Religião

29/07/2020 | domtotal.com

Esperando, esperei: um convite à esperança no salmo 40

Confiança em Deus e denúncia contra atos irresponsáveis fazem parte daquilo que o cristianismo entende por Esperança

Esses pequenos versos, embora grandemente conhecidos, muitas vezes têm seus ensinamentos esquecidos por nós
Esses pequenos versos, embora grandemente conhecidos, muitas vezes têm seus ensinamentos esquecidos por nós (Ben White / Unsplash)

Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos. E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão e confiarão no Senhor -  Salmo 40, 1-3

Esse salmo é amplamente conhecido pela comunidade cristã, tendo até sido usado pela banda U2 em uma de suas canções, o que também revela o grande alcance que tal salmo possui no meio secular. Ele está inserido no conjunto de salmos chamados de orações de pedido de socorro, orações de confiança e de ações de graças. Tais orações têm como origem comum alguma situação de angústia na qual acontece um pedido de socorro, acompanhada de uma crise, da qual determinada pessoa, uma vez libertada, dá ações de graças ao libertador.

No caso específico do salmo 40, ele está divido em duas partes, sendo a primeira dos versículos de 1 a 10 e a segunda, dos versículos 11-17, de acordo com a Bíblia Protestante. Esse pequeno trecho é a primeira estrofe da primeira parte, cujo começo é bastante interessante. No original hebraico, o salmo começa com a expressão "Esperando, esperei", o que remete à esperança que o salmista tem de que, apesar de suas dificuldades, Deus ouve sua súplica e ainda o capacita a esperar pelo seu socorro. 

Vale frisar que a tradução do texto como se encontra em grande parte das Bíblias protestantes "esperei confiantemente", ou em algumas versões, "esperei pacientemente pelo Senhor" não deve ser entendida como atitude passiva, na qual o salmista estaria prostrado esperando a ação divina. Mas, seguindo aquilo que o texto bíblico ensina a respeito da esperança, tal texto deve ser lido compreendendo que o salmista detém uma confiança resiliente diante das adversidades, mesmo que espere a intervenção divina, que, segundo o salmo, ocorre depois de algum tempo.

O versículo 2 diz que Deus, vindo ao auxílio do salmista, tira-o do lamaçal e o coloca sobre rocha firme. Diversos exegetas veem aqui nesse versículo uma alusão ao Sheol (o mundo dos mortos de acordo com a fé israelita desse momento), uma vez que, de acordo com o contexto da época, as adversidades e enfermidades eram compreendidas como fatores que puxavam o ser humano para a morte. 

Como não havia, nesse período, a expectativa da ressurreição por parte do povo de Israel, a ameaça de ir para a morada dos mortos era algo aterrorizante. Nesse sentido, não é difícil compreender porque ser liberto dos adversários ou curado de alguma doença era visto como ato de libertação por parte de Deus. Por último, no versículo 3, o salmista louva a Deus pela sua libertação e dá testemunho dela exaltando a Deus com um novo cântico de alegria e regozijo diante dos povos.

Esses pequenos versos, embora grandemente conhecidos, muitas vezes têm seus ensinamentos esquecidos por nós. No momento atual pelo qual passamos, em que se espera alguma solução para a pandemia, principalmente por meio de uma vacina que garanta um combate efetivo contra o vírus, lembrar-se desses versos pode nos ajudar a enfrentar com confiança, resiliência e esperança a situação na qual nos encontramos, crendo que apesar das dificuldades, Deus não está distante de nós, mas, em Jesus se faz Deus conosco, que caminha ao nosso lado como companheiro de jornada e, por meio de seu Espírito, está em nós nos dando força para continuar.

Essa esperança em Deus, contudo, como falado, não deve ser passiva. Deve-se, sim, continuar as denúncias contra o mau uso do dinheiro público na luta conta o Covid-19, contra a má gestão do governo federal que tem tido consequências drásticas principalmente sobre a população mais pobre, contra as fake news propagadas para desmerecer o trabalho dos cientistas e profissionais de saúde que estão na linha de frente para minimizar os danos causados por uma política de morte como a que vem sendo feita pelo governo.

Tal esperança nesse Deus que ouve nosso clamor também deve nos levar a crer que tal situação uma hora acabará, e poderemos novamente entoar cantos de alegria pela libertação dada por Deus a nós.


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*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br



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