Religião

31/07/2020 | domtotal.com

A espiritualidade inaciana e as mulheres

Espiritualidade inaciana é um espaço que possibilita a atuação das mulheres, conferindo-lhes protagonismo

A casa de retiros de Itaici é referência na Espiritualidade Inaciana no Brasil e muitos de seus retiros, cursos e encontros são ministrados por e têm à sua frente mulheres
A casa de retiros de Itaici é referência na Espiritualidade Inaciana no Brasil e muitos de seus retiros, cursos e encontros são ministrados por e têm à sua frente mulheres (Jesuítas Brasil)

Elaine de Azevedo Maria*

Quando analisamos a Igreja, percebemos que ela, assim como a sociedade, está estruturalmente formada pelo signo do machismo, que coloca a mulher num papel subalterno e servil. Dentro deste contexto, a espiritualidade inaciana, nadando contra a maré, não apenas fornece instrumentos de transformação como também é um espaço que possibilita a atuação delas, e não só como ajudantes, mas também conferindo protagonismo. Percebemos que os espaços inacianos são inovadores, há muitas mulheres que participam e coordenam eventos de forma ativa, não apenas sendo a maioria do público ouvinte, como é a práxis das Igrejas.

A região da Amazônia é uma preferência apostólica da Companhia de Jesus e a espiritualidade inaciana fornece espaço e incentiva a articulação de lideranças e subsídios espirituais que sustentam a luta de muitas mulheres que estão no coração da missão. Lidiane Cristo, analista social do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), diz que a provocação de vivenciar a radicalidade do Evangelho, que busca dar pão aos que sofrem, é fruto do discernimento e do conhecimento do Princípio Fundamento, que conheceu nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Essa busca, segundo ela, é fruto de um processo de educação na fé que permite criar espaços para a ecologia integral e a valorização do feminino. Lidiane reconhece que a ecologia integral, proposta pelo papa Francisco, passa pela valorização do papel fundamental das mulheres na região, que são responsáveis pela comunidade organizada, pela liturgia e pelo suporte espiritual do povo sofrido, vítima da cultura do descarte que alcança tanto a floresta quanto os seres humanos. A nossa casa comum precisa que homens e mulheres elejam um processo de conversão que passe pela compreensão que tudo é graça de Deus e que todos os seres estão interligados (Laudato si' n.117 e 120) para mais amar, louvar e reverenciar Deus – e só assim a salvação será verdadeiramente plena.

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Na Teologia, a luta pelo espaço feminino é feita contra vários adversários além do clericalismo. A necessidade de se ouvir outras vozes, além da máscula, impeliu Maria Clara Bingemer – e impele muitas novas teólogas – a expandir esta fronteira do conhecimento. A espiritualidade inaciana fez, a partir da Comunidade de Vida Cristã (CVX) e da pastoralda PUC-Rio, esta brilhante escritora migrar da Comunicação Social para a Teologia e continua motivando outras teólogas, como Bia Gross e Maria de Lourdes Norberto, a escreverem sobre importantes temáticas jesuítas. Cabe, agora, não apenas aos jesuítas, mas a toda comunidade acadêmica, respeitar e dar visibilidade à produção feminina em seus espaços institucionais. Não adianta formarmos excelentes pesquisadoras se elas não são citadas, não publicam ou não conseguem espaço para lecionar.

É comum termos mulheres, religiosas ou não, orientando retiros inacianos, apesar de muitas vezes ainda existir a figura do padre que orquestra o retiro e que tem o seu nome em destaque no material de divulgação desses eventos. Com uma simples consulta ao site do Mosteiro de Itaici, ou outros lugares que oferecem retiros, podemos constatar as diferentes faces femininas protagonizando este movimento. Equipes que oferecem os Exercícios Espirituais para jovens também contam com um expressivo número de mulheres. O Anchietanum, sob a liderança de Vanessa Correia, apresenta uma proposta de formação espiritual, social e política para jovens paulistanos.

Confiado à administração feminina após a repentina saída dos jesuítas, o Centro Loyola de Goiânia se tornou um recanto da espiritualidade inaciana numa cidade onde não há mais atuação apostólica direta da Companhia de Jesus. A voluntária Izilda Simões, observa que a valorização da beleza e da organização, que elas imprimem no gerenciamento do espaço, favorece a vivência e o "sentir e saborear internamente todas as coisas" aos frequentadores. A resistência feminina, que atua de forma protagonista neste espaço, permite que o modo de rezar proposto por Santo Inácio continue favorecendo o povo goiano a discernir e eleger Cristo em todas as coisas.

Apesar de termos, nestes espaços inacianos, certo protagonismo feminino, não podemos permitir uma perspectiva míope, que impeça um distanciamento analítico e racional da percepção do [obscurecido] papel da mulher nos espaços eclesiais. Quiçá este período de quarentena, com a valorização das celebrações domésticas, possa ajudar a fazer memória da consolação dos primeiros grupos cristãos no único homem que era figura central, o próprio Jesus Cristo.

O machismo não é centralizado e imposto por leis ou instituições, e sim esparramado na sociedade brasileira através dos micropoderes, como identificados pelo filósofo Michel Foucault. Por estar entranhado em todas as relações sociais é muito difícil identificar e combater. A técnica do exame inaciano, quando é usada com as lentes da igualdade de gênero, permite-nos refletir, num clima de oração, sobre os eventos do dia e identificar como o machismo está presente para melhor combatê-lo. A finalidade do exame é viver com um coração que discerne para respondermos, com mais fidelidade ao Evangelho, às questões contemporâneas.

Santo Inácio, nos exercícios espirituais, indica que há muita desordem no ser humano que o impede de acolher o dom de Deus e por isso é necessário ordenar a própria vida e assim dispor-se para acolher o dom. Precisamos adquirir liberdade de espírito para modificar as estruturas que priorizam o clericalismo patriarcal e, assim, termos a verdadeira liberdade para valorizar a igualdade de gênero. É tempo de sentirmos vergonha pelo pecado social do machismo para alterarmos os valores dentro e fora da Igreja.

Devemos lembrar que Jesus Cristo era a favor das mulheres... das duas vezes que ele "mudou de ideia" foi por causa de argumentos femininos: Maria (João 2,1-11) e a mulher siro-fenícia (Mateus 15,21-26; Marcos 7,26). Percebemos que os espaços que promovem a espiritualidade inaciana também propiciam o protagonismo de minorias sociais, especialmente das mulheres, e que as técnicas de oração propostas por Santo Inácio são úteis para elegermos a bandeira de relações mais justas igualitárias. A partir deste reconhecimento, precisamos ver como podemos fazer para que – não apenas nesses círculos, mas em toda a igreja – sejam dados mais e efetivos passos para a equidade de gênero. Sempre buscando o verdadeiro Magis!

*Elaine Maria, mestra em Ciências Sociais e graduanda em Teologia. Agente de pastoral da PUC-Rio



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