Religião

28/07/2020 | domtotal.com

Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT completa 6 anos com livro de testemunhos

Publicação gratuita traz 21 histórias de fé, amor e comunhão

1º Encontro da Região Sudeste de Grupos Católicos LGBT  em 2019
1º Encontro da Região Sudeste de Grupos Católicos LGBT em 2019 (Cris Serra)

Gilmar Pereira*

A Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT completou seis anos neste 26 de julho e, como marco celebrativo, está lançando o livro Testemunhos da diversidade: histórias de fé, amor e comunhão (Metanoia Editora). A publicação é gratuita e está disponível para download. O livro é uma compilação de 21 relatos de pessoas de todo o país que integram os coletivos que compõem a rede e foram coletados durante a campanha #TestemunhosDaDiversidade, realizada ao longo do mês de junho deste ano.

Junho é um tempo especial para as pessoas abrigadas sob a sigla LGBT+ – pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgênero, travestis e todas as outras que não se enquadram nos estereótipos de gênero que predominam em nossa cultura. Foi no final desse mês, em 1969, que os frequentadores do bar Stonewall Inn, um dos redutos da diversidade sexual e de gênero de Nova York, levantaram-se contra os abusos policiais de que eram vítimas cotidianamente. O episódio se tornou um marco da recusa da vergonha e do medo nos quais essa parcela da população vivia imersa. A partir de 1970, o 28 de junho passou a ser lembrado pela comunidade LGBT+ como Dia do Orgulho. Com o tempo, a celebração estendeu-se por todo o sexto mês de cada ano. Foi nesse contexto que a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT realizou sua campanha de testemunhos.

O livro reúne histórias de mulheres e homens do Sul ao Nordeste do país, de 17 a 65 anos. São pessoas de diferentes perfis raciais, que incluem mulheres lésbicas, homens gays, pessoas bissexuais, uma mulher transgênero e algumas pessoas não-binárias. Em seus relatos, elas contam como vêm conciliando suas identidades LGBT+ com a pertença ao catolicismo romano, mostrando também como a participação nos grupos da rede vem contribuindo para a sua caminhada de fé e vida.

"Trata-se de um marco na história do movimento de pessoas católicas LGBT+ no Brasil. Uma compilação que dá testemunho da potência do trabalho pastoral dos coletivos que compõem a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, da riqueza e importância da dádiva da diversidade e do sopro da Ruah Santa de Deus que inspira nossas comunidades", afirma Cris Serra, da coordenação da rede e membro da equipe de organização da publicação.2º Encontro da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT  em 20182º Encontro da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT em 2018

Cris Serra, que é autora do livro Viemos para comungar: os grupos de católicos LGBT brasileiros e suas estratégias de permanência na Igreja (também lançado pela Metanoia Editora), salienta como os relatos evidenciam o desafio mais imediato enfrentado pelas pessoas LGBT+ na Igreja: a violência. Ela cita "a violência psicológica e, não raro, física de tentativas de 'exorcismo', orações de 'cura e libertação', 'terapias de reversão'. Há ainda a violência do estigma, que leva à vergonha, ao medo, à culpa, ao silenciamento e à invisibilização. O fantasma do 'pecado' ou o temor de ser uma 'abominação' acompanha a pessoa mesmo quando ela já foi expulsa ou se auto-exilou de sua comunidade de origem, de sua família, das referências religiosas, dos símbolos sagrados e da experiência de fé em que foi socializada".

Foi a esse contexto que o padre Júlio Lancellotti, monsenhor e pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, São Paulo, se referiu em duas homilias recentes. Em 12 de julho, ele pediu publicamente desculpas a um jovem gay: "Queria pedir desculpas se o padre da tua cidade te humilhou quando você revelou a tua condição sexual. Perdão. Ninguém deve ser humilhado". E prosseguiu: "Perdão para as mulheres trans, para o grupo LGBTQI+, perdão. Tenho recebido muitas mensagens das pessoas que são expulsas das igrejas por assumirem sua condição sexual". No dia 19, ele voltaria ao tema: "as comunidades têm de ser abertas a todos, não rejeitar ninguém. Essa é uma tentação das comunidades: serem heteronormativas e excludentes. Todas as igrejas têm de ser inclusivas. A comunidade é para todos, para que todos recebam a força do amor de Deus". No dia seguinte, em seu perfil no Instagram, ele indicou o perfil da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, dizendo: "não sofram sozinhos, busquem apoio. Todas, todos e todxs. Há uma rede de apoio. Coragem. Deus é amor".

Luciana Carmo, uma das coordenadoras e fundadoras do Diversidade Católica de Fortaleza, em 2014, é uma das pessoas que relatam sua experiência de vida no livro. Segundo ela, o que a motivou a dar seu testemunho foi "a gratidão e alegria de mostrar para outras pessoas que elas não estão sozinhas. A Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT é um renovar de forças e um sopro de esperança para quem pensa não ser possível conciliar sua espiritualidade católica com sua orientação sexual e/ou identidade de gênero. Não há como se calar diante dessa Boa Nova. Espero que nossos testemunhos ressoem aos quatros ventos".

