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21/07/2020 | domtotal.com

Jornalismo?

O discurso único não serve e não é compatível a uma democracia

Nenhuma ideologia dá conta da realidade
Nenhuma ideologia dá conta da realidade (Unsplash/ Jeremy Bishop)

Jose Antonio de Sousa Neto*

E aí o editor de opinião do New York Times pediu demissão argumentando que não suportava mais o bullying de um patrulhamento ideológico incessante de orientação dita "progressista", em que tudo e todos que não se alinham representam o mal. Na semana passada assisti a uma live com os jornalistas Alexandre Garcia, Luís Lacombe e Caio Coppolla e um depoimento do primeiro me chamou a atenção. 

Ele conta que foi convidado em meados dos anos 1990 para falar para a turma de jornalismo do último semestre na UnB. Na ocasião ele disse que um aluno o indagou sobre quais eram os pilares do jornalismo e ele respondeu, segundo as suas próprias palavras "botando para fora o que aprendeu no Jornal do Brasil", dizendo que eram a veracidade, a clareza, a objetividade, a simplicidade, a isenção e a neutralidade. Ao mencionar estas duas últimas o professor coordenador, segundo ele, furioso, o interrompeu dizendo: "Eu não ensino os meus alunos a serem isentos e neutros, eu ensino os meus alunos a serem militantes ideológicos para combater o status quo opressor". 

O contexto foi uma tentativa de explicar o perfil e a linha editorial de muitos profissionais que estão hoje dirigindo redações de muitos jornais. Veja o leitor que isto não é coisa recente. Este fato específico ocorreu há 25 anos e algumas evidências fortes me fazem crer que, de lá pra cá, isso só se fortaleceu.

É claro que as ideologias, que são visões da vida tornadas "verdadeiras" e absolutas, não explicam sozinhas o que está acontecendo com os meios de comunicação tradicionais, embora estas estejam contribuindo de forma determinante para a aniquilação (ou talvez, de forma mais apropriada, auto aniquilação) de alguns destes meios tradicionais tais como os conhecemos hoje. 

O impulso que este processo está dando às mídias sociais é muito grande. Só em canais do YouTube, por exemplo, os três jornalistas citados acima têm em conjunto milhões de seguidores, embora muitos destes seguidores provavelmente se sobreponham. Um número importante de multiplicadores de conteúdos destes jornalistas, mas que não são seguidores, também não pode ser subestimado. E isso só poderá ser detido por imposição de censura e restrição de liberdades básicas. Aliás, isto sempre é característica básica de regimes totalitários, independente do vetor ideológico que os sustentou ou ainda sustenta. 

Também, como começamos a argumentar acima, é até mesmo ingênuo não dar a devida atenção aos insaciáveis interesses econômicos e a algo, às vezes até mais sútil, mas igualmente poderoso: interesses geopolíticos em escala global e com forças tectônicas. Como um exemplo bastam duas palavras que são suficientes para o leitor atento conectar vários pontos desta figura geométrica (existem certamente muitas outras): Segurança alimentar.

Exatamente por isso, em combinações de pesos diversos destes elementos, que retornamos ao início deste texto e ao jornal americano. O que está acontecendo com o jornalismo (ou a ausência dele), em escalas diferentes, mas com padrões que parecem consolidar notáveis semelhanças, não é um fenômeno localizado. E isso se potencializa por notórias articulações, pouco percebidas pelos leitores menos atentos, entre, por exemplo, jornais de diferentes países com interesses e direcionamentos editoriais comuns na tentativa de consolidar ativismos políticos que se distanciam abissalmente dos pilares do jornalismo. 

O ativismo é legítimo, desde que feito de forma honesta e transparente. Organizações de comunicação podem definir como objetivos centrais de suas linhas editoriais a propaganda e interesses políticos e/ou interesses econômicos, mas isto, evidentemente, não é jornalismo. É outra coisa. E os atores são influenciadores, mas não jornalistas. Não há nenhuma diferença aqui entre as mídias tradicionais e as mídias sociais. 

O problema é que, em muitos casos, embora isso pareça estar mudando rápido, confundir jornalismo com outras coisas ainda causa danos profundos à sociedade. A tragédia da Covid-19 tem sido reportada, no mundo inteiro, com conotações muito além de fatos ou mesmo a isenção científica necessária para atenuar o infortúnio de tantos. De fato, há uma possibilidade real de que o futuro poderá demonstrar que inúmeros meios de comunicação foram na verdade corresponsáveis pelo agravamento da tragédia.

Mas se tantos desvios éticos derivados de ideologias e/ou interesses ocorrem, na maior parte das vezes os dois, como alguns jornais ainda conseguem algum impacto? Para isso não é necessário credibilidade? Existe uma técnica básica que sempre funcionou razoavelmente bem, mas que está em risco de perder sua efetividade em função de radicalizações que, inevitavelmente, levam à perda do ponto ótimo. Ela é muito parecida com as técnicas de neurolinguística que muitos políticos usam e sobre as quais já comentei aqui em textos anteriores. 

Em meio a artigos com notícias manipuladas e/ou publicações panfletárias esses jornais buscam cuidadosamente introduzir reportagens e articulistas que atendam aos pilares de jornalismo que já mencionamos. Assim, o veículo parece ser sério e isento. Como também já comentei em textos anteriores, e que aqui resgato em um contexto quase metafórico, as meias verdades muitas vezes são mais perigosas e danosas que as mentiras abertas. Mas cortinas de fumaça estão cada vez menos eficientes em uma guerra em que novas "tecnologias de radar" estão cada vez mais eficazes.

Enquanto isso sites como o Só notícia boa vão pouco a pouco ganhando corpo e vamos vendo "um monte" de gente falando cada vez mais que não assiste mais aos jornais. Menos ainda os leem! Não são poucos também que tenho ouvido dizer que não aguentam mais assistir televisão. Claro que pelo menos no contexto brasileiro uma parte bem grande da população ainda segue pelo menos as TVs. A televisão não vai deixar de existir assim como o rádio não deixou de existir quando a televisão chegou. Mas as coisas estão mudando. 

Fico me perguntando até onde e até quando o "não jornalismo" vai continuar tendo algum impacto através dos tradicionais meios de comunicação tais quais eles existem hoje. Não sei se é wishiful thinking mas torço para que as inevitáveis mudanças se acelerem. Às vezes chego a ter a impressão que proporcionalmente ao número de atores participantes ou, em outras palavras, em números relativos, a quantidade de fake news nas mídias tradicionais chega a ser igual à das chamadas mídias sociais. Às vezes até maior em termos de repercussão e danos à sociedade, pelo menos no curto prazo. Não precisa de muita sabedoria para compreender que radicalismos em qualquer direção do espectro político nunca terminam bem. O discurso único não serve e não é compatível a uma democracia. Nenhuma ideologia dá conta da realidade.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)



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