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21/07/2020 | domtotal.com

Perry Mason de araque

HBO reinventa demais um personagem clássico

Shea Whigham e Matthew Rhys na primeira temporada de Perry Mason
Shea Whigham e Matthew Rhys na primeira temporada de Perry Mason (Divulgação/ Copyright HBO)

Alexis Parrot*

A história da televisão é tão rica e diversa que não é de se admirar a quantidade de subprodutos gerados a partir dela mesma. Séries de sucesso são renovadas temporada após temporada e, quando se deseja esticar o faturamento, podem ganhar spin-offs, sequências e prequels.

Provavelmente, a franquia que mais explorou a própria matriz tenha sido Star trek. O programa original estabeleceu um universo tão poderoso que a criação de Gene Roddenberry já se multiplicou em mais seis séries autônomas, um seriado em animação e treze filmes. No momento em que estas linhas estão sendo escritas, mais duas séries encontram-se em desenvolvimento, movimentando personagens saídos de Discovery; o Star trek da vez, cuja terceira temporada está a caminho.

A verdade é que a reciclagem sempre foi uma das bases da TV. Filmes de grande bilheteria e best-sellers transformam-se em séries; personagens coadjuvantes ganham suas próprias séries; séries que já terminaram voltam ao ar (ou no streaming) em revivals. E, para driblar até a máxima de que tudo uma hora virará pó, criou-se o reboot – esta instância miraculosa capaz de recomeçar tudo novamente do zero.

Este é o caso de Perry Mason, minissérie doida para virar série da HBO que resgata um dos maiores ícones da cultura pop norte-americana e paradigma da teledramaturgia que movimenta advogados, promotores, tribunais e julgamentos. Ally McBeal, Law and order e The good wife, entre tantos outros são filhos diretos de Mr. Mason.   

Talvez inspirados pelo êxito de Better call Saul ou pelo forte apelo do ponto de partida da própria Star trek: Discovery e seu slogan de trabalho ("Enterprise antes de Kirk e Spock"), os criadores da série decidiram ir atrás de um Perry Mason antes de Perry Mason e determinar suas raízes. Situaram a narrativa em 1931, dois anos antes da publicação do primeiro livro com as aventuras do advogado. (Até a morte de seu prolífico autor, Erle Stanley Gardner, outros oitenta livros seriam produzidos, todos com recordes de vendas.)  

Data venia, o que nos apresentam é um exercício de imaginação admirável, muito embora facilitado pela completa falta de referências sobre o passado do intrépido homem da lei; uma lacuna cujo preenchimento nunca foi do interesse da série original ou dos livros de Gardner.

Tabula rasa em mãos, infelizmente, partiu-se para o óbvio. O Mason antes de Mason não é Mason; é alguém que, após peripécias marcantes e indefectível redenção finalmente se tornará o paladino da justiça velho de guerra como o conhecemos. Trata-se da fórmula batida do "from zero to hero" levada às últimas consequências da inverossimilhança.

É simplesmente impossível acreditar que o detetive particular amarfanhado com direito a traumas de guerra e formação campesina; justo e arguto, porém, cínico e desiludido; venha a se tornar "o" Perry Mason imortalizado elegante e sofisticadamente pelo ator Raymond Burr. São dois bons personagens, mas não são o mesmo. É como querer transformar Lucia Berlin em Clarice Lispector ou Bukowski em Oscar Wilde.

A despeito desta questão de fundo, é um noir (assumidamente inspirado no Chinatown de Polanski) cheio de interpretações memoráveis de um elenco estrelado (John Lithgow, Lily Taylor, Shea Whigham e Stephen Root), ambientado em uma Los Angeles de época com direção de arte impecável e com diálogos afiados e frases de efeito à altura de um Sam Spade.

Em uma cena no quinto episódio, somos brindados com pérolas como: "há o que é legal e o que é certo"; "Sei que você vem de uma família rica por causa do seu jeito de sentar" e, quando acusado pela colega Della (Juliet Rylance, de The knick) de nunca aceitar a ajuda de ninguém, Mason responde: "Bom, estou deixando você me ajudar a terminar esta garrafa".

Ajuda bastante também a presença de Matthew Rhys vivendo o anti-herói, sempre verdadeiro, como era em The americans, ou em qualquer coisa que venha a fazer. Inicialmente, seria interpretado por Robert Downey Jr., que se afastou do papel devido a compromissos assumidos com uma certa armadura pintada em amarelo e vermelho. Apesar disso, seguiu no projeto como produtor executivo, tamanho seu amor pelo personagem.

A trama ganharia se mais focada em Mason e seu entorno. O caso do sequestro de um bebê que envolve policiais corruptos, uma trilha de corpos assassinados em seu rastro, os interesses políticos do promotor público, a líder histérica de uma seita evangélica e, em menor grau, a segregação racial, tudo isso compete para desviar desnecessariamente os holofotes do real protagonista.

A pretensão de construir um painel tão amplo da depressão pós quebra da bolsa de Nova York rescende a Na época do ragtime. No filme de 1981, Milos Forman parte do livro de E. L. Doctorow para costurar um mosaico ambientado no início do século 20 sobre a desigualdade, preconceito e violência que regem ainda hoje as dinâmicas sociais dos EUA. O que lá foi executado magistralmente, aqui acaba não funcionando tão bem – tudo soa superlativo e desnecessário.

O bom filme noir (e, por consequência, séries e minisséries que sigam o gênero) é feito a partir do detalhe, e não do exagero.    

(PERRY MASON – minissérie em oito capítulos em cartaz na HBO)

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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