Religião

10/07/2020 | domtotal.com

Como manipular fieis e encher uma Igreja

A partir da angústia existencial, líderes religiosos podem exercer controle sobre quem busca milagres

O milagre, ou sua busca, acalma a angústia existencial de tal modo que a pessoa pode não perceber que acabou por cercear a própria liberdade a fim de ultrapassar os limites de sua finitude
O milagre, ou sua busca, acalma a angústia existencial de tal modo que a pessoa pode não perceber que acabou por cercear a própria liberdade a fim de ultrapassar os limites de sua finitude (Unsplash/ Geron Dison)

Gilmar Pereira*

A questão fundamental é que nossa liberdade é limitada. Pode-se ter uma vontade imensa de levitar, mas nem por isso se trata de algo possível. E as impossibilidades perpassam não só a física como também as dinâmicas político-sociais, relacionais etc. Assim, no alto de nossos 36 anos, com uma compleição corporal robusta e revestida de boa e grossa camada de tecido adiposo, não nos é possível mais ser bailarino clássico.

A falta de controle sobre a vida, somada à incerteza do futuro, igualmente indominável, gera angústia. Esse estreitamento existencial leva o humano a buscar no divino a superação de sua natureza e de seus limites, sejam eles de quais ordens for. Esse sobrepassar do possível por ação divina é o que denominamos milagre. Obviamente, algumas possibilidades parecem inexistentes e não o são. Às vezes, quem as encontra sem achar que existissem pode acabar lhes nomeando como milagre, mas não é o mais apropriado. Entendendo como obra de Deus, seria melhor chamá-las graça.

Na dinâmica da fé, a graça está no campo da possibilidade humana que se move em consonância com o divino. O milagre romperia com a ordem natural e possível das coisas – ainda que, no plano narrativo dos evangelhos, essa adjetivação não seja a melhor, uma vez que aí se presta à função catequética-mistagógica, querendo significar outra coisa e não necessariamente a factualidade de seu acontecimento. Por isso, uma cura pela medicina é lida pelo crente como graça divina, que concede sabedoria a farmacêuticos e médicos para produzirem e indicarem o tratamento adequado. Quando a ciência não explica a cura, ela é tida, na ótica da fé, como milagre.

Como se trata de um movimento humano, a tentativa de romper com a angústia existencial diante do possível indeterminado ou mesmo das impossibilidades é observada já na Antiguidade. Por não compreender a dinâmica da natureza, o humano atribuía certa personalidade aos fenômenos naturais, entificando-os. Assim, haveria uma divindade que controlaria cada uma das realidades que percebesse maior que si. Como explicar a corrente em um lago aparentemente calmo, que puxa alguém para o fundo, senão por algum ser sobrenatural? E sendo assim, como agradá-lo para que não provoque destruição e morte?

Desse modo, nascem as ofertas votivas, como modo de agradar e acalmar as divindades. O humano passa a tratá-las  como a um líder tribal poderoso e lhes oferta o que tem de melhor com o intuito de lhes dominar. A relação é ambígua. O dominado, em sua subserviência, busca ter seu dominador sob seu controle. A experiência cristã se difere disso por inúmeras razões: pela fé em um Deus que se abaixa assumindo o que é inferior; pela sua não identificação com a natureza, não podendo sequer ser representado; pela sua negação de sacrifícios, sacrificando-se ele mesmo, entre outras.

Numa primeira instância, têm-se o humano que faz Deus sua imagem e semelhança; na outra, Deus que, em Jesus, quer fazer do humano divino, elevando-o à participação de sua vida. Embora sejam dinâmicas diametralmente opostas, não é assim que a maioria dos cristãos as vivem, mesmo as igrejas, misturando essas posturas que são inconciliáveis. Daí surge a pregação e as práticas rituais para se alcançar milagres. Há uma máxima que diz "a gente não é do jeito que quer, mas do jeito que a gente dá conta". Contudo, nem todo mundo dá conta de si de suas circunstâncias e, por não ver uma possibilidade de mudanças possíveis, recorre ao sobrenatural e busca o milagre.

