Religião

17/07/2020 | domtotal.com

Para pensar um Deus digno de fé

Teologia tem como tarefa discernir de que "Deus" se fala nos distintos discursos sobre ele

A modernidade impõe desafios no pensar sobre Deus e sua relação com o humano
A modernidade impõe desafios no pensar sobre Deus e sua relação com o humano (Unsplash/ Visuals)

Felipe Magalhães Francisco*

"Deus" está aí, sustentando muitos imaginários e muitas visões de mundo. Discernir a respeito de qual "Deus" é o papel das teologias, que sustentam as religiões. Saber ler essas imagens de Deus que pululam o imaginário social pressupõe uma inteligência teológica, que seja capaz de apontar caminhos e aparar arestas, a fim de que a singularidade de cada religião não se esvaia. No caso do cristianismo, essa inteligência "para saber ler desde dentro" pressupõe profundo conhecimento da Tradição, bem como perspicácia para compreender o tempo presente. A teologia deve ser, certamente, hermenêutica.

Nossas sociedades estão em processos de rápidas transformações, desde a modernidade. Uma palavra tão própria do arcabouço cristão, mais que nunca, deve ser resgatada: discernimento. É preciso discernir, com sabedoria, essas transformações, a fim de que os caminhos teológicos e pastorais sejam pertinentes ao humano de nosso tempo. Para isso, fazer valer o espírito do Concílio Vaticano II, por exemplo, é caminho irrenunciável e mais que urgente. Apenas uma Igreja em postura de diálogo será capaz de bem cumprir sua missão de anúncio de um Deus verdadeiramente digno de fé.

Pensar Deus no tempo presente pressupõe, antes de tudo, uma abertura de escuta e discernimento. A teologia deve, pois, apresentar-se para o diálogo numa postura humilde, sobretudo quando movimentos dentro da Igreja vociferam, até mesmo com violência, respostas velhas a problemas e questões que já passaram ou que inexistem. A Igreja, que compreende a si mesma como mestra, precisa, agora, ser uma mestra na escuta atenta, na abertura responsiva, na palavra responsável, na proposição eficaz, na transformação efetiva. Só assim ela será capaz de dizer, de forma legítima e responsável, "que Deus".

Os que temos fé, continuamos a pensar que Deus é uma questão pertinente. Mas essa questão precisa, certamente, ser pensada com qualidade. E, pela fé cristã, acreditamos que aquilo que podemos dizer a respeito de Deus, parte do que ele próprio diz a nós, sobretudo por meio de seu Filho, Jesus. Para o cristianismo, pois, pensar e dizer "Deus", em nossos tempos, deve ser uma atitude que se funda e se fundamenta naquilo que Jesus Cristo nos diz a respeito daquele que o enviou. Esse é um esforço que demanda criatividade, de modo que essa palavra inaugural de Jesus possa se efetivar na semântica própria de nosso tempo, sem que se perca em ambiguidades.

No Dom Especial desta semana, pautamos essa questão, desde a problemática moderna da "morte de Deus" à palavra responsável que anuncia um Deus digno de fé para nossos tempos. No primeiro artigo, Teocídio: a morte de Deus, Daniel Couto reflete os processos de mudanças sociais que levaram o ocidente a se deparar com o anúncio da morte de Deus, cuja imagem acabou por se cristalizar. Fabiano Veliq, por sua vez, propõe, no artigo O retorno do sagrado na contemporaneidade: uma leitura possível, uma análise de como o sagrado despontou, após a declaração da morte daquele Deus, e quais traços de religiosidade ele reveste, em nosso tempo. Por fim, interpelando a teologia e uma pastoral apropriada para nosso tempo, temos o artigo Que Deus é digno de fé em nossos tempos?, de Rodrigo Ferreira da Costa, no qual reflete a partir da importante dimensão da espiritualidade, tão oportuna para nossa contemporaneidade.


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*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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