e as feridas geram mais violência. A violência é a "linguagem" herdada de nossas feridas humanas. Diante da miséria de nosso povo, gritando de violência, permitimos que a compaixão se torne protagonista. Preferimos denunciar a violência dos feridos, do que cuidar da ferida; preferimos julgar como árbitro moral, do que servir no "hospital de campanha", como o papa Francisco definiu uma vez a Igreja.

Acabar com a violência, portanto, não significa apenas a denúncia de seus sintomas; pelo contrário, significa erradicar suas causas para acabar com os protestos violentos e com a brutalidade policial. Mas não é só isso: a polícia também está presa em ciclos de violência que se estendem até além do seu alcance. Para acabar com a brutalidade policial, devemos enfrentar nada menos do que nossa neurose neoliberal de punir os pobres e, em vez disso, começar a investir em novas formas de apoio e segurança nas comunidades.

Também podemos começar identificando quais feridas e que violência nós mesmos carregamos em nossos próprios corações. Até São Pedro, a pedra sobre a qual Jesus construiu seu hospital de campanha, já foi um manifestante violento, cheio de raiva e amor obstinado por um amigo. Após a prisão de Jesus no Jardim do Getsêmani, Pedro desembainhou a espada contra Malco, o servo e agente "policial" do sumo sacerdote Caifás. Em resposta, Jesus não condena a violência de Pedro, mas a converte: pede a Pedro que guarde sua espada, esvazie as mãos de vida da violência que o consome (Mt 26,52), a fim de abri-las como as mãos de Jesus, que agora estão abertas, segurando a cabeça ferida de Malco e curando-o (Lc 22,51).

Nunca devemos esquecer que a violência é mimética e remete à linguagem dos feridos. Portanto, não condene os feridos por atacarem desde seus ferimentos. Em vez disso, guarde a espada que você também brandiu em seu próprio coração e liberte suas mãos para cuidar das feridas dos outros. Deixe a compaixão ser seu protesto. E se, como Pedro, você encontrar a compaixão longe do seu coração, talvez você possa começar cultivando a maravilha da compaixão. Como escreve Gregory Boyle, SJ, fundador da Homeboy Industries em Los Angeles, Califórnia: "Aqui está o que procuramos: uma compaixão que pode admirar o que os pobres têm que carregar, em vez de julgar como o carregam". Até agora, testemunhamos nosso julgamento; onde está a nossa admiração? Onde está a ferida? E como você ajudar a curá-la?

"Então o Senhor perguntou a Caim: Onde está seu irmão Abel? Respondeu ele: Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?" (Gênesis 4,9).

Publicado originalmente por America


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Tradução: Ramón Lara



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