Brasil Política

09/07/2020 | domtotal.com

Ação do Facebook aponta mesma direção de investigações da CPMI e do STF

Disseminação de fake news tem como origem o 'gabinete do ódio' no Palácio do Planalto

Carlos, Eduardo e Flávio apostam em desmontar discurso de adversários
Carlos, Eduardo e Flávio apostam em desmontar discurso de adversários (Twitter/Reprodução)

O anúncio do Facebook de que derrubou uma rede de fake news e perfis falsos ligados a integrantes do gabinete do presidente de Jair Bolsonaro, a seus filhos, ao PSL e aliados, serve de combustível para as investigações em curso na CPMI das Fake News no Congresso e no Supremo Tribunal Federal. Em comum, todas as três investigações apontam diretamente para uma ação coordenada de dentro do Palácio do Planalto.

Agora, a diferença é que o resultado da ação do Facebook contou com análise independente feita pela Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab, instituição que auxilia nas remoções da rede social por comportamento inautêntico coordenado. Portanto, exclui as tentativas bolsonaristas de culpar as acusações das duas investigações brasileiras de partidarismo, ideologia ou qualquer interferência política, o que é recorrente por parte dos filhos do presidente para minimizar as acusações e as evidências, cada vez mais fortes, de prática criminosa.

Foram identificados e removidos 35 contas, 14 páginas e 1 grupo no Facebook e 38 contas no Instagram. O material investigado pela plataforma identificou pelo menos cinco funcionários e ex-auxiliares que disseminavam ataques a adversários políticos de Bolsonaro. Nessa lista está Tercio Arnaud Thomaz, que é assessor do presidente e integra o chamado "gabinete do ódio", núcleo instalado no terceiro andar do Palácio do Planalto, comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Em reação ao desmonte das contas nas redes sociais, Carlos escreveu um post na quarta-feira (9), no Twitter, em que diz estar vivendo "um novo movimento pessoal", sem especificar a que se refere, e acrescentou: “Estou cagando para esse lixo de fake news e demais narrativas”.

Carlos Bolsonaro também disse que "surpresas virão", mas, novamente, manteve o tom enigmático. "Ninguém é insubstituível e jamais seria pedante de me colocar nesse patamar! Todos queremos o melhor para o Brasil e que ele vença! Apenas uma escolha pessoal pois todos somos seres humanos! Seguimos! E surpresas virão! Não comemorem, escória!", emendou o filho do presidente.

Um dos funcionários envolvidos nessa rede identificada pela plataforma também trabalhava para Carlos. A rede de fake news também inclui os deputados estaduais Anderson Moraes e Alana Passos, ambos do PSL do Rio. Os citados negaram irregularidades e classificaram a medida como arbitrária, evocando liberdade de expressão e censura. O PSL disse que as contas são de responsabilidade dos parlamentares e não possuem relação com o partido.

O cerco se fecha

O presidente da CPMI senador Angelo Coronel (PSD-BA), apresentou nesta quinta-feira (9) um requerimento no qual solicita ao Facebook o conteúdo das contas ligadas à família Bolsonaro retiradas do ar. No documento, o parlamentar também pede para que a plataforma explique os motivos que levaram a decisão de excluir as contas. Segundo ele, as informações podem melhorar o relatório final do colegiado, formado por deputados e senadores.

Apesar das críticas, a ação do Facebook não surpreendeu a deputada Lídice da Mata (PSB-BA), relatora da CPMI das Fake News. Já tínhamos chegado muito perto da família Bolsonaro. É uma confirmação necessária. A CPMI foi o pontapé inicial de todo esse processo de reação da sociedade contra usar as redes sociais para proliferar o ódio", disse à revista Época. Ela acrescentou que usará as novas informações do Facebook em seu relatório final na comissão. Em entrevista à Globonews, ela destacou que foi uma conquista ampliar o debate e não limitá-lo às eleições, mas levar a discussão para a sociedade como um todo.

"O importante é deixarmos que as redes sociais fiquem limpas e as pessoas não se influenciem por postagens mentirosas. Isso que é o papel da CPMI e o papel também do projeto 2630 que é sempre preservar o povo brasileiro que não pode mais conviver com essas porcarias que ficam sendo praticadas no seio das redes sociais que estão instaladas no Brasil", afirmou o senador.

O parlamentar foi o relator do projeto de lei sobre Fake News aprovado no Senado em 30 de junho de 2020. O texto, que ainda será analisado pelos deputados, tenta implantar um marco inédito na regulamentação do uso das redes sociais, criando a chamada Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Pelo texto, as plataformas digitais, como o Facebook, deverão colocar em prática uma política de controle de disseminação de notícias falsas na internet.

Ataques ao STF

Em maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes apontou indícios de que um grupo de empresários atuava de maneira velada financiando a disseminação de fake news e conteúdo de ódio contra integrantes da Corte e outras instituições. O ministro também definiu como "associação criminosa" o grupo do "gabinete do ódio".

O controverso inquérito que apura ameaças, ofensas e fake news contra ministros do Supremo, conduzido por Moraes, pode pavimentar o caminho da cassação do presidente Jair Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A avaliação entre ministros do tribunal é a de que, caso seja autorizado, um compartilhamento das provas do STF com a Justiça Eleitoral deve dar um novo fôlego às investigações que apuram o disparo de mensagens em massa na campanha presidencial de Bolsonaro em 2018. A possibilidade dessas ações serem "turbinadas" com o inquérito das fake news do Supremo já acendeu o sinal de alerta do Palácio do Planalto.

No material postado que foi identificado pelo Facebook estavam conteúdos relacionados às eleições, memes políticos, críticas à oposição, empresas de mídia e jornalistas, além de textos sobre o coronavírus. Segundo a rede social, parte do conteúdo dessa rede já havia sido removida por violar padrões de comunidade. Entre as violações estavam discursos de ódio.


Dom Total/Agência Estado



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