Brasil

27/07/2020 | domtotal.com

Talvez fosse um tempo

Vivemos um tempo de tanto 'talvez', que seja também o de dar tempo ao tempo

Talvez fosse um tempo de curar o fígado com chá de boldo
Talvez fosse um tempo de curar o fígado com chá de boldo (Unsplash/Carolyn V)

Ricardo Soares*

Talvez fosse um tempo, agora, de se fazer amor e não a guerra. Mas os solteiros não estão podendo fazer amor pois amor virou risco de vida. Que ironia. O ato que gera a vida ser um risco de vida. Talvez fosse um tempo, agora, de desarmar cascos e bagagens, deletar palavras chulas e ásperas, tentar aplainar diferenças há tempos perdidas nos calendários dos rancores.

Talvez fosse um tempo, agora, de plantar hortelã em vasos e girassóis em hortas. Pois o girassol tem a cor do seu vestido. E o sol a cor do seu cabelo. O meu pensamento voa em tantas canções misturadas que não tenho a menor competência de enumerar a minha parada de sucessos.

Talvez fosse um tempo, agora, para recolher armas, amenizar o vocabulário, não abraçar tanto rancor. Ou talvez fosse um tempo de curar o fígado com chá de boldo, não misturar cachaça com vinho tinto, moderar no torresmo, lavar sem má vontade toda a louça da pia, acender uma vela  cheirosa em intenção aos nossos mortos e aos nossos caminhos tortos.

Talvez fosse um tempo sem tantas dores nas despedidas. No cais, na plataforma das estações de trens, nos portões de embarque dos aeroportos. Mas choramos demais com as despedidas. As mais sentidas são as definitivas. As desoladoras, as irremediáveis. Aquelas que jamais poderão corresponder aos nossos tristes acenos.

Talvez fosse um tempo, agora, de perdoar para ser perdoado. Ou de se fazer algo bom que nunca se fez. Ou ao menos dar uma caneca de café com leite a um mendigo, um pacote de macarrão ao desabrigado, um sorriso ao menino de rua comprando a bala que ele oferece, de preferência.

Talvez fosse um tempo, agora, de oferecer a outra face, de levar o desaforo para casa porque os imbecis não haverão de ser eternos. Talvez fosse um tempo para tanta coisa que a gente não tem tempo que o melhor é dar tempo ao tempo. O tempo curto de leitura que lhes peço e para não lhes aborrecer assim me despeço.

*Ricardo Soares é escritor, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros. O mais recente 'Devo a eles um romance' em pré-venda no site da editorapenalux.com.br



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!