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14/07/2020 | domtotal.com

Marte: as missões espaciais que buscam entender melhor o planeta vermelho

Estados Unidos e China enviam neste mês sondas a Marte; Presença humana no planeta ainda gera debates

Participante da missão AMADEE-18, de simulação marciana, em 7 de fevereiro de 2018 no deserto de Dhofar, em Omã
Participante da missão AMADEE-18, de simulação marciana, em 7 de fevereiro de 2018 no deserto de Dhofar, em Omã (AFP)

Em 11 de maio de 1990, o presidente americano, George W. Bush, anunciava a próxima fronteira da exploração espacial: levar um ser humano a Marte antes de 20 de julho de 2019, nos 50 anos do primeiro passo na Lua.

A este compromisso se seguiram promessas similares de três de seus sucessores (Bush filho, Barack Obama e Donald Trump), que não se traduziram em nenhum programa concreto, o que ilustra o paradoxo da conquista humana do planeta vermelho: promete-se porque é possível, mas o projeto sempre fica em segundo plano, atrás dos robôs, menos caros e com menos riscos.

"Tive que assistir a 10 mil apresentações sobre como enviar humanos a Marte", disse o ex-funcionário da Nasa G. Scott Hubbard, em Stanford. "Mas ninguém desde Kennedy pôde dispor das quantias necessárias".

Os especialistas concordam em que os principais desafios tecnológicos e sanitários para esta missão, que duraria dois ou três anos, foram quase todos resolvidos. Para o lançamento exige-se um foguete muito potente, que a Nasa está apta a construir desde a década de 1960.

Hoje, as novas companhias SpaceX, de Elon Musk, e Blue Origin, do CEO da Amazon, Jeff Bezos, estão construindo lançadores pesados com capacidade para levar dezenas de toneladas de carga ao planeta vermelho.

Sem possibilidade de evacuação

Com relação aos sete meses de viagem, vinte anos de ocupação da Estação Espacial Internacional tranquilizam os cientistas sobre os riscos que a radiação e a falta de gravidade representam, assim como a perda de massa muscular: o corpo não sai ileso, mas o risco é considerado aceitável.

Resta a estadia em Marte, que durará quinze meses para aguardar que os dois planetas voltem a ficar do mesmo lado do Sol. A temperatura na superfície é de -63º Celsius, em média, e a radiação é importante, mas já existe engenharia disponível para fazer trajes de proteção e abrigos para os astronautas. Na hipótese de uma emergência médica, a distância impossibilitaria uma evacuação.

Quais são os reveses que os astronautas deveriam antecipar? Primeiro uma fratura, mas um gesso em geral será suficiente, afirma Dan Buckland, engenheiro e médico de emergências da Universidade de Duke, que desenvolve uma agulha intravenosa robótica com o apoio da Nasa.

Diarreia, cálculos renais e apendicites são geralmente tratáveis, exceto 30% das apendicites, que precisam de cirurgia e, portanto, podem ser fatais. Com exames exaustivos é possível reduzir em grande medida a probabilidade do aparecimento de um câncer e que se torne perigoso em três anos, diz Buckland. "Na minha opinião, não há nenhum obstáculo médico absoluto para ir a Marte", conclui o médico.

Cômodos e veículos enfrentariam um problema: a entrada de poeira. "Marte tem esse problema específico de tempestades de poeira", destaca Robert Howard, do Centro Johnson da Nasa. Estas tempestades infernais podem bloquear a passagem da luz do sol durante meses... E, portanto, desativar qualquer painel solar.

Por isso, minirreatores nucleares seriam necessários. Em 2018, a Nasa e o Departamento de Energia concluíram com sucesso um projeto demonstrativo, o Kilopower Project.

Em última instância, o objetivo será fabricar materiais no local usando recursos de minérios, provavelmente com impressoras em 3D. Seu desenvolvimento é embrionário, mas o programa lunar americano Artemis será um banco de testes.

Colonizar é uma opção?

Elon Musk defende a colonização de Marte, com uma primeira equipe avançada para construir uma usina de oxigênio e de combustível (metano) a partir da água marciana e do dióxido de carbono da atmosfera. Em um discurso emblemático em 2017, Musk se referiu à sua aspiração de que o ser humano vire uma espécie "multiplanetária". "É melhor do que ser uma espécie de um único planeta", afirmou na ocasião.

Robert Zubrin, presidente da Mars Society, defende incansavelmente a criação de um "novo ramo da humanidade" e considera "vergonhoso" que não se tenha feito nada desde o último desembarque na Lua, em 1972. "É como se, após o retorno de Cristóvão Colombo do Novo Mundo, [os então reis espanhóis] Fernando e Isabel tivessem dito que não lhes interessava", compara.

