Religião

31/07/2020 | domtotal.com

O que a espiritualidade inaciana tem a nos oferecer em 2020?

Inácio de Loyola ensina uma trilha rumo ao melhor de nós e do mundo, no encontro com Deus e o próximo

Inácio ia ao encontro da realidade do outro e é isso que espera dos seus discípulos
Inácio ia ao encontro da realidade do outro e é isso que espera dos seus discípulos (Unsplash/Priscilla Du Preez)

Patrícia Rodrigues*

Se o insólito cenário do ano 2020 não chega a ser inédito na história da humanidade, pois já se conviveu com outras pandemias de escalas comparáveis – como a peste bubônica e a gripe espanhola –, a pandemia da Covid-19 vem num contexto de comunicações e conexões ágeis em tempo real, de migrações e globalização (que inclusive favoreceu sua dispersão) e de relações controversas com o poder da Ciência e da Tecnologia na resolução da questão. Se uma grande parcela da sociedade via na Ciência e na Tecnologia a fonte de cura para todos os males da humanidade, num processo quase divinizatório, há uma outra parcela que chega ao negacionismo de duