Religião

14/07/2020 | domtotal.com

Pandemia está dizimando as comunidades indígenas da América Latina

Além do vírus, crimes ambientais aumentaram, provando a urgência do sínodo

Membros da equipe médica das Forças Armadas conversam com indígena Yanomami em Roraima no dia 1º de julho
Membros da equipe médica das Forças Armadas conversam com indígena Yanomami em Roraima no dia 1º de julho (Nelson Almeida/ AFP)

Desde que surgiu a pandemia do novo coronavírus que a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) monitoriza a evolução da doença nos nove países de que a Amazônia faz parte, e os dados não são animadores. Se a Amazônia fosse toda ela um só país, seria o quinto a nível mundial em número de casos de Covid-19, indica o padre Júlio Caldeira, diretor de comunicação da Repam, com base nos dados que o organismo representativo da Igreja Católica tem recolhido nos nove países da Amazônia.

"Segundo o mapa que elaboramos às segundas, quartas e sextas-feiras, já são 541 mil casos e 16 mil falecidos. 5% dos casos a nível mundial estão na região amazônica. Se a Amazônia fosse contar como um país, seria o quinto com mais contágios depois dos Estados Unidos, Brasil, Índia e Rússia", diz o missionário, que acredita que os números destes vários países até pecam por defeito. "Existe um sub-registro, porque não se realizam os exames necessários, e muitas comunidades – a maioria delas no interior da Floresta Amazônica – não tem garantido o seu direito a esse serviço básico de saúde", conta.

Entre os povos indígenas que vivem nas regiões mais remotas há ainda menos assistência e menos meios para registar e tratar os casos de Covid-19, mas a doença já lá chegou. "Já são 15 mil casos de 168 povos indígenas de etnias distintas, atingindo os quase mil mortos. O índice de mortos é o dobro do que acontece entre outros povos".

Natural de Paraíba do Sul, no estado brasileiro do Rio de Janeiro, o padre Júlio Caldeira acompanha com preocupação a evolução da doença no seu país.

"É muito triste ver a situação que passa no meu Brasil. São quase dois milhões de casos, 72 mil mortos. A Amazônia brasileira vai-se tornando o foco central da pandemia, com mais de 430 mil casos, e 13.300 mortos", diz o missionário, que não poupa críticas à atuação do governo de Jair Bolsonaro.

"Há atitudes quase criminais, podemos dizer, dos nossos representantes do governo, que estão fomentando que algumas pessoas não sigam as recomendações dos organismos de saúde internacionais. No Brasil o número vai crescendo pela falta dessa ação do governo nacional".

Igreja em defesa dos indígenas exige medidas urgentes

Júlio Caldeira passou os últimos dez anos entre a Colômbia, o Peru e o Equador, apoiando os povos indígenas em Sucumbios. Atual diretor de comunicação da Repam, fez parte da equipe de comunicação que acompanhou o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, que decorreu em outubro de 2019, no Vaticano.

Em missão atualmente no Equador, garante que a Igreja Católica continua atenta e é, em muitos casos, a única ajuda para os povos na Amazônia, com um "trabalho social bem coordenado e muito bem feito", que tem permitido fortalecer o trabalho na área da saúde.

"No Peru, por exemplo, houve uma grande campanha para comprar respiradores, que ajudou a salvar muitas vidas", conta.

Destaca, ainda, a ajuda humanitária de emergência que tem sido dada, nomeadamente "com alimentos, visto que na Amazônia e nos países latino-americanos, a maioria das pessoas vive da economia informal, e com a quarentena não tem como trabalhar".

E diz que é também a Igreja que tem dado resposta "aos casos mais dramáticos", como "o do derrame de petróleo aqui, no Equador, que afetou mais de 100 mil pessoas, que não tinham acesso a água".

A Igreja também continua na linha da frente para denunciar os crimes ambientais e a violação sistemática dos direitos humanos na região. "Ainda em maio os 67 bispos da Amazônia exigiram, numa nota oficial, medidas urgentes do governo para combater o coronavírus, ao mesmo tempo que denunciaram o descontrole nos acessos aos territórios indígenas, especialmente com a extração dos recursos naturais, que está crescendo".

Júlio Caldeira diz que por toda a Amazônia, mas sobretudo no Brasil, a pandemia tem sido acompanhada do "aumento do desmatamento e dos incêndios, da extração do minério e da violência contra os líderes, especialmente os líderes indígenas e os líderes sociais", e não tem dúvidas de que "esses crimes sócio ambientais demonstram a ineficiência do Governo, que muitas vezes está mais preocupado com processos econômicos ou interesses de alguns setores, do que com a população da Amazônia, especialmente essa população que mais sofre".

"É um tempo de graça para a Igreja na Amazônia"

Para o padre Júlio Caldeira, a situação atual na Amazônia mostra como foi oportuno e pertinente o Sínodo dos Bispos promovido pelo papa, em outubro, e as decisões que já se lhe seguiram, como a de criar uma Conferência Eclesial da Amazônia.

Presidida pelo cardeal brasileiro Claudio Hummes, nela "têm assento não só bispos, mas também três representantes indígenas", duas são mulheres, assim como "as diferentes e principais instituições da região e do território, como o Conselho Episcopal Latino-americano, a Confederação Latino-Americana de Religiosos e Religiosas, a Cáritas da América Latina e do Caribe, e também representações leigas, como a Secretaria executiva da Repam", lembra o missionário.

"Este é um tempo de graça para a Igreja na Amazônia, na busca desses novos caminhos que abarcam a dimensão social, cultural, ecológica e eclesial como nos propõe o documento final do Sínodo, e também os sonhos do papa Francisco, que apresentou na exortação apostólica Querida Amazônia", sublinha, lembrando que há muitas outras propostas que terão ainda de ser amadurecidas.

"Essa conferência quer oferecer um modo de articular a maioria das propostas que foram colocadas no Sínodo Amazônico. Algumas são desafiantes, muito complexas e enormes, como a de criar uma universidade amazônica, por exemplo. É preciso avançar e começar a desenvolver a proposta do Rito Amazônico, em diálogo com as instâncias do Vaticano, e fazer o acompanhamento das experiências e propostas de novos ministérios. A nova Conferência Eclesial quer tudo isso, mas também devemos dar tempo e espaço para ir amadurecendo todas essas propostas".


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