"Chega de bobagens!", retruca o exobiólogo Michel Viso, da Agência Espacial Francesa, a CNES. "Temos um planeta formidável com atmosfera, oxigênio, água (...) É criminoso, não temos o direito de fazer as pessoas acreditarem que há um 'plano B', um 'planeta B', que vamos a fazer uma civilização marciana".

Seja através de uma colônia ou com bases permanentes, o obstáculo mais importante para a presença humana duradoura em Marte será convencer os povos e seus dirigentes a aceitarem um nível de risco superior ao da Lua ou da Estação Espacial Internacional, argumenta Dan Buckland. Afinal, definitivamente nem todos voltarão de Marte.

NASA lançará robô caçador de micróbios para Marte

Perseverance em 27 de dezembro de 2019 (AFP)Perseverance em 27 de dezembro de 2019 (AFP)Os Estados Unidos vão lançar para Marte, em 30 de julho, seu veículo robótico mais sofisticado, chamado Perseverance, na tentativa de descobrir evidências de que há três bilhões e meio de anos micróbios viviam em seus rios.

A jornada interplanetária durará mais de seis meses e, se o robô aterrissar sem danos, iniciará uma exploração científica de vários anos para coletar e condicionar várias dezenas de amostras de rochas que serão recuperadas por um futuro robô e trazidas de volta para a Terra em 2031.

Perseverance assume a tarefa dos quatro veículos robóticos anteriores, todos americanos. Desde o final dos anos 1990, com a ajuda de satélites e de robôs fixos, essas máquinas transformaram nosso conhecimento de Marte, provando que o Planeta Vermelho nem sempre foi como hoje, seco e frio.

Marte já teve os ingredientes da vida: água, compostos orgânicos e um clima favorável. Nas amostras que o Perseverance coletará, os cientistas esperam encontrar fósseis de bactérias, ou outros micróbios, e confirmar que realmente houve vida em Marte.

A NASA trabalha em regime de home office há meses por causa da pandemia de Covid-19, mas o cronograma não saiu dos trilhos para esta missão de US$ 2,7 bilhões (R$ 14,4 bilhões). "Esta é uma das duas missões que protegemos para garantir seu lançamento em julho", disse o chefe da NASA, Jim Bridenstine.

Terra e Marte estão do mesmo lado do Sol a cada 26 meses, uma janela que não pode ser perdida.

Somente os americanos conseguiram pousar robôs intactos em Marte: quatro aterrissadores (fixos) e quatro veículos (Pathfinder, Spirit, Opportunity e Curiosity, o único ainda vivo).

Somente nos últimos 20 anos foi confirmado que o planeta possuía oceanos, rios e lagos. A presença de moléculas orgânicas complexas foi confirmada apenas pelo Curiosity – mas os dispositivos a bordo não puderam concluir sobre sua possível origem biológica.

Os primeiros aterrissadores americanos Viking 1 e 2 tentaram descobrir a vida em 1976, mas de maneira aleatória. "Os experimentos de detecção de vida foram um fracasso total", disse Scott Hubbard, que lançou nos anos 2000 o atual programa de exploração marciana.

A NASA decidiu, portanto, prosseguir em etapas: estudo do solo, análise química e molecular das rochas e várias observações de satélite. Assim, geólogos e astrobiólogos gradualmente entenderam onde a água fluía e quais áreas podem ter sido propícias para a vida.

"Compreender onde Marte pode ter sido habitável no passado e quais pegadas da vida procuramos foram as etapas necessárias para enviar uma missão a este local cuidadosamente escolhido para coletar amostras", diz Scott Hubbard.

Coleta de amostras

Perseverance deve pousar em 18 de fevereiro de 2021 na cratera Jezero, onde um rio correu de 3 a 4 bilhões de anos atrás, depositando lama, areia e sedimentos "em um dos deltas mais bem preservados na superfície de Marte", segundo Katie Stack Morgan, da equipe científica.

Na Terra, micróbios de bilhões de anos foram encontrados fossilizados nas rochas de deltas semelhantes. O veículo espacial tem três metros de comprimento, pesa uma tonelada, tem olhos (19 câmeras), orelhas (dois microfones) e um braço robótico de dois metros.

Os instrumentos mais importantes são dois lasers e um raio-X que, projetado em rochas, ajudará a analisar sua composição química e molecular e a identificar possíveis compostos orgânicos. A bordo também está um mini-helicóptero experimental de 1,8 quilo, o Ingenuity, que tentará o primeiro voo de um helicóptero em outro planeta.

