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13/07/2020 | domtotal.com

O futuro normal: questões, vantagens e desvantagens da vida digital


O mundo está mudando, todos concordam. O que ninguém sabe é como será a paisagem quando assentar o pó. No entanto, já é possível arriscar algumas alterações altamente prováveis.

Vantagens do teletrabalho talvez levem alguns patrões, que antes lhe eram avessos, a adotá-lo permanentemente
Vantagens do teletrabalho talvez levem alguns patrões, que antes lhe eram avessos, a adotá-lo permanentemente (Unsplash/ Tina Witherspoon)

José Couto Nogueira*

Há coisas que não mudam, porque a natureza humana é a mesma há milênios. Mas acontecem situações que fazem essa natureza agir de maneiras diferentes, conforme a rede de interdependências entre os grupos (agora, os países, os grupos de interesses) e o estado das tecnologias.

A "gripe espanhola" de 1919-21 é muitas vezes usada como referência do que pode acontecer com a pandemia de Covid-19, mas na realidade as semelhanças são muito poucas. A "espanhola" foi muito mais mortífera – 50 milhões de vítimas, um número que mesmo as piores projeções para o Covid-19 não preveem – mas o mundo não estava tão interdependente (ainda não existia a globalização...) e a ciência não possuía os recursos que tem hoje. O urbanismo não tinha o mesmo desenvolvimento; o sistema capitalista, isto é, a acumulação de capital, era muito mais pequena (se bem que a extrema desigualdade fosse igual) e o sistema comunista era uma experiência recente cujos métodos ainda estavam por provar. A desigualdade de oportunidades e os mitos racistas ainda eram aceitos como "naturais" e a maioria das profissões que existem hoje eram desconhecidas. Não vale a pena fazer comparações.

Um fator que todos concordam é que o futuro pós-pandêmico depende da duração da pandemia. Se terminar para o ano, marcará muito menos as atividades e mentalidades do que se durar mais dois ou três anos. David Leonhard, no The New York Times traça um bom resumo geral do que pode acontecer com vários setores e profissões.

As viagens, próximas ou distantes, tomam outra natureza: Por exemplo, "a socialização" ao ar livre é maior, as viagens de negócios reduzem-se ao essencial. Em termos gerais, o virtual substitui o presencial, sempre que possível. Pode visitar-se um museu virtualmente, pode assistir-se a um desfile de moda ou a uma peça de teatro na Internet. Mas a experiência da presença pessoal não é a mesma, dirão alguns. Não é, de fato. Mas talvez seja a única possível, e as gerações mais novas não conhecerão outra realidade.

O turismo, que é a forma de lazer mais universal, voltará com o tempo, mas os cruzeiros marítimos provavelmente desaparecem; não só as empresas que dominavam o setor estão falidas, como têm uma imagem de antipáticas com os clientes, geralmente pessoas da terceira idade, mais sensíveis a adoecer. Formas de turismo mais "suaves" serão norma. (Um exemplo: a Sagrada Família de Barcelona passou a ficar aberta apenas a residentes) Ora aí está, o turismo, no sentido de ver monumentos, já há muito que pode ser feito através de documentários, mais informativos que estando no local. Viajar será para descansar, não para andar a correr entre padrões.

O cinema físico, isto é, a frequência de salas de cinema, que já estava em decadência há anos, nestes meses foi completamente ultrapassada pelo streaming, que permite ver o que se quiser, até filmes que há muito desapareceram das salas, quando se quiser, com as interrupções para fazer uma misto quente ou ir ao banheiro. E a presença da família e amigos; o último software permite que pessoas em casas diferentes, até em países distantes, possam assistir juntas – o filme numa janela maior, os familiares ou amigos em janelas mais pequenas, como no Zoom.

Por falar no fim dos cinemas, parece que os centros comerciais, para onde as salas de cinema já estavam relegadas, também têm o futuro comprometido. As compras online dominam e tornaram-se preferenciais; não é preciso sair de casa, não é preciso andar com os pacotes às costas, pode-se comprar em qualquer parte do mundo.

Com as lojas locais acontece o oposto, ressuscitam, especializando-se nas necessidades imediatas, e aí reside o contato humano que o online não permite.

