Cultura

16/07/2020 | domtotal.com

Memórias de um empregado

Tive um emprego por indicação, dois por merecimento e vários por presumível competência

Diziam que eu era redator dos bons nas quatro ou cinco agências que seguidamente me contrataram ao longo dos anos
Diziam que eu era redator dos bons nas quatro ou cinco agências que seguidamente me contrataram ao longo dos anos (Unsplash/ Bernard Hermant)

Afonso Barroso*

Lembranças são uma espécie de vitamina pra alma. Me pego às vezes lembrando coisas que pareciam para mim definitivamente esquecidas e que de repente surgem do nada, vitaminando a tese de que recordar é viver. Outro dia, por exemplo, enquanto brigava com a insônia no deserto da madrugada, vieram-me à mente meus primeiros empregos.

O primeiro, na verdade, não foi propriamente um emprego, mas uma atividade inglória: vender livros. Não, não era fácil vender esse produto de aceitação difícil neste país de rara gente que gosta de ler. Mesmo assim eu me saí até bem na tarefa. Pegava o trem de subúrbio, que ligava a Região Metropolitana, e ia de casa em casa à procura de possíveis compradores nas cidades circunvizinhas, como Sabará e Pedro Leopoldo. Na bolsa enorme que me forneceram no escritório, levava comigo livros diversos, de Menotti del Picchia, Monteiro Lobato e Zé de Alencar, entre outros, e uma coleção de dicionários mirins. Estes sim, pela boa qualidade da encadernação, vermelhinhos e simpáticos, com o título Minidicionário da Língua Portuguesa em alto relevo e letras douradas, tinham aceitação plena. Eu argumentava que era útil e decorativa aquela coleção. A senhora coloca na sala de visitas e serve para consultar quando necessário, além de fazer a sala mais bonita, eu dizia. E a dona acabava comprando. Houve uma que até puxou conversa, me ofereceu café, falou da sua história de viuvez recente e das suas carências. Era bem atraente a danada. Me pediu pra ficar para o jantar, parecendo que queria escrever comigo um romance a quatro mãos ou quatro pernas, mas eu, embora tentado, agradeci e recusei. Tinha de pegar o trem de volta.

Numa das viagens, conheci uma garota que estava no trem com a mãe. Conversamos, ela disse que podia ir à casa dela à noite, me deu o endereço e eu fui. Era uma casa na Nova Suíça. Mas o namoro durou pouco, porque logo fui afugentado por um irmão dela. O raio do sujeito ficava nos espreitando enquanto conversávamos, até então inocentemente, no portãozinho do jardim. De repente, ele abria a janela e gritava: Fulana (não me lembro o nome dela), já para dentro. Ela se despedia, cheia de medo, e eu ia embora, cheio de raiva daquele irmão inconveniente. O namoro durou poucos dias por culpa dele. Vai ficar pra titia, eu pensava: quem vai querer um cunhado assim? 

Com carteira assinada, meu primeiro emprego foi no Hospital Felício Rocho. O Jadir, meu irmão, era amigo do diretor de sobrenome italiano (talvez Gasparini ou algo assim) e conseguiu com ele um lugar no departamento de Recursos Humanos. Fui bem recebido pelo grupo de funcionários do setor. Gente boa. Me lembro de três: um rapaz muito divertido, uma mulata bonita e um outro rapaz de modos delicados, que falava francês fluentemente (estudava na Aliança Francesa) e ao final do expediente costumava revirar os olhos e exclamar, sempre olhando pra mim, não sei por quê: Mon ami, je suis très fatiguée! Eu ficava très sem jeito.

Durou apenas 18 dias esse emprego. Pedi desculpas ao Jadir por não ter aguentado, e foi por uma causa justa que pedi as contas: eu não suportava a comida do hospital. Acontece que era obrigatório almoçar lá, porque havia na Carteira de Trabalho a informação de que o salário era integrado com a alimentação. Ou seja, se eu não comesse, pagava assim mesmo, porque o valor era descontado na folha. E a comida, aqui pra nós, era quase sempre uma sopa que seria de macarrão, mas era preciso vasculhar a imensa panela à procura do macarrão escondido lá dentro. Lembrava a caça ao sabão na banheira do Gugu.

Minha carteira foi novamente assinada algum tempo depois, quando fui aprovado numa seleção do Banco Mercantil de Minas Gerais, onde trabalhei durante cinco anos. Saí de lá quando venci concurso promovido pelo Diário da Tarde, o vespertino dos Diários Associados. O resultado do concurso me foi comunicado pelo repórter Francisco Morais Terra, o Terrinha, que chegou ao banco com fotógrafo e tudo pra me entrevistar. Lembro que causei uma certa inveja em colegas bancários naquele dia que marcou uma virada na minha vida.

Tive outros empregos como redator de publicidade, sempre sem sair do jornal, onde trabalhava à noite. Diziam que eu era redator dos bons nas quatro ou cinco agências que seguidamente me contrataram ao longo dos anos. Dos bons? Sim, é bem possível que tenha sido.


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:
https://chat.whatsapp.com/GuYloPXyzPk0X1WODbGtZU

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!