Religião

17/07/2020 | domtotal.com

Teocídio: a morte de Deus

O filósofo não decretou a morte divina, mas de um modo de narrar a divindade

Retrato do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) pintado por Francisco Fonollosa
Retrato do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) pintado por Francisco Fonollosa (PrismaArchivo / Leemage/ AFP)

Daniel Couto*

"Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? - também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então possuía sangrou inteiro sob os nossos punhais - quem nos limpará desse sangue?" (NIETZSCHE, Gaia Ciência, § 125)

"Deus está morto!". Em um primeiro momento, a famosa sentença nietzschiana pode nos colocar diante de uma série de problemas. Apesar de ser repetida indiscriminadamente, tanto por aqueles que são a favor, quanto pelos que repudiam tal pensamento, a ideia da "morte de Deus" não é uma invenção do filósofo alemão, mas uma análise da sociedade e do pensamento modernos. Se os defensores acreditam que essa "morte" é definitiva, e que um "novo tempo" surge pelo "advento da racionalidade pura", retirando a importância da religião e da espiritualidade para a vida humana, isso não é, a rigor da letra, o movimento percebido na modernidade, mas, talvez, uma resposta a desejos particulares dos "inimigos da fé". Enquanto a dimensão religiosa precisa ser "negada", diante de uma supervalorização do "mundo presente", a ânsia de decretar a "morte de Deus" parece ter, no seu âmago, a intenção de criticar os sistemas religiosos muito mais do que "provar ou negar a existência da divindade".

Para entendermos melhor a questão, precisamos fazer uma digressão. Retomando a dimensão da fé na Antiguidade, tanto no contexto grego, onde a vida pública-civil e o discurso religioso estavam interligados e as narrativas mitológicas fomentavam as questões políticas, econômicas e sociais, quanto nas primeiras comunidades cristãs, em que o "caminho do Evangelho" também era visto, menos como uma instituição religiosa, e mais como um modelo de vida, percebemos uma "religião" horizontal, com a vida comum e a prática religiosa imbricadas, onde Deus (e os deuses) fazia parte de um "ambiente relacional". Rogar e estar com o divino não se restringia a um aspecto da existência, mas era assimilado como uma característica comum para a sociedade. Para os antigos, vida e espiritualidade se aproximavam de modo que "Deus não só estava vivo, como caminhando entre o povo".

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Com o passar do tempo, vemos uma mudança significativa nesse contexto. A institucionalização da fé, a partir da "Igreja" consorte do Estado, e da imposição de uma religião oficial a todos, homogeneíza a relação entre as pessoas e o divino, passando de uma "religiosidade do povo" para uma "religião dos clérigos". Essa estrutura de poder, que no início estava próxima da cultura antiga, ao adentrar na Idade Média, distancia cada vez mais Deus dos seres humanos, tornando-o uma entidade quase inacessível e criando uma "dependência" dos guardiões do sagrado para que a relação fosse possível. A teologia passa a ser a detentora do "saber sobre Deus", a Igreja passa a ser a detentora da "mediação entre Deus e o povo" e as pessoas se tornam cada vez mais passivas. Com o distanciamento entre a dimensão da vida e a espiritualidade, apesar de encontrarmos um forte discurso religioso popular nesse período, Deus parece ter ficado "trancafiado" nas estruturas de poder.

Nesse cenário a vida é conduzida a partir de uma "ética religiosa" impositiva que submete os crentes à autoridade eclesial sem considerar a voz e a vez desses agentes. Dogmas, normas morais, alienação dos ritos, tribunais, venda de indulgências e uma série de outras coisas tornaram Deus uma lucrativa moeda e uma fonte inestimável de poder. Mesmo que esse não tenha sido o movimento de todos os membros da instituição, pois muitos permaneceram fiéis ao caminho evangélico, a primazia do papa dentre a estrutura monárquica europeia e o poder bélico do "estado papal" fizeram de Deus o supremo observador e o estrategista de uma "guerra santa". A divindade estava muito longe do alcance do povo. O cristianismo católico se torna, portanto, a grande narrativa sobre Deus. Por séculos a instituição tomou, para si, o lugar de "representante da divindade".

