Religião

16/07/2020 | domtotal.com

As arquiteturas do ódio matam a dignidade humana pelo design

Tradição moral católica tem recursos para colocar nossas atividades diárias dentro de uma matriz de responsabilidade social

Um homem é retratado sobre um telhado atrás de uma cerca de arame farpado no Centro de Detenção de Otay Mesa para aqueles que entram nos EUA buscando ilegalmente asilo, em San Diego, a 2 de julho de 2019
Um homem é retratado sobre um telhado atrás de uma cerca de arame farpado no Centro de Detenção de Otay Mesa para aqueles que entram nos EUA buscando ilegalmente asilo, em San Diego, a 2 de julho de 2019 (CNS/ David Maung)

Maria Teresa Dávila*
NCR

Durante as cerimônias virtuais da minha cidade em comemoração ao Dia da Emancipação, o poeta Terry E. Carter compartilhou seu poema Slave ship soliloquy (Solilóquio do navio de escravos). O poema mostra uma imagem de como era a Passagem do Meio, rota da comercialização de escravos, e como estamos vivendo atualmente à sombra do design do navio mais horrível.

Doze milhões de homens, mulheres e crianças foram roubados e transportados através do Atlântico. Dois milhões não conseguiram chegar, morreram ou foram mortos, despejados em uma cova úmida e escura. Carter fez questão de incluir as plantas dos navios usados durante o comércio de escravos como pano de fundo para sua leitura de poesia, baseada nos projetos para a desumanização em massa que representou a escravidão. Essa evidência demonstra como a raça humana é adepta de algemar e conter os corpos daqueles que procura apresentar ao mundo como menos que humanos.

Nos últimos seis anos, os residentes dos EUA foram desafiados pelo design de centros de detenção de migrantes. Muitos deles continuam servindo ao propósito de manter milhares de menores e crianças separados de suas famílias na fronteira. Há dois anos, várias organizações de arquitetura e design consideraram a questão de se era ético projetar esses centros de detenção. O cerne dessa questão é se os arquitetos poderiam usar seu talento para melhorar as condições dos seres humanos que seriam detidos nesses lugares. Perguntamos: por acaso, seriam capazes de projetar locais de retenção mais humanos? Esse objetivo louvável valeria a colaboração deles com uma indústria focada em deter seres humanos, às vezes indefinidamente? A reflexão dos profissionais os levou a um retumbante "não!"

Em 20 de junho de 2018, a organização The Architecture Lobby (TAL) e os Arquitetos, Designers e Planejadores de Responsabilidade Social (ADPSR) emitiram uma declaração conjunta sobre a imigração e a cumplicidade de suas profissões:

Por muito tempo, os arquitetos foram cúmplices na gaiola humana ao projetar e construir essas estruturas. Eles projetaram as instalações onde as crianças choravam pelos pais à noite. Os arquitetos também projetaram a extensa rede de instalações onde seus pais tremem em celas frias. A história nos ensinou que o que é estritamente legal nem sempre é o justo. É hora de acabar com isso. Convocamos os profissionais a abraçarem conosco esta promessa: não projetaremos gaiolas para as pessoas!

Quem são os construtores e designers das arquiteturas do ódio? Insistimos em que nunca poderíamos fazer parte da construção de infraestruturas para o transporte em massa de judeus para campos de concentração e morte, ou da construção de quartéis para manter japoneses e japoneses-americanos em campos de reclusão nos EUA. E certamente não nos vemos projetando navios para o tráfico de seres humanos durante o comércio transatlântico de escravos. Gostamos de limpar nossas indústrias, libertando nossos negócios do dia-a-dia do tipo de avaliação moral forte reservada para casos extremos. Os graves pecados do planejamento e da construção de infraestruturas de ódio não entram em nossas considerações sobre o bem comum, de nossos empregos, da educação de nossos filhos, dos investimentos em nossas contas de aposentadoria e do desenvolvimento de tecnologias e sistemas que facilitam nossa vida.

Certamente a tradição moral católica tem recursos para colocar nossas atividades diárias dentro de uma matriz de responsabilidade social. Podemos ser direta e moralmente culpados pelo mal, mas isso é uma raridade. Muitas vezes, estamos tentando discernir os graus de nossa cooperação, especialmente quando consideramos questões de bem comum como votar em um candidato que pode não ter uma posição consistente em favor da vida. Também faríamos bem em fazer perguntas sobre a "apropriação do mal", pela qual nos beneficiamos do produto de práticas que causam danos de maneiras muito distantes de nós, como o consumo de tecnologias que dependem do trabalho forçado ou escravo.

Os atuais protestos nos EUA e no mundo contra a violência que sofrem negros e pardos pela polícia destacam as maneiras pelas quais algumas formas de arquitetura social servem ao propósito de restringir e conter os corpos humanos. A força policial, o sistema de justiça criminal e os complexos industriais de prisões e detenção de migrantes fazem parte de nossa arquitetura social. E, assim como as arquiteturas que sustentavam estruturalmente males como a escravidão e o nazismo, seu funcionamento depende de muitas pessoas que não questionam sua culpabilidade moral na vida cotidiana. Lavamos as mãos do mal que geramos ao construirmos e perpetuarmos estruturas que trabalham para conter e abusar dos corpos e vidas daqueles considerados menos humanos, indesejáveis pela norma e indefesos diante de nossa indiferença.

No final de abril, imagens assustadoras de reclusos na prisão salvadorenha de Izalco chamaram minha atenção. Os detentos também descreviam o ofício de um arquiteto como uma ação de ódio, colocada a serviço do controle dos corpos daqueles considerados indesejáveis. O posicionamento particular dos corpos dos reclusos, em longas filas, sentados e montados, com as costas no estômago do outro e com as mãos atadas, tem sido um projeto de controle contra tumultos ou revoltas, visível também em alguns dos projetos de transporte de pessoas africanas roubadas no tráfico de escravos.

A resposta à epidemia de Covid-19 pelo governo salvadorenho de direita, de Nayib Bukele, está sob escrutínio por suas violações graves dos direitos humanos. Isso é mais visível entre os pobres de El Salvador. Quando deixado sem controle, o desejo de moldar o bem comum para apenas alguns ou apenas para aqueles com dinheiro e poder resulta na violação repetida da alma humana através da cuidadosa construção das arquiteturas do ódio.

O momento atual de protesto e pandemia oferece uma oportunidade para um exame crítico de nossas consciências públicas e pessoais com relação às várias arquiteturas do ódio, social e físico, que defendemos com a nossa participação, direta ou indiretamente. Construir a dignidade humana requer reconhecer como o pecado se adentra em todas as épocas nos nossos esforços diários para projetar o bem comum.

Em vez de responder aos pedidos de "cortar o financiamento da polícia" com ceticismo e escárnio, poderíamos participar de discussões examinando como o orçamento das cidades e a alocação de recursos são uma forma de arquitetura social que deve apoiar o bem de todos os membros da comunidade? Em vez de ver os protestos de Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) como interrupções caóticas do cotidiano, podemos ouvir neles um chamado a um ato nacional e internacional de contrição, uma obrigação de examinar nossa participação nas arquiteturas do ódio e, por sua vez, trabalhar para desmantelá-las?

Publicado originalmente por NCR

*Maria Teresa Dávila é professora associada de Prática, Estudos Religiosos e Teológicos no Merrimack College, em North Andover, Massachusetts



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