Religião

24/07/2020 | domtotal.com

Catequese como inserção na comunidade dos batizados

A comunidade gera, no batismo, filhos e filhas e os alimenta por meio da fração do pão, da vida fraterna e da caridade

A fé cristã tem como eixo central, o seguimento a Jesus na comunidade dos batizados
A fé cristã tem como eixo central, o seguimento a Jesus na comunidade dos batizados (Lino Mirgeler/DPA/AFP)

Francisco Thallys Rodrigues*

Desde os inícios do cristianismo houve um processo de preparação para a inserção nas comunidades cristãs. Ao longo dos séculos, esta preparação passou por muitas mudanças em sua estrutura e organização, a partir das necessidades de cada tempo e lugar. Desde a virada antropocêntrica, iniciada na modernidade e radicalizada na subjetividade da modernidade líquida, a catequese é desafiada a romper o casulo do individualismo, para renascer como catequese que insere a pessoa no seguimento a Jesus, na comunidade dos batizados.

As primeiras comunidades cristãs estavam organizadas em torno da memória de Jesus e da fração do pão, os bens eram partilhados segundo as necessidades de cada um (At 2, 42-47). O crescimento e a expansão das comunidades trouxeram a necessidade de uma preparação para o ingresso pleno. Era necessário conhecer quem era Jesus e as exigências do ser cristão. Este processo ficou conhecido como catecumenato. Após um tempo de preparação, os catecúmenos eram acolhidos na comunidade, podendo participar, integralmente, da fração do pão (Eucaristia), bem como nas demais atividades. Neste percurso, os catecúmenos despojavam-se do homem velho para uma vida nova. No batismo se "passava dos ídolos ao Deus vivo e verdadeiro" (TABORDA).

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Ora, o anúncio da fé cristã, sua preparação e vivência, aconteciam dentro de uma comunidade concreta de pessoas que se entendiam como irmãos e irmãs, filhos de Deus, a partir do batismo. Era impensável cristãos sem comunidades, que vivessem isolados. Neste sentido, pôde-se dizer que a fé cristã é necessariamente eclesial, isto é, nasce a partir da comunidade dos batizados que professam a fé em Jesus Cristo ressuscitado, que revelou o Pai e nos enviou o Espírito. A comunidade gera, no batismo, filhos e filhas e os alimenta por meio da fração do pão, da vida fraterna e da caridade. 

Quando se toma os textos que compõem o Novo Testamento, nota-se a presença viva de diferentes comunidades, nas suas alegrias e tristezas, como seguidoras de Jesus. Os Evangelhos evidenciam as crises e os desafios enfrentados, enquanto que as Cartas de Paulo, são dirigidas as comunidades, que receberam o anúncio da fé e que passam por dificuldades. Portanto, desde uma perspectiva bíblica, não se pode pensar em cristãos avulsos, desligados de comunidades concretas.

No decorrer dos séculos, este processo de preparação passou por diversas mudanças. Por muito tempo, a catequese foi compreendida como preparação exclusiva para os sacramentos, estando ancorada em catecismos, que ensinavam "fórmulas e doutrinas", sem uma clara contextualização desta vivencia da fé. Entretanto, mesmo neste tempo, a catequese acontecia no seio da comunidade, a partir de pessoas designadas para esta missão.

Nos últimos tempos, tem ocorrido muitos esforços, para uma preparação da catequese que brote desde a comunidade de fé e que conduza ao seguimento a Jesus. A catequese de inspiração catecumenal, é uma tentativa de resposta ao tempo presente, a partir das intuições fundamentais da Tradição da Igreja, sobretudo, a partir do Concílio Vaticano II. O êxito desta proposta, depende de um trabalho conjunto, que conjugue diferentes instâncias: famílias, animadores, membros da comunidade1 e, principalmente, o protagonismo do catecúmeno em vista de gerar um verdadeiro discipulado, a partir da experiência concreta com uma pessoa, Jesus Cristo, morto e ressuscitado (Kerigma).  Todos devem sentir-se corresponsáveis pela formação dos novos membros.

Não se pode ceder à tentação da individualização da fé cristã que reduz o Reinado de Deus, anunciado por Jesus, a um sentimento, doutrina ou filosofia, que pode ser vivido de modo individualista. Cada vez mais, a fé cristã tem sido apresentada, desprovida de seu caráter comunitário, do seu compromisso com a vida em todas as suas expressões. Jesus é apresentado como um fazedor de milagres, que resolve todos os problemas, mas que não gera compromisso com o Reinado de Deus. A partir dos dados dos Evangelhos e das primeiras comunidades cristãs, fica evidente que esta é uma grave distorção. A fé cristã tem como eixo central, o seguimento a Jesus na comunidade dos batizados.

É preciso passar de uma catequese que ensina doutrinas e fórmulas, a uma catequese que leve ao encontro com Jesus Cristo. A catequese deve levar a inserção no mistério de Cristo dentro da comunidade, para que se experimente os mesmos sentimentos que perpassaram Jesus (Fl 2,5). Precisamos de uma catequese que prepare para a vivência do Evangelho, que não seja puramente sacramental. Nas palavras do papa Francisco: "A iniciação cristã exige que nas nossas comunidades se realize sempre mais um itinerário catequético que ajude a experimentar o encontro com o Senhor, o crescimento no seu conhecimento e o amor pelo seu seguimento".

O encontro de Jesus com a Samaritana (Jo 4,5-42) ilustra o processo mistagógico que deve perpassar a catequese. Neste encontro, Jesus estabelece uma relação com a samaritana, rompendo todas as barreiras religiosas e étnicas, na qual apresenta a água viva que sacia todas as sedes humanas. Este encontro com Jesus, leva a samaritana a deixar o cântaro, para anunciar aos seus, que encontrou o sentido para a vida. Queira Deus que nossa catequese seja, cada vez mais, mistagógica, levando ao encontro com Jesus e com os irmãos.

[1] E principalmente o protagonismo do catecumeno em vista de gerir um verdadeiro DISCIPULADO, a partir da experiência concreta com uma pessoa, Jesus Cristo, morto e ressuscitado (Kerigma)


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*Presbítero da Diocese de Crateús. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (Faje) e licenciado em História (Unopar). Trabalha na Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Tauá?"CE e no Colégio Antônio Araripe, como professor de história, no Ensino Médio.



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