Perseverance provavelmente não poderá dizer que uma rocha contém micróbios antigos. Para chegar ao fundo, será necessário cortar amostras em fatias ultrafinas usando dispositivos enormes, para talvez distinguir as formas microscópicas de organismos antigos.

"Para alcançar um consenso científico real de que a vida existiu em Marte, será necessário o retorno da amostra à Terra, independentemente do que observarmos", disse o vice-chefe do projeto científico, Ken Williford. Ele ressalta que não se deve esperar encontrar antigas conchas fossilizadas: os cientistas acreditam que a vida, se existiu em Marte, não teve tempo para evoluir para formas complexas antes que o planeta secasse completamente.

As ambições espaciais da China

Entre as missões do robô que a China enviará a Marte estarão: realizar análises do solo, da atmosfera, tirar fotos, contribuir para o mapeamento do planeta vermelho e procurar possíveis vestígios de uma vida pretérita (NASA/AFP)Entre as missões do robô que a China enviará a Marte estarão: realizar análises do solo, da atmosfera, tirar fotos, contribuir para o mapeamento do planeta vermelho e procurar possíveis vestígios de uma vida pretérita (NASA/AFP)A China está se preparando para lançar sua primeira missão a Marte este mês, usando uma sonda e um pequeno robô teleguiado. O lançamento acontecerá entre 20 a 25 de julho na Ilha Hainan (sul). Aqui estão cinco coisas para saber sobre a missão chinesa e as ambições espaciais de Pequim. 

"Questões no céu"

A China quer colocar sua sonda na órbita marciana, que pouse em Marte, e depois ativar um pequeno robô teleguiado para a realização de análises. A missão é chamada "Tianwen-1" ("Questões no céu-1"), em homenagem a um antigo poema chinês sobre astronomia.

A sonda precisará de vários meses para concluir a trajetória entre a Terra e Marte, que embora varie, tem ao menos 55 milhões de quilômetros, o equivalente a 1,4 mil voltas ao redor do mundo. De acordo com um encarregado do programa espacial, citado pela TV nacional, teria que chegar ao nível do planeta vermelho por volta de fevereiro de 2021.

Voo solo

Em 2011, a China já tinha tentado enviar uma pequena sonda para Marte em uma missão conjunta com a Rússia. No entanto, a tentativa falhou porque o lançador russo não conseguiu se colocar em órbita de trânsito rumo ao planeta vermelho. Todo o material caiu na Terra e parcialmente se desintegrou na atmosfera.

Após esse revés, a China decidiu continuar a aventura sozinha. "Seus objetivos não são diferentes dos de outros países", contou Chen Lan, analista da página GoTaikonauts.com, especializada no programa espacial chinês. "Trata-se de melhorar suas capacidades, explorar o universo, investir em recursos futuros e, em resumo, aumentar sua influência política e prestígio", acrescenta.

O robô teleguiado

Sabe-se muito pouco sobre esse equipamento. As autoridades chinesas comunicam pouco sobre os seus projetos espaciais, controlados pelo exército. O robô pesa mais de 200 quilos, está equipado com quatro painéis solares e seis rodas, de acordo com blogs especializados chineses, geralmente bem informados.

O artefato deve permanecer em atividade em Marte por cerca de três meses, segundo Sun Zezou, engenheiro-chefe da sonda. Entre as missões estão: realizar análises do solo, da atmosfera, tirar fotos, contribuir para o mapeamento do planeta vermelho e procurar possíveis vestígios de uma vida passada.

Coelhos de jade

A China já enviou dois pequenos robôs teleguiados fora da Terra: os "Coelhos de Jade" 1 e 2, enviados à Lua em 2013 e 2019, respectivamente. O segundo atingiu a parte oculta da Lua, um fato inédito.

Os "coelhos de jade" foram um "bom treinamento", já que os terrenos lunar e marciano "são globalmente similares", explica Jonathan McDowell, astrônomo do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, nos Estados Unidos. Porém, a distância é um ponto mais relevante, o que implica que as telecomunicações serão mais lentas e há um risco maior de falhas por causa da jornada mais longa, alerta McDowell.

Ambição espacial

A China investe bilhões de dólares em seu programa espacial, para tentar chegar ao nível dos programas espaciais da Europa e dos Estados Unidos. Em 2003, enviou seu primeiro astronauta ao espaço. O gigante asiático, que também lança satélites para o próprio país ou para outras nações, terminou em junho o desenvolvimento do seu sistema de navegação, Beidou.

Pequim espera poder enviar um astronauta para a Lua em até uma década. Até 2022, os chineses planejam ter uma grande estação espacial instalada, permitindo em teoria que os astronautas permaneçam no espaço permanentemente. Com o tempo, poderia ser a única estação operacional, após o fim da Estação Espacial Internacional (ISS).


AFP



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