Religião

24/07/2020 | domtotal.com

Mulheres contra a Igreja patriarcal

Grupo de sete mulheres se candidatam para cargos de episcopisas, presbíteras, diaconisas e até núncias

Grupo de sete mulheres se candidatam para cargos de episcopisas, presbíteras, diaconisas e até núncias
Grupo de sete mulheres se candidatam para cargos de episcopisas, presbíteras, diaconisas e até núncias

Jesus Bastant
Religion Digital

Foi um gesto sem precedentes e mais uma prova de que, na Igreja Católica, as mulheres ainda não encontram as portas abertas. Ao meio-dia, sete teólogas entregaram suas candidaturas a vários ministérios da Igreja francesa, na sede da Nunciatura na França, mas tiveram o silêncio como resposta. Elas não foram recebidas pelo núncio, Celestino Migliore, e tiveram que se agachar para depositar seus documentos em uma caixa de correio ao nível do solo.

O dia escolhido para fazer isso foi simbólico, em 22 de julho, festa de Santa Maria Madalena, a apóstola por excelência. Quem, segundo os relatos do Evangelho, foi a primeira a ver Jesus ressuscitado. Dois mil anos depois, as mulheres ainda não ocupam nenhum cargo de responsabilidade na Igreja Católica, um dos estratos sociais mais patriarcais criados pelo ser humano.

Sete mulheres se rebelaram contra isso. Laurence de Bourbon-Parme, Claire Conan-Vrinat, Sylvaine Landrivon, Hélène Pichon, Loan Rocher, Marie-Automne Thépot e a espanhola Christina Moreira solicitaram converter-se em episcopisas, sacerdotisas, diaconisas e até núncias. Fizeram-no afirmando seus currículos e capacidades e, ao mesmo tempo, denunciando a ausência de mulheres em cargos de responsabilidade", como apontaram após terem deixado suas candidaturas na caixa de correio da Nunciatura Francesa.

"A ausência de mulheres em posições de responsabilidade é um escândalo", disseram as sete mulheres em uma declaração na qual explicaram sua iniciativa como um "ato de desobediência ao dogma eclesial e à Igreja patriarcal". Todos elas seguiram o exemplo da teóloga e estudiosa bíblica Anne Soupa, que em maio postulou oficialmente a possibilidade de substituir o cardeal Barbarin, que teve de deixar a diocese de Lyon depois de um escândalo de abuso sexual.

"Somos invisíveis. E isso é um escândalo"

"As mulheres são invisíveis na Igreja Católica (...) Isso não é possível em uma época de paridade, não pode continuar assim", disse Soupa, que agradeceu o passo dado por essas sete mulheres. Cada uma das candidatas entregou à nunciatura um documento no qual expunham sua profissão de fé, a função para a qual se candidatavam e o tipo de serviço que são capazes de assumir.

No manifesto anexado ao pedido, as sete denunciaram como "a ausência de mulheres em postos de responsabilidade não é tanto um escândalo quanto é um contratestemunho da Igreja. Essa imensa injustiça não é um problema menor, mas afeta todo o corpo eclesial".

"A discriminação contra as mulheres na Igreja é uma das mais visíveis e violentas. Para que a Igreja possa cumprir sua missão, deve permitir que as mulheres tenham acesso aos vários ministérios ordenados, bem como às altas responsabilidades da instituição", consta na declaração. O texto insiste que não se trata apenas de ascender ao sacerdócio, mas de "questionar a atual estrutura de governo da Igreja". Em sua opinião, os obstáculos para as mulheres serem cardeais, episcopisas, núncias ou sacerdotisas "não são teológicos ou espirituais, mas políticos e culturais".


Quem são?

Uma delas, Hélene Pichon, postulou-se ao cargo de representante do papa. "Nossa reivindicação está totalmente de acordo com o Evangelho de Jesus. Ela citou a primeira mulher, Maria Madalena, como 'a apóstola dos apóstolos'", disse à mídia. Pichon, coronel da Reserva, tem uma longa carreira diplomática na França e na Suíça, que a levou ao Líbano, a Genebra, a Core, a Bahrein, à Unesco, ao OCDE, ao Banco Mundial e à Comissão Europeia. "Como crente me pergunto, por que também não posso realizar meu trabalho para a Igreja?", aponta.

A única espanhola do grupo é Christina Moreira, que reivindica exercer o ministério presbiteral em liberdade... porque já o exerce na Galícia, pois foi ordenada presbítera. "Faço parte da Associação Internacional de Presbíteras Católicas da ARCWP, cujo objetivo é ordenar diaconisas, presbíteras e espiscopisas católicas dentro do rito e da tradição romana. Isso envolve uma tarefa prática e teológica de renovar os ministérios e a eclesiologia. Adiantamos evoluções que nossa amada, porém velha e lenta Igreja pode um dia vir a fazer, mas que nós sentimos ser urgentes", declara.

De sua parte, Laurence de Bourbon-Parme quer ter permissão para pregar. Esta mulher, divorciada, mãe de três filhos e avó de quatro crianças, atua como terapeuta de almas há mais de duas décadas. Ela apontou que gostaria de "oferecer meus dons de pregação a quem quiser recebê-los".

Como Anne Soupa, Sylvaine Landrivon também se candidata a episcopisa. Nascida em 1956, "sou casada, sou mãe e avó" e especialista em teologia em Lyon. Autora de vários livros, nos quais se dedica ao estudo do papel das mulheres nas Escrituras e na Igreja, "hoje estou dando um passo adiante, e por isso estou me oferecendo ao cargo episcopal na Igreja Católica".

Uma possibilidade que hoje proíbe categoricamente a hierarquia eclesiástica. Masculina nos quatro cantos. Embora Jesus tenha chamado Maria Madalena e outras discípulas da mesma forma que chamou Pedro, João ou Tiago.

Publicado originalmente em Religion Digital


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Religion Digital

Traduzido por Ramón Lara



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