O livro inclui também dois relatos de mães católicas de pessoas LGBT+. Ambas são ligadas a coletivos da rede: uma ao Diversidade Cristã de Recife e outra, Silvia Kreuz, ao Grupo Católico de Acompanhamento Pastoral com Pessoas LGBTI+, cuja coordenação integra o Conselho Paroquial de Pastoral (CPP) e a Dimensão Social da Arquidiocese de Curitiba. Silvia é também fundadora do grupo Mami (Mães de Amor Incondicional), um grupo de mães e pais que atua dando testemunho e fazendo acolhimento de famílias de pessoas LGBT+. "Contribuí para o livro dando testemunho do nosso trabalho enquanto mães de pessoas LGBTQI+ para ajudar as famílias que estejam em dificuldade de entender a diversidade sexual", explica Silvia. E continua: "o conhecimento da existência de famílias que acolhem e estão em paz com a orientação sexual ou a identidade de gênero dos filhos, filhas e filhes, faz toda a diferença. Agimos em nome do amor de Deus, que ama a todes, inclusive nosses filhes que são parte do grande projeto Criador".

O lançamento do livro se deu no próprio dia 26, em uma celebração, ao vivo, realizada no canal da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT no YouTube. A Celebração da Memória da Caminhada, como foi chamada, foi uma Celebração da Palavra no formato do Ofício Divino das Comunidades, como a rede costuma fazer. Após um "memorial da caminhada", com uma sequência de fotos de diferentes momentos da trajetória dos grupos da rede, seguiram-se um salmo, uma reflexão a partir da leitura de Gl 3, 23-29 e um momento de ofertório, no qual quatro representantes regionais falaram sobre o trabalho em cada região do país onde a rede está presente. A representante do Sudeste, coordenadora do grupo Cristãos pela Diversidade, de Belo Horizonte, disse: "É desse jeito, com a inspiração do Espírito, que sabemos ser pessoas católicas LGBT. Erguemos os braços em ambos os movimentos: em oração, nos conectamos com o sagrado que habita em nós e no mundo; e, em protesto, apressamos o sonho do jovem Jesus, que era vida em abundância para todas, todes e todos”. 

O livro foi publicado no formato e-pub e está disponível para download gratuito no link http://www.bit.ly/testemunhosdadiversidade.

Veja abaixo um dos relatos do livro

A verdadeira experiência cristã nos grupos católicos LGBTI+

JS, 26 anos, homem cis bissexual de Campinas (SP)

Sou católico e LGBT, vivo com meu companheiro e vamos nos casar em breve. Sempre participamos ativamente da vida da Igreja e, como somos abertamente um casal homoafetivo, sofremos diariamente a homofobia, inclusive dentro das comunidades católicas. Em nenhum momento, contudo, desistimos de seguir a mensagem transformadora de Cristo, contribuindo dentro da nossa Igreja. Nós, católicos LGBTI+, estamos atuando nas pastorais, movimentos e nos altares por todo o Brasil.

Quando me assumi, fui convidado a deixar minhas funções de liderança a pedido de um padre, que, por sua vez, havia sofrido pressão da comunidade. Pessoas que me viram crescer e faziam parte da minha vida simplesmente optaram por me descartar porque eu estava namorando um homem. Extremamente abalado, procurei outros espaços católicos mais acolhedores, já que aquela comunidade arrancou de mim algo que sempre fez parte da minha vida. Graças a Deus, sempre contei com apoio de meus pais, católicos, mas que souberam colocar a misericórdia e a alegria do Evangelho acima de qualquer coisa.

Hoje, com muito orgulho, faço parte da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT. Tenho sentido que esta organização permite que centenas de pessoas pelo país vivam uma profunda experiência cristã, baseada na igualdade, fraternidade, amor e comunhão, como viveram nossas irmãs e nossos irmãos das primeiras comunidades. É como membro atuante da Rede Nacional que me reafirmo como membro da Igreja Católica e como pessoa LGBT+, rompendo com qualquer visão que divida essas duas identidades.

Vivencio verdadeiramente o Evangelho nesses espaços seguros de fé formados por pessoas católicas LGBT+, com apoio de religiosos e religiosas sensatas que entendem que nossa orientação sexual e identidade de gênero fazem parte da diversidade da vida humana – e, portanto, são obra de Deus, Pai e Mãe da Misericórdia e responsável pela criação de todas as pessoas.

Fico imaginando o impacto de narrativas preconceituosas naqueles locais onde ainda não existem pessoas esclarecidas, onde jovens vivem com medo de ser quem são por causa da homofobia que mata. Nem a sexualidade, nem a identidade de gênero, definem caráter. Somos atacados por toda parte na sociedade por assumirmos quem somos, e é muito triste saber que a Igreja, em alguns casos, contribui para nossa exclusão, contribui para ideologias que ligam nossa sexualidade à doença, ao pecado ou ao crime.

Mas seguimos e crescemos com o sopro do Espírito Santo. É crescente pelo Brasil o número de leigas e leigos, sacerdotes, religiosas e religiosos interessadas e interessados em conhecer e colaborar com o movimento pastoral pela cidadania religiosa das pessoas católicas LGBTI+. Isso me faz acreditar que, dentro das minhas limitações humanas, alcancei a plenitude cristã ao lado das minhas irmãs e dos meus irmãos católicos LGBTI+.




DomTotal/Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT

*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica, graduado em Filosofia e Teologia, possui estudos em Fotografia e cursa Psicanálise. É professor, mestre de cerimônias e responsável pela editoria de religião do portal Dom Total



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