Religião

15/07/2020 | domtotal.com

Salmo 46: do caos à paz

Sendo poesia, o salmo também transcende seu tempo servindo de ensinamento para nossos dias

Salmo 46 dramatiza a vitória do Senhor sobre o caos inicial, na luta contra a antiga serpente marinha
Salmo 46 dramatiza a vitória do Senhor sobre o caos inicial, na luta contra a antiga serpente marinha (Unsplash/ Daniele Levis Pelusi)

Fabrício Veliq*

O salmo 46 é conhecido na história protestante como o preferido de Lutero, que o utilizou para escrever seu mais famoso hino, Castelo Forte. A música data por volta de 1521, e teria sido composto por ocasião da Dieta de Worms, na qual Lutero foi chamado a se explicar diante de Carlos V a respeito de seus ensinos.

Esse salmo, rico em elementos, está entre os considerados "cânticos de Sião", que exaltam Jerusalém e seu templo como lugar da habitação de Javé. Provavelmente era pronunciado por um sacerdote no templo, fazendo uma dramatização da vitória do Senhor sobre o caos inicial, na luta contra a antiga serpente marinha. Diante do medo do povo em relação aos seus inimigos, sua recitação teria como finalidade mostrar que  Deus garante a vitória no presente da mesma forma que a obtivera no início de todas as coisas. Nesse sentido, o aspecto político-social do povo é colocado em contraposição ao aspecto mítico-religioso.

Da mesma forma, o salmo aponta outro contraste que também remete a esse mito primordial de luta entre Deus e a serpente marinha: as águas turbulentas e agitadas, de um lado, e, do outro, o rio tranquilo, controlado por Deus na sua cidade, onde ele mesmo se faz presente, trazendo sua vitória desde o romper da manhã. É sabido que, ao longo da Escritura, as águas sempre tiveram duplo significado. Elas são remetidas tanto ao caos, como às nações ao redor de Israel. Assim, é muito provável que a paz trazida por Deus, representada pelos rios tranquilos do qual fala o versículo 4, esteja em contraste com os levantes das nações vizinhas contra o povo de Israel. Ao mesmo tempo, o salmista aparenta lembrar que Deus traz sua vitória de maneira efetiva. O uso do termo "ao romper da manhã" faz lembrar aquilo que havia sido relatado tanto em Isaías 37,36, vitória de Judá sobre o domínio assírio representado por Senaqueribe, quanto em Êxodo 14,27, quando Deus destruiu o exército de Faraó. Em ambos os textos a intervenção divina não é somente uma expectativa que aconteceria em algum momento futuro, mas que se realiza efetivamente após uma noite de angústia.

Por último, o salmo chama outras pessoas a serem testemunhas dos feitos de Deus em favor do seu povo, apontando para o futuro de seu governo sobre toda a terra, quando a guerra não mais existirá e todos pararão de lutar (v.8-10). Nesse sentido, Deus é quem faz cessar a guerra e derrota os inimigos do povo. Desse modo, reitera a mensagem trazida desde o início: assim como Javé vence o caos inicial, fazendo cessar a guerra contra a serpente marinha, também concede vitória ao seu povo sobre seus inimigos.

Como poesia que é, o salmo também transcende seu tempo, servindo de ensinamento para nossos dias. Neste momento tão conturbado pelo qual passa nossa sociedade, fruto tanto do mau governo que temos, como das atitudes irresponsáveis de várias pessoas de nossa comunidade, é comum o sentimento de aproximação do caos. Sente-se que não é possível escapar dele, além do medo que, muitas vezes, vem como assombro. Nesse sentido, o salmista nos traz à memória o que pode nos trazer esperança: Deus é refúgio e fortaleza sempre presente e disposto a auxiliar seu povo nos mais profundos desesperos pelos quais passa. Essa ação, porém, não está longe como muitas pessoas tendem a crer, mas se mostra efetiva e de perto, uma vez que, como o salmista insiste, Deus é aquele que caminha junto do seu povo, fortalecendo e provendo sua libertação diante dos diversos desesperos e angústias da vida.

Com isso em mente, é possível, ainda hoje, crer que quem venceu todo o caos continua sendo nosso refúgio e fortaleza caminhando conosco em todos os momentos, de maneira que é possível testemunhar a libertação que nos alcança para que, através de nós, essa libertação possa também alcançar a todas as pessoas.

Texto dedicado ao querido companheiro de caminhada e biblista Marcos Lima, com quem tenho aprendido muito nesses últimos anos.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br



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