Há um fascínio no transcender a natureza que coaduna com o desejo humano de continuidade (infinitude) ou de completude, que estariam na esfera do Ser absoluto ou divino. Qualquer lampejo disso é encantador, faz a pessoa se sentir mais forte, capaz, encorajada. Experimentar o poder divino pode ser terrificante, mas não menos fascinante. Assim, qualquer experiência de romper ou sobrepor a natureza provoca maravilhamento. Por isso o humano gosta da mágica, pela qual sente controlar as forças ocultas que movem o universo; dos estados alterados de consciência, quando vê ou sente coisas que não contempla no estado normal; da guerra, quando desperta forças em si, que desconhecia, e até mesmo arbitra sobre a vida ou morte de outrem, algo também atribuído ao divino.

Dito isso, temos aqui os elementos necessários para a compreensão da manipulação que se pode exercer sobre outrem através do discurso religioso baseado em milagres. É fácil exercer a manipulação sobre alguém desde que se toque em sua angústia e lhe ofereça, ao mesmo tempo, alguma experiência que lhe pareça mágica, sobretudo se promover algum estado alterado de consciência ou lhe fizer sentir, em si, mais força ou poder. Nesse sentido, músicas com acordes altos podem induzir ao êxtase, ainda mais em ambiente onde se promova a sinergia dos fiéis, dando-lhes o sentido de unidade e de força que um grupo coeso oferece. Conduza isso num clima de excitação crescente até um ponto de extravasamento e, abruptamente, substitua por um clima calmo – excitação, gozo e relaxamento. Alguém vai duvidar que a sensação prazerosa de um culto assim não é divina?

O que se dirá, então, de quem conduz uma experiência assim? Esse seria um humano diferente, alguém que transita na nossa realidade e na divina. Assim são vistos os líderes religiosos e por isso deles não se permite o erro, porque são homens e mulheres de Deus. Alguns até se creem especiais por isso. Outros abusam desse lugar, cientes que sua palavra não é questionada, dado que ela não lhe pertenceria, mas a Deus. Isso explica porque muita gente adulta e, em tese, com formação crítica, acaba se submetendo a abusos de lideranças religiosas: porque a dinâmica simbólica que forma seu arcabouço cultural fala mais alto que qualquer racionalidade.

O milagre, ou sua busca, acalma a angústia existencial de tal modo que a pessoa pode não perceber que acabou por cercear a própria liberdade a fim de ultrapassar os limites de sua finitude. Há quem, em nome dessa fé de milagres, tenha limitado grandemente sua vida, tudo para não romper com o estado de santidade que se exige para alçar o sobrenatural. Ironicamente acabam cantando que são livres em Deus, mas se esquecem que, na verdade, cultuam um ídolo, pois fizeram um deus à sua imagem e semelhança, que barganha com o ser humano para conceder favores.

E quando o milagre não se alcança? É o diabo! É bom ter um diabo para tirar as responsabilidades da própria vida de escolhas malfeitas ou pelo insucesso na mística milagreira. É ele quem quer desviar desse caminho "tão santo". Por tanto, é importante manter o diabo vivo no discurso religioso. Ele exime o fiel de qualquer responsabilidade e, ainda, pelo medo que causa e por ser inumano, leva a buscar ainda mais o sobrenatural. No final das contas, multidões lotam templos e aderem piamente ao que diz o líder, aquele que expressa sempre a vontade divina. No final, todos dizem: Eita, glória!


Vamos aprofundar essa temática?! No especial de hoje, Felipe Magalhães Francisco alerta para o risco de uma fé baseada na busca de milagres, sobretudo na relação de abuso a que charlatães podem submeter os que buscam o sobrenatural, no texto Sobre curas e libertações: uma reflexão crítica. Já Fabrício Veliq denuncia a prática da venda de milagres, lembrando que o favor divino é gratuito, graça, no artigo Charlatanismo religioso: um pecado contra Deus. A partir do profeta Elias, Solange Maria do Carmo escreve A liturgia do coração, mostrando a idolatria incutida na espetacularização da fé.

Boa leitura!


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*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, possui formação em Fotografia, é estudante de psicanálise e responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total



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