Coronavírus

12/07/2020 | domtotal.com

Alto risco de contágio de Covid-19 faz Kuarup ser cancelado pela primeira vez em 50 anos

Duas mortes no território indígena e a aproximação da doença no entorno obrigaram lideranças a suspender o tradicional ritual

Kuarup Kamayurá em 2018
Kuarup Kamayurá em 2018 (Hilda Azevedo/Funa)

Marcio Camilo
Amazônia Real

Pela primeira em 50 anos, o maior ritual em homenagem aos mortos entre indígenas brasileiros – o Kuarup – foi cancelado na Terra Indígena Xingu, no nordeste do Mato Grosso. O alto risco de contágio pelo novo coronavírus obrigou os caciques e as lideranças a suspenderem as celebrações previstas para acontecer no final deste mês de julho.

“Por enquanto está cancelado todos os Kuarup, apesar de resistência de outros caciques. Agora, com essas duas mortes, [a pandemia] deixou as pessoas mais despertadas. Estão abrindo a cabeça e agora estão pensando de novo com essa preocupação de não realizar os rituais coletivos. Foi suspenso para ser realizado ano que vem”, enfatizou Mutua Mehinaku, liderança do povo Kuikuro.

As vítimas da Covid-19 são um bebê do povo Kalapalo, do sexo masculino, com apenas 45 dias que morreu em 13 de junho, e o líder Matariwa Yawalapiti, de 40 anos, irmão de Aritana Yawalapiti, um dos caciques mais expressivos do Xingu. A morte do menino consta do boletim epidemiológico interno do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Xingu, ao qual à reportagem teve acesso. Já a de Matariwa foi confirmada por Tapi Yawalapiti, sobrinho da vítima. Na TI Xingu, 65 pessoas foram infectadas, indica o boletim epidemiológico.

Em todo o território vivem 16 povos indígenas; são cerca de 7 mil pessoas, em 114 aldeias. Só no Alto Xingu residem 11 povos: Aweti, Kalapalo, Kamayurá, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Trumai,  Wauja e Yawalapiti.

Na Terra Indígena Xingu, com 2.642 hectares, há fortes indícios de presença de povos isolados no território. No entorno há muitas fazendas que produzem soja. O território é banhado pelo rio Xingu, que desemboca em Altamira, no Pará.

Kuarup Kamayurá (Hilda Azevedo/Funai/2018)Kuarup Kamayurá (Hilda Azevedo/Funai/2018)

O cancelamento do Kuarup não foi uma decisão fácil para as lideranças indígenas. No Xingu, o luto é vivido intensamente. Durante dois dias, as famílias choram e rezam pelas mortes dos entes queridos, que são representados por troncos de árvores. É um ritual que mistura dor e alegria numa aldeia celestial, conforme a crença. Pela força de sua tradição e beleza, o Kuarup atrai anualmente jornalistas e turistas brasileiros e do exterior. Ele também se tornou uma importante fonte de renda para os povos xinguanos. 

Pandemia avança pelo entorno do Xingu

Dez cidades no entorno do Xingu acumulam mais de 700 casos casos do novo coronavírus e 11 mortes, de acordo com o monitoramento “Covid Fora da Aldeias”, do Instituto Centro de Vida (ICV). Os municípios (Canarana, Paranatinga, São Félix do Araguaia, São José do Xingu, Gaúcha do Norte, Feliz Natal, Querência, União do Sul, Nova Ubiratã e Marcelândia) ficam a até 100 quilômetros da reserva. 

Querência é o município com mais notificações da doença: cerca de 227. Cinco das seis aldeias atingidas pelo vírus estão muito próximas, algumas a menos de 40 quilômetros da cidade.

“A gente está muito preocupado, muito tenso por aqui. Agora que está chegando (o coronavírus), isso assusta muito a gente”, relata Mutua Mehinaku, da etnia Kuikuro.

Ele participou de uma reunião entre lideranças do Alto Xingu na qual se decidiu pelo fechamento das aldeias para que a população indígena pudesse se isolar.

Mutua afirma que o Dsei Xingu não se preparou para a chegada da Covid-19, não tendo montado antes uma equipe de prevenção. Ele destaca que só com “briga” o Dsei “resolveu contratar mais uma equipe (de médicos) somente para cuidar desses casos. Agora, eles estão nas aldeias onde tem o coronavírus acompanhando a situação. Mas muito em cima da hora, né? Já está doente, agora é só apagar fogo”, lamenta.