Uma estrutura como essa, porém, não perduraria incólume para sempre e, a partir da insatisfação popular, religiosa e política, as bases desse pensamento começaram a ser atacadas. Os movimentos desencadeados pela reforma protestante e a nova tônica do renascimento mudaram a maneira pela qual o ser humano enxergava as relações de poder. Em busca de um "ideal" grego, exaltando a racionalidade, colocando o ser humano como o centro das questões éticas, políticas e científicas, a modernidade nasce com um "novo olhar". O iluminismo, que buscava "trazer luz" e mudar o rumo da história, acabou abalando significativamente a tônica da espiritualidade. Deus que estava distante, passou agora a ser questionado. Às custas da valorização da razão e do método científico, a divindade começou a perder a sua importância. Pouco a pouco o pensamento, a filosofia e a ciência em uma guinada tecnológica rumo ao "progresso" da humanidade, aprisionaram Deus nos círculos privados da "religião", do culto individual e da teologia. Aquela maneira específica de se relacionar com o divino parece ter chegado a uma sentença que estava apenas à espera da execução.

A modernidade, portanto, consolida a separação das "questões do Estado" e das "questões de Deus", atribuindo uma dicotomia da vida que, aos poucos, foi se fortalecendo. Com a arte ocupando o papel da transcendentalidade, a ciência englobando a cosmologia e a epistemologia e a ética articulada com o direito, a partir dos princípios revolucionários da "igualdade, liberdade e fraternidade", o lugar da fé passa a ser "secundário". Mesmo que a religião ainda ocupasse um papel "protocolar", ela deixou de ser uma esfera "necessária" para a constituição social. É a partir daí que Nietzsche desenvolve a sua leitura. A pulsão divina, que "caminhava com o povo", passou a ser vista como uma "narrativa fantasiosa". Os seres humanos, ao se colocarem como centro de toda a vida, apunhalaram o "Deus moderno", com um golpe fatal.

Nesse sentido, a crítica nietzschiana ao cristianismo é certeira: a sociedade, nesse momento, não precisa mais de Deus da maneira como o concebiam. Ele definhou, está morto e foi assassinado pelos seus próprios adoradores. É claro que isso não altera, em nada, aquilo que é próprio da natureza de Deus, mas é um traço significativo do tipo de sociedade que se estabeleceu. A própria história humana chegou a esse momento e, na afirmação desse modelo de vida, tal divino permanece morto. Se, de um lado Deus é imutável; de outro, a relação que se estabelece com ele é dinâmica, puro devir e a única maneira de se experimentar o sagrado. Um Deus que só pode ser encontrado a partir da relação, e que perde o seu "lugar relacional" está fadado ao exílio. Os lugares reservados à experiência religiosa foram substituídos por outros, mais atraentes para aquele povo que, durante séculos, foi privado desse encontro.

A espiritualidade permaneceu, é claro, uma vez que faz parte da natureza humana, mas passou a ser encontrada em outras atividades que, de um modo ou de outro, supriam o vazio existencial deixado pelo "encontro com o divino". O mundo moderno, ao mesmo tempo que não permitia a interferência da religião instituída, também legava aos templos, mosteiros, catedrais e universidades a discussão teológica. Os ritos permaneceram como um legado cultural, mas foram esvaziados de sentido, uma vez que se tornaram penduricalhos para uma coesão social e, quando muito, eram incentivados nas datas especiais e nos festivais. O ser humano moderno busca o progresso, e nada pode deter o avanço da sua genialidade e poder.

O olhar nietzschiano da modernidade ressalta esse aspecto. Os seres humanos forjaram o punhal com o qual assassinaram Deus. Deixaram com que ele ?" e todo o seu aparato institucional ?" definhasse até padecer. Ele, nos moldes como era apresentado por seus asseclas, se tornou obsoleto, desnecessário: apodreceu. Uma nova luz apareceu para guiar a história. Nada impede o progresso obtido após a libertação das amarras religiosas e, neste sentido, o Deus da modernidade permanece na sepultura.

O que o filósofo decretou, porém, foi a morte de uma narrativa. Uma perspectiva obsoleta que, em pouco tempo, daria lugar a uma maior, mais poderosa e vistosa. O teocídio cometido abriu caminhos para o resgate da relação e para uma renovada e fervorosa devoção. Deus, que parecia inerte, ressurgiu como nos primórdios. Nietzsche acreditava que o cristianismo era uma religião da morte e da fraqueza. O que ele não esperava, porém, é que da morte surgisse a vida e que a fraqueza demonstrasse um novo caminho.


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*Daniel Couto é doutorando em Filosofia pela UFMG



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