Religião

24/07/2020 | domtotal.com

A fé em tempos de individualismo e subjetivismo

A contemporaneidade impactou na maneira dos cristãos viverem sua fé

O fenômeno religioso não desapareceu na contemporaneidade, mas se transformou
O fenômeno religioso não desapareceu na contemporaneidade, mas se transformou (Unsplash/ Kyle Johnson)

Felipe Magalhães Francisco*

A modernidade, realmente, significou uma guinada no modo de compreender a realidade e, de modo especial, o ser humano. A individualidade e a subjetividade humanas passaram a ser temas fundamentais para nos compreender, bem como as nossas relações. Outro conceito importante é o de autonomia. Este último nos ajuda a entender os processos que levaram a sociedade ocidental, entre outras coisas e motivos, a entrar no processo de secularização, quando as instituições passaram a não ter tanto poder de decisão na vida dos indivíduos. No caso das instituições religiosas, isso se fez notar com bastante força. O ateísmo, também, passou a ser um elemento não desconsiderável desses processos.

O fenômeno religioso, contudo, não desapareceu. Mas se transformou. As instituições religiosas continuaram com sua importância de oferecer serviços, e os sujeitos religiosos buscando, com criatividade e autonomia, suas próprias experiências, não mais tuteladas pelas religiões. O cristianismo, por sua vez, demorou a ler esse movimento antropocêntrico, com a devida inteligência e sagacidade e o processo de educação da fé, que chamamos "catequese", não acompanhou a mudança dos tempos. Não apenas a catequese, mas também outras dimensões da eclesialidade não se adaptaram ao espírito dos homens e mulheres modernos. O catolicismo, por isso e por outras questões, começou a declinar, no número de fiéis.

No contexto dos países em desenvolvimento, o processo de secularização se deu de maneira diversa da dos países do hemisfério norte. A autonomia religiosa se mostrou com bastante força por meio de práticas populares de religiosidade, com fortes e marcantes traços de sincretismo. A questão catequética, como um problema, também era e é efetiva por aqui.

A sociedade continuou a se transformar e estamos a passar por um processo de alterações socioculturais que ainda não sabemos ler bem, por estarmos em meio a esse fluxo de mudanças rápidas. Alguns elementos, contudo, são bem perceptíveis e marcantes. Aqui, ressaltamos dois: o individualismo e o subjetivismo, como extrapolações de valores modernos e necessários para um sistema econômico capitalista. Esses são dois limites que influenciam o modo como as pessoas vivenciam a fé.

No Dom Especial da semana trabalhamos a perspectiva da fé – e da religiosidade – no contexto de uma contemporaneidade marcada pelo individualismo e pelo subjetivismo. No primeiro artigo, A customização da fé e a relação egoística com o sagrado, Anderson Gonçalves Dias reflete sobre o processo de subjetivação da fé, de modo exacerbado, e os riscos que isso traz para a espiritualidade. Antônio Ronaldo Nogueira, no artigo A fé e a crise de pertença, faz uma leitura da Revelação, que nos inspira a uma fé comunitária, bem como do atual cenário de crescimento da não-pertença. Conclui a reflexão, o artigo de Francisco Thallys Rodrigues, Catequese como inserção na comunidade de batizados, em que trabalha a dimensão da educação da fé, como caminho urgente para se romper com o individualismo e o subjetivismo de não-pertença no cristianismo.

 Boa leitura!


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*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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