E, por falar em Zoom, há situações que provaram funcionar, outras nem por isso. O ensino à distância não dá resultado – as opiniões vêm de todos os países e especialidades. Contudo, se a crise se prolongar por mais um ano, muitas escolas físicas (universidades e ensino especializado) não conseguem subsistir, se não forem subsidiadas pelos estados. Nos países em que o ensino universitário e profissional é privado, a devastação pode ser enorme.

Em compensação, as aulas de ginástica, yoga e meditação adaptaram-se muito bem ao YouTube e similares. Certos tipos de atividades de ensino ou acompanhamento físico e emocional entraram de vez no digital. Assim como, diga-se de passagem, as consultas médicas por videochamada. São uma realidade, apenas falta expandi-las.

Já no teletrabalho a situação é diferente. Antes da pandemia, nenhum patrão o achava interessante; só empresas muito avançadas, como a Google, deixavam certas pessoas trabalhar em casa. Agora, empurrados pela necessidade, muitos patrões perceberam as vantagens: menos espaço no escritório (rendas mais baixas), colaboradores medidos pelo que produzem e não pela presença nas instalações, amiúde a beber café e a mexericar. E o contato humano? Há soluções: reuniões regulares de todos, encontros das equipas quando necessário. Em diversos inquéritos em vários países, uma maioria de "colaboradores" adaptou-se bem a trabalhar de gravata e pantufas.

A adoção do teletrabalho, mesmo parcial, leva a menos viagens entre a casa e o escritório, o que também é mais barato e alivia o trânsito e os transportes públicos. A médio prazo terá influência no urbanismo, no zoneamento e no custo das habitações.

As cidades tornam-se mais verdes e com menos congestionamento. Vale a pena ler um artigo de Farhad Manjoo que mostra o que pode acontecer a Nova Iorque, a cidade-ícone de todas as cidades. E os europeus também já perceberam estas diferenças urbanas, como afirma o economista Pierre Sabatier e outros especialistas franceses.

Outra mudança que já vinha de há anos e agora se tornou inexorável é na imprensa – a comunicação social em papel. Isto já foi esclarecido incontáveis vezes, não é preciso explicar muito: os custos do papel, impressão e distribuição, e a transferência da publicidade para o online, são inexoráveis. Muitos jornais já têm duas edições, uma física, outra digital, a primeira a reduzir e a segunda a crescer; e cada vez mais os órgãos exclusivamente digitais (de que este é um exemplo) prosperam, porque podem investir mais nos custos humanos, tão baixos são os custos digitais.

Os saudosos de abrir o jornal bem se podem queixar; conhece algum que tenha menos de quarenta anos? Para as crianças de hoje, a informação digital e televisiva é a única que conhecem.

O mesmo não aconteceu com os livros. Embora os e-books, que podem ser descarregados instantaneamente, tenham a sua quota de mercado, a experiência do papel também está para ficar. Mas, cada vez mais, esses livros são encomendados online. As livrarias, mesmo as grandes cadeias, continuam a fechar as portas. Até os sebos oferecem as suas preciosidades numa página web.

E os espetáculos desportivos? Não é preciso público para um jogo de futebol ou de tênis; mas o público é essencial para estimular os jogadores – tal como os atores de teatro, que sentem a emoção da audiência. Embora seja possível jogos à porta fechada, pagos pela publicidade televisiva, é evidente que, assim que for possível, os adeptos querem ir aos estádios. Só não vão agora porque não podem; assim que as restrições sanitárias terminarem, voltaremos o frenesi que caracteriza o público "desportista", ou à emoção contida dos grandes campeonatos de tênis. Mesmo no golfe, em que a assistência fica a uma respeitável distância e o silêncio é obrigatório, não há nada que se compare a estar lá.

Nas corridas de automóveis a situação é ligeiramente diferente: vê-se muito melhor a corrida com as várias câmeras ao longo da pista e nos capacetes dos corredores do que numa bancada longe de muitas curvas. E as corridas de computador há anos que são iguais às reais. Neste caso talvez o digital, pago pela publicidade, substitua o real.

O contato humano continua, como continuará sempre, a ser essencial para os humanos. Não nos vamos tornar uma sociedade de solitários fechados em casa em frente dum ecrã. Vai continuar a haver encontros, jantares, festas e bebedeiras. Mas as ressacas serão mais fáceis de disfarçar no teletrabalho dia seguinte...

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal



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