Outra liderança da etnia, Makaulaka Mehinaku, observa que as autoridades de saúde correm contra o tempo para montar um plano de contenção do vírus. Se uniram na empreitada a Escola Paulista de Medicina, que há 50 anos atua com o Projeto Xingu; o Dsei, a Coordenação Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Xingu, o Instituto Socioambiental e a Associação Terra Indígena do Xingu (Atix).

Foi elaborado um plano com 11 pontos estratégicos para combater a doença, prevendo a participação de nove médicos. “Haverá uma estrutura com equipamentos de saúde, como aparelhos respiradores, mas eles ainda não foram entregues. O problema, na minha opinião, é que a Covid-19 chegou antes desse plano ter sido colocado em prática”, critica Makaulaka. Procurados pela reportagem, Funai, Dsei e EPM não retornaram os contatos.

Quanto ao funeral dos mortos por Covid-19, a reportagem confirmou junto da Coordenação Técnica Local (CTL) Villas Boas que os dois corpos foram enterrados em suas respectivas aldeias. No caso do bebê Kalapalo, ele foi sepultado no centro da aldeia Tanguro. 

O CTL Villas Boas fez questão de frisar que as famílias foram orientadas pela equipe de saúde a não abrir o caixão sob hipótese alguma e fazer uma cerimônia mais reservada. As recomendações seguem o protocolo do Ministério da Saúde para evitar a propagação do vírus.

De acordo com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde, o povo Xavante é etnia com maior número de infectados no Mato Grosso com 209 casos confirmados de coronavírus e 23 mortes.

Em todo estado, a Covid-19 já infectou 25.264 pessoas e matou 928, segundo dados do Ministério da Saúde divulgado nesta quinta-feira (9 de julho).  

A quarta TI mais frágil do país

Kuarup Kamayurá em 2018 (Hilda Azevedo/Funai)Kuarup Kamayurá em 2018 (Hilda Azevedo/Funai)

Das 471 terras indígenas no país, o Xingu é a quarta mais vulnerável, conforme estudo da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep). A análise levou em conta fatores como percentual de pessoas idosas nas aldeias, média de moradores por domicílio, rede de abastecimento de água e proximidade dos TIs com municípios que disponham de leitos de UTI.  

O estudo revelou que nas ocas do Xingu costumam morar mais de 10 pessoas, normalmente sem qualquer tipo de divisória. Essa condição dificulta medidas de combate ao vírus recomendadas pelo Organização Mundial de Saúde (OMS), como a quarentena e o distanciamento social. No Xingu, 93% dos domicílios também não possuem banheiros exclusivos e há poucas UTIs disponíveis na região. Todos esses fatores agravam a vulnerabilidade dos xinguanos diante da Covid-19.  

O que diz o Dsei Xingu

A reportagem enviou perguntas ao coordenador do Dsei Xingu, Daniel Passos, sobre os questionamentos das lideranças indígenas sobre as ações de combate a pandemia nos territórios. Por meio de nota, ele criticou as lideranças indígenas dizendo que as denúncias se tratam de “fake news”. Segundo ele, desde março o órgão tem montando uma estratégia para barrar a entrada do vírus nas aldeias xinguanas.

“O Dsei Xingu tem lutado incansavelmente para que todas as medidas sejam tomadas, mediante descumprimento das normas que foram orientadas no que diz respeito a necessidade de permanecer em aldeias, entre outras orientações. O fato traz a luz, o número considerado pequeno, e o rastreio as ações de forma epidemiológica e assistencialista de qualidade que está sendo prestada por este órgão. O planejamento foi feito e está sendo colocado em pratica, de forma organizada e conforme necessidades”, ressaltou o coordenador em nota.

Sobre a entrada efetiva do vírus nas aldeias do Xingu, Daniel Passos destacou que foi construído um plano de ação em caráter emergencial, com objetivo de reestruturar as Unidades de Atenção Primária Indígena (UAPIs), além de envios de EPIs [Equipamento de Proteção Individual], medicamentos e insumos para trabalho das equipes. “Estamos com 12 UAPIs em fase de adaptação, dessas, 6 se encontram em pleno funcionamento (todas na região do alto Xingu)”, acrescentou.

Daniel Passos ressaltou também que o Dsei Xingu busca pareceria com o governo de Mato Grosso para montar um hospital de campanha no Xingu. Entende que a unidade precisa ser viabilizada “o mais rápido possível, pela gravidade do colapso no sistema de saúde estadual, precisamos garantir os direitos aos indígenas, em caráter de urgência e respeitando as limitações e questões culturais”.

Kuarup Kamayurá em 2018 (Hilda Azevedo/Funai)Kuarup Kamayurá em 2018 (Hilda Azevedo/Funai)

Publicado originalmente por Amazônia Real


Amazônia Real



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