Religião

17/07/2020 | domtotal.com

O retorno do sagrado na contemporaneidade: uma leitura possível

Religiosidade 'light' se dá como negação da religião em seu aspecto institucional por não responder as demandas atuais

Para esse sujeito não há problema em participar de festas consumistas, em que a dinâmica efêmera da vida está toda estampada, contanto que a proposta apareça com o nome de 'Krishna' ou alguma outra entidade oriental
Para esse sujeito não há problema em participar de festas consumistas, em que a dinâmica efêmera da vida está toda estampada, contanto que a proposta apareça com o nome de 'Krishna' ou alguma outra entidade oriental (Unsplash/ Maxime Bhm)

Fabiano Veliq*

Na contemporaneidade, acontece uma espécie de retorno soft do sagrado na relação do homem com a religião ?" o que aqui chamaremos de espiritualização instrumental da vida. Consiste em movimento crescente de pessoas que, nas redes sociais ou na vida cotidiana, adotam "novas posturas", "novas formas de viver". Afirmam se dedicar a práticas como yoga, alimentação saudável, cultura da paz, esoterismo, mapas astrais, lemas budistas, exercícios milenares de meditação etc.

Mesmo parecendo ser recente, trata-se de algo que já acontece há algum tempo em nossa sociedade, totalmente permeada pelo individualismo e ausência de referenciais. Esse novo tipo de "espiritualidade" é chamada "religião light", "religião a la carte", "religião portátil" ou "retorno soft do sagrado". Todos esses conceitos trazem em si a noção de apropriação instrumental dos preceitos religiosos, aliada às demandas do capitalismo. Não é raro pessoas afirmarem que se sentem mais dispostas para o trabalho ou que passaram a render mais em suas atividades assim que começaram a meditar. A prática espiritual passa a servir, em grande parte, ao aumento da produtividade.

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Aqui cabe uma diferenciação entre sagrado, religião e seu aspecto institucional. Por sagrado entendemos a esfera da vida que se coloca "separada" do profano, isto é, do comum.  Distingue-se também o sagrado do divino, sendo este posterior àquele. Vemos, por exemplo, em várias comunidades primitivas a adoração aos totens, bem como a veneração de algum animal ou algo que, para elas, teria um campo de ação maior que o humano. O que nos leva a concluir que a sacralização não precisa ser atribuída à divindade, mas que o refinamento do aspecto sagrado culmina na ideia de divindade.

A religião define-se pela relação do indivíduo com o sagrado e pressupõe um aspecto comunitário. Desse modo, pode ser considerada como um recorte na dimensão do sagrado, uma tentativa de dizer algo sobre ele a partir de determinado lugar, visando dar ao ser humano uma resposta à questão sobre o sentido de sua existência. A religião surge nessa tentativa de dizer o desconhecido, de colocar o mundo dentro de algo que possa ser amado pelo humano.

Ela antecede sua dimensão institucional, sendo um recorte seu. A institucionalização religiosa se caracteriza por uma cristalização de determinada religião. É nesse estágio que se conhecem os dogmas, criam-se as hierarquias etc. É aqui que falamos, por exemplo, de catolicismo, protestantismo, islamismo e outros. Ou seja, a institucionalização religiosa se dá como tentativa de organizar aquela primeira relação do indivíduo com o sagrado.

Podemos afirmar que o retorno do sagrado na atualidade se dá por via de negação de uma religião institucionalizada devido ao seu esvaziamento na oferta de respostas às demandas contemporâneas.

A religião light se evidencia principalmente entre os mais jovens. Estes, diante das diversas sensações que o mundo lhes oferece e na ânsia por encontrar algum sentido, começam a ver em práticas religiosas uma possível saída para o estado de anomia. Assim, o sujeito encara de forma muito tranquila o fato de seguir preceitos budistas e fazer coaching para produzir melhor. Ou então se sente muito bem praticando yoga, mas trabalhando freneticamente porque tem no acúmulo financeiro um objetivo inegociável de vida. Para esse sujeito não há problema em participar de festas consumistas, em que a dinâmica efêmera da vida está toda estampada, contanto que a proposta apareça com o nome de "Krishna" ou alguma outra entidade oriental. Esse sujeito da religião light é ele mesmo um indivíduo light, descomprometido com tudo, que tem na ausência de conflitos a sua razão de viver.

A religião a la carte é exatamente esse movimento de se servir de preceitos religiosos em uma espécie de self-service onto-metafísico em que o "cliente" (afinal, a sua apropriação, na maior parte das vezes, alia-se à dinâmica do capital) é livre para tomar o que achar mais interessante para sua vida. Com o seu prato, ele se serve da mística cristã, da sabedoria budista, dos tambores africanos, da serenidade das religiões orientais, da yoga, da meditação e monta sua refeição, a ser devorada no horário de almoço da vida, em busca de dinheiro.

Essa relação do indivíduo com a religião marca uma tendência contemporânea no mundo, a da ausência de referenciais. A sociedade líquida, como Bauman gostava de chamar, traz consigo essa liquidez nas relações que o homem estabelece com a religião. Esta, em sua versão light, é religião descomprometida, sem afeto, sem amarras metafísicas, sem compromissos ontológicos; torna-se simplesmente um instrumento para o sujeito se sentir melhor. E esse "sentir-se melhor" pode ser apenas "comer comida orgânica", "meditar algumas vezes por semana" e entender-se "transcendendo a efemeridade da vida" por alguns minutos em silêncio.

A religião light ou à la carte é "religião portátil, aquela que o indivíduo tem sempre à mão para pegar o que, quando e para que precisar. Se em determinado momento necessitar de uma prática que se relacione com o budismo, por exemplo, o sujeito simplesmente se apropriará daquilo, sem a necessidade de conceitua-lo ou colocá-lo dentro do arcabouço teórico a que pertence. A prática apropriada é simplesmente utilizada por ele a seu bel prazer e o mesmo acontece com rituais dos diversos credos.

As religiões orientais são, talvez, as que mais sofrem apropriação pelo ocidente devido a sua forma bastante diferente de ver a relação do homem com o mundo. Daí, muito facilmente, vemos os mais diversos exercitantes de yoga, meditação, práticas alimentares que simplesmente as fazem para otimizar sua vida financeira ou profissional, para ter melhor rendimento na dinâmica do capital. Isso marca uma deturpação curiosíssima da função sagrada da religião que, em sua dinâmica, está totalmente alheia à noção de "produção". A religião light permite ao sujeito se sentir melhor, mas mantendo a mesma dinâmica neurótica que o aprisiona dentro da estrutura do capitalismo. Nesse sentido podemos dizer, sem nenhuma dúvida, que esse tipo de religiosidade é o fenômeno que marca sua apropriação pelo capital. A religião, antes doadora de sentido para a existência, transforma-se em um meio para otimizar a produção do sujeito na dinâmica capitalista. Quando ela assim se torna, há muito tempo perdeu seu sentido de ser.

Se por um lado o retorno do sagrado evidencia um movimento de esvaziamento do sonho ateu (a sociedade esclarecida que abandonou os deuses nos moldes positivistas), por outro, demonstra que é muito fácil promover sua apropriação pelo capitalismo, transformando-o em produto a ser consumido. No entanto, mostra também que há algo do humano que insiste em querer se manifestar para além da dimensão pragmática da vida cotidiana, que há algo no humano que clama por sentido. Talvez isso seja algo que nunca cessará enquanto houver humanidade.


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*Fabiano Veliq é filósofo, teólogo, psicanalista, doutor em Psicanálise, doutorando em Filosofia e professor adjunto do departamento de Filosofia da PUC Minas



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