Religião

24/07/2020 | domtotal.com

A customização da fé e a relação egoística com o sagrado

Teologia da retribuição e seus desdobramentos é uma forma de perpetuar a prática idolátrica onde se relativiza o absoluto e se absolutiza o relativo

Templo de Salomão em São Paulo é exemplo de religiosidade de base deuteronomista
Templo de Salomão em São Paulo é exemplo de religiosidade de base deuteronomista (Adriana Spaca/Brazil Photo Press/AFP)

Anderson Dias Gonçalves*

O contexto pandêmico tem trazido à tona questões que tocam diretamente a perspectiva de relação do humano com a transcendência e, consequentemente, influenciado a maneira de buscar sentido neste tempo marcante de nossa história. Como se tivéssemos passando por um novo exílio babilônico (experiência marcante para a formação da identidade judaica), agora, as práticas religiosas tendem a oferecer respostas embasadas em práticas obsoletas e, por muitas vezes, reducionistas na perspectiva de uma espiritualidade intimista e mágica.

Refletir sobre o limite da intervenção divina na história humana nos leva a questionar acerca das práticas religiosas que se colocam a serviço da espiritualidade. O cristianismo, como proposta religiosa, também encontra seus limites diante do contexto sociocultural pós-moderno que há muito tem influenciado na forma de seus adeptos se relacionarem com o Deus em que creem. O contexto pandêmico parece potencializar a constatação de que o racionalismo surgido na modernidade não conseguiu oferecer as respostas que julgava ser capaz e parece fazer-nos buscar práticas antigas para conseguir alcançar o sentido para questões que se tornam tão latentes: Deus é insensível ao sofrimento que assola sua criação? Estamos rezando errado? O mal é permitido/criado/originado em Deus?

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O caráter mágico e intimista parece preponderar no cristianismo da atualidade, fazendo ecoar a teologia da retribuição característica do Primeiro Testamento. A obra historiográfica deuteronomista, como forma interpretativa da experiência de fé de Israel na sua relação com o Deus único, reforçou na prática judaica e, consequentemente na cristã, deu margens à perspectiva da barganha e do merecimento que ainda excluem tantos da possibilidade de espiritualidade. As influências das religiões cananeias e do contexto sociocultural, advindo das diversas dominações imperiais na formação histórica do povo de Israel, parece ser o fio da meada dessa teologia que prioriza a servidão voluntária em detrimento a um aspecto relacional inaugurado por Jesus em sua novidade evangélica.

Diante dessas questões percebemos a tendência de surgir uma religiosidade que busque reduzir a dissonância cognitiva gerada pelo caos em que vivemos e a perspectiva de customizar a fé para justificar a crença numa espiritualidade mistificada, fetichista e infantilizada. Se o caos atual toca de forma voraz as necessidades mais básicas de todos os indivíduos, tal incômodo parecia não existir anteriormente quando ainda conseguíamos viver sem tantas restrições impostas pela atual realidade. Com facilidade esqueceu-se da universalidade da salvação e da manifestação teofânica de um Deus que fez de sua existência uma síntese da mensagem que nos leva a experimentá-lo no encontro com o irmão. Nossas orações atuais têm sido marcadas pela crença de sermos aqueles que direcionam o agir divino como prática desesperada de fazer de Deus um meio da validação de um pseudopoder humano-divino. Parece que não aprendemos ainda que a teologia da retribuição e seus desdobramentos é uma forma de perpetuar a prática idolátrica onde se relativiza o absoluto e se absolutiza o relativo. A serpente continua falando "E sereis como deuses" e continuamos comendo o fruto da autossatisfação num contexto de fé individualista e egoisticamente desumanizador.

A errônea ideia de que somos criaturas capazes de apropriar-nos do futuro mediante práticas que possam alterar o destino traçado por um Deus aberto a barganhas, tem feito com que pensemos o quanto a mensagem evangélica ainda se encontra distante da perspectiva da teologia da graça presente na mensagem evangélica de Jesus. Uma religiosidade onde o sofrimento precisa ser evitado a qualquer custo parece ter tomado conta das muitas fórmulas de oração na nossa atualidade, negando inclusive o aspecto pedagógico inerente à condição criatural apresentada desde as obras sapienciais e culminada na ressignificação que a mensagem da cruz nos apresenta. O medo da morte, tão pulsante atualmente, ativa as zonas biopsíquicas e nos faz exprimir comportamentos instintivos e de autopreservação levando-nos a soluções imediatistas e fragilmente simplórias para nossos anseios espirituais.

Resta-nos, portanto, redescobrir o caminho de uma espiritualidade veridicamente evangélica que nos coloque numa relação com a transcendência e contemple tanto a perspectiva da justiça e da misericórdia quanto a universalidade da salvação. Na mitologia de Gênesis aprendemos que o mal é uma consequência da liberdade humana e nos coloca na dimensão de buscar romper com o processo de desumanização que culmina no fratricídio de Abel por Caim. Em Jó percebemos a possibilidade de ressignificar o sofrimento e entender que este é característico da fragilidade humana, desvinculando-o com a noção punitiva advinda de um deus insensível à sua criação. Jesus, o novo Jó, contrapondo todas as expectativas messiânicas de sua época, nos apresenta a tônica do amor-doação e dá novo sentido ao sofrimento para fazer-nos todos irmãos em sua entrega incondicional. O sofrimento de hoje servirá para assumirmos nossa humanidade e redescobrirmos nossa espiritualidade autêntica na relação com um Deus que se revela como Amor e Misericórdia, incansável em resgatar-nos de nosso profundo egoísmo e gerar em nós a abertura relacional incondicional para com nosso próximo.


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*Anderson Dias Gonçalves é psicólogo, pela Universidade Federal de Uberlândia. Especialista em Gestão Empresarial, pela FAGEN. Especialista em Gestão de Talentos Humanos e Coaching Executivo, pela FASES/ITC. Atualmente é discente de Teologia, pela PUC-MG, campus Uberlândia.



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