Esporte Futebol Nacional

19/07/2020 | domtotal.com

A incerteza enfrentada pelos jogadores de base durante a pandemia

Sem apoio dos clubes, sobram para familiares e empresários se preocuparem com a formação dos jovens nos meses de paralisação e da crise

Os times enfrentam crise financeira agravada pela pandemia do coronavírus
Os times enfrentam crise financeira agravada pela pandemia do coronavírus (Tevarak Phanduang / Unsplash)

Enquanto os campeonatos profissionais começam a ser retomados pelo Brasil, os torneios de base ainda estão longe de uma definição. A CBF informou que pretende realizar todas as competições inferiores, estendendo o calendário para 2021, assim como acontecerá com o Brasileirão. Clubes ouvidos pela reportagem, porém, não acreditam que seja possível a organização dos jogos por causa do investimento em testes para coronavírus e outras medidas contra a pandemia.

Sem atividades presenciais, os jovens jogadores recebem orientações via internet dos clubes para treinos. Alguns garotos relatam a ansiedade causada pela indefinição sobre o futuro da carreira e também com a suspensão de pagamentos dos times, que dizem estar respaldados pela lei e aguardam decisão das entidades responsáveis pela organização dos campeonatos e das sanitárias para marcar a data para retomar o trabalho na base. Neste momento, está tudo parado.

O atacante Valdenilson, do sub-20 do Palmeiras, aproveitou a paralisação para acompanhar o nascimento do filho, Brayan Miguel. Ele viajou ao Maranhão e, em 29 de junho, viu sua mulher Fabíola na mesa de parto. O jogador já retornou a São Paulo para ser avaliado nos treinamentos com o elenco principal do Palmeiras.

"Fiquei com bastante medo de um de nós pegar o vírus. Rezei, conversei com Deus para que não deixasse isso acontecer. Ela [Fabíola] precisou de mim nessa quarentena e fiz de tudo para cuidar dela. E foi algo recíproco porque também tive o apoio dela nessa paralisação do futebol. Pensava: ‘se a pandemia não passar, como vou mostrar meu futebol?’. Isso ficava na minha cabeça por muito tempo, mas tive total apoio dela", afirmou Valdenilson.

Também por causa da retomada das atividades comandadas pelo técnico Vanderlei Luxemburgo com o time, o lateral-esquerdo angolano Ramiro não conseguiu ficar ao lado dos familiares durante a pandemia. Ele preferiu permanecer no Brasil e divide quarto de hotel com outro companheiro estrangeiro, o equatoriano Erick Pluas. Sua família vive em região pobre na cidade de Luanda.

"É um ano praticamente sem jogos, né? Isso atrapalha um pouco no desenvolvimento de qualquer atleta. A comissão técnica tem dado o melhor a nós em relação aos treinos, mas não temos a oportunidade de trabalhar conceitos técnicos e táticos na prática, já que não estamos reunidos nem no campo. Eu ainda tenho mais um ano no elenco sub-20 e estou otimista quanto ao retorno dos treinos presenciais e jogos da base ainda neste ano", disse Ramiro.

Apoio psicológico

Não é apenas a parte física ou técnica que preocupa os clubes do Brasil em relação aos jovens da base. Os times estão atentos ao aspecto psicológico dos atletas neste momento de incerteza. Muitos oferecem apoio a distância.

Ex-técnico das categorias de base da seleção brasileira e atualmente no comando do sub-20 do Bahia, Carlos Amadeu destacou a importância dos jogadores receberem apoio psicológico por causa da Covid-19 e da parada. Na visão dele, os mais afetados são os atletas que estão perto de estourar o limite de idade da base.

"É um momento diferente, que exige muito cuidado e aprendizado. É natural que os atletas que estão no último ano sintam uma pressão psicológica maior. Criam-se dúvidas, incertezas e medos. Portanto, esse peso psicológico é inevitável. É por isso que os profissionais que trabalham com esses jovens devem ficar atentos. Aqui no Bahia nós procuramos saber as condições de cada um. Qualquer observação a mais nós passamos para o setor de psicologia do clube", afirmou.

Falta de assistência

Empresários que cuidam da carreira de jogadores das categorias de base ouvidos pela reportagem alegaram que muitos clubes não deram a assistência necessária para os garotos durante o período de paralisação de treinos e jogos, que ainda não acabou. Os times enfrentam crise financeira agravada pela pandemia do coronavírus. Os relatos vão de times do interior dos estados até os que compõem a elite nacional.

Os agentes preferiram não ser identificados nesta reportagem, por temerem represálias aos clientes. O discurso deles foi semelhante: sem apoio dos clubes, sobram para familiares e empresários se preocuparem com a formação dos jovens nos meses de paralisação e da crise.

Jogadores que ainda não têm contrato profissional recebem ajuda de custo. Em muitos casos, esse auxílio financeiro foi deixado de pagar, principalmente em outras modalidades, como futsal, basquete e vôlei.

"O clube para de pagar e o jogador vai fazer o quê? Não tem o que fazer nesses casos. Os principais destaques continuam recebendo, mas os atletas que ainda não estouraram pararam de receber", disse um empresário.

Além dos jogadores, demais funcionários da base também têm sido afetados. Os clubes, amparados na Medida Provisória (MP) 936/20, suspenderam contratos e reduziram salários. As categorias inferiores foram as mais atingidas pelos cortes.

Até mesmo o Flamengo, clube que mais arrecadou no último ano, demitiu funcionários, começando pelas categorias de base. Durante a pandemia, profissionais que cuidavam dos alojamentos dos jogadores da base ficaram sem função. Treinadores, auxiliares e outros funcionários das comissões técnicas das divisões inferiores também foram cortados.



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