Ciência e Tecnologia

01/08/2020 | domtotal.com

A corrida para desenvolver uma vacina rápida e efetiva contra a Covid-19

De acordo com a OMS, há 25 'candidatas a vacina' avaliadas a partir dos testes clínicos em pessoas

Além dos testes já iniciados, a OMS contabiliza 139 projetos de vacinas candidatas que se encontram em fase de desenvolvimento pré-clínico
Além dos testes já iniciados, a OMS contabiliza 139 projetos de vacinas candidatas que se encontram em fase de desenvolvimento pré-clínico (Nicolas Asfouri/AFP)

A busca por uma vacina contra a Covid-19 avança a uma velocidade sem precedentes, numa competição mundial que envolve um grande interesse financeiro. Mas deve-se tomar cuidado com anúncios rapidamente descartados e expectativas frustradas.

Quantas vacinas?

Em seu relatório mais recente, a OMS cita 25 "candidatas a vacina" que estão sendo avaliadas a partir de testes clínicos em pessoas. A maioria se encontra na "fase 1" (avaliar a sua segurança) e outras, na "fase 2", em que a questão da eficácia já é explorada.

Apenas quatro candidatas a vacina encontram-se na etapa mais avançada, a "fase 3", em que sua eficácia é avaliada em larga escala. A empresa americana Moderna iniciou nesta semana esta fase, durante a qual serão testados 30 mil voluntários.

Em meados do mês, dois projetos chineses também entraram na fase 3: o do laboratório Sinopharm, testado em 15 mil voluntários nos Emirados Árabes, e o do laboratório Sinovac, testado em 9 mil profissionais de saúde brasileiros, em associação com o instituto Butantan.

O quarto projeto que se encontra na fase 3 é europeu, desenvolvido pela Universidade de Oxford, em cooperação com a empresa AstraZeneca. Ele está sendo testado em Brasil, Reino Unido e África do Sul.

Além dos testes já iniciados, a OMS contabiliza 139 projetos de vacinas candidatas que se encontram em fase de desenvolvimento pré-clínico.

Quais as técnicas?

Há diferentes enfoques. Algumas equipes trabalham em vacinas convencionais, que usam um vírus inativado, como as do Sinovac e Sinopharm. Também há vacinas baseadas em proteínas (antígenos), que desencadeiam uma resposta imunológica sem vírus.

As chamadas de "vetor viral" são as mais inovadoras: outro vírus é usado como suporte e ele é transformado e adaptado para combater a Covid-19. Esta é a técnica pela qual optou a Universidade de Oxford, que usa um adenovírus proveniente de chimpanzés.

Outros projetos inovadores se apoiam em vacinas de "DNA" ou "RNA", produtos experimentais que usam partes de material genético modificado, como é o caso da empresa Moderna.

"Quanto mais candidatos houver e, principalmente, quanto mais tipos diferentes de candidatos a vacina houver, mais teremos chances de conseguir alguma coisa", assinala Daniel Floret, vice-presidente da Comissão Técnica de Vacinações, ligada à Alta Autoridade de Saúde (HAS) francesa.

Quais são os resultados?

Os resultados preliminares de duas candidatas – a de Oxford e a da sociedade chinesa CanSino – foram publicados no último dia 20 na revista médica The Lancet. Ambos são considerados promissores, pois provocam "uma forte resposta imunológica", desencadeando a produção de anticorpos e linfócitos T (células especializadas do sistema imunológico).

As duas vacinas também foram bem toleradas pelos pacientes, que apresentaram como efeitos colaterais mais comuns dor de cabeça, febre, fadiga e dor no local da injeção. Mas é cedo para tirar conclusões.

"Ainda não sabemos se estes níveis de imunidade podem proteger contra a infecção, nem se elas podem proteger os mais frágeis das formas graves da doença", assinala Jonathan Ball, professor de virologia molecular na Universidade de Nottingham (Reino Unido), que não participa das pesquisas.

Um estudo britânico divulgado este mês sugere que a imunidade baseada em anticorpos pode desaparecer em poucos meses, o que poderia dificultar o desenvolvimento de uma vacina eficaz a longo prazo.

Ainda mais rápido?

Em todo o mundo, o processo acelerou de forma sem precedentes, algo percebido principalmente na China, país onde o vírus Sars-CoV-2 foi detectado. A arrecadação de fundos foi lançada por nações e fundações.

Ao contrário da Europa, os Estados Unidos trabalham sozinhos. O governo Trump busca acelerar o desenvolvimento de uma vacina e colocou em prática a operação Warp Speed, nome tirado da saga de ficção científica Jornada nas estrelas, que identifica sistemas de viagem mais rápidos que a velocidade da luz.

Esta corrida desenfreada ganhou o perfil de uma trama de espionagem. Reino Unido, Estados Unidos e Canadá acusaram o serviço de inteligência russo de estar por trás de ataques de hackers visando a roubar dados da pesquisa para uma vacina. Nos Estados Unidos, dois chineses foram acusados pelo mesmo motivo. Tanto Moscou quanto Pequim negaram as acusações.

Problemas de segurança?

Para autorizar uma vacina contra a Covid-19, os testes clínicos devem proporcionar um alto nível de segurança, eficácia e qualidade", advertiu a Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

Para o vice-presidente da comissão de vacinações da França, "um dos pontos-chave é demonstrar que não há chances de a vacina provocar a doença de forma exacerbada", ou seja, mais grave. Isto ocorreu em macacos "durante tentativas de desenvolver vacinas contra os coronavírus MERS-CoV e Sars", lembra Daniel Floret. Em pessoas, este fenômeno foi constatado na década de 1960, em algumas vacinas contra o sarampo.

Para quando?

A EMA considera que pode demorar, pelo menos, até o começo de 2021 para que uma vacina contra a Covid-19 esteja pronta para a aprovação e disponível em quantidades suficientes. Os mais otimistas, entre eles empresas farmacêuticas, afirmam que é possível conseguir a vacina no último trimestre de 2020.

No pior dos cenários, é possível que nunca se consiga produzir uma vacina para a doença.

Crise de confiança?

Mesmo que os pesquisadores tenham sucesso, resta a pergunta: as pessoas aceitarão ser vacinadas, em um contexto de crescente desconfiança envolvendo a vacinação?

"Como mostram as epidemias frequentes de sarampo, não fomos bons em responder às preocupações das pessoas envolvendo as vacinas. Se não aprendermos com estes erros, qualquer programa de vacinação contra o novo coronavírus estará condenado de antemão", advertiu o pediatra americano Phoebe Danziger em artigo publicado recentemente no jornal New York Times.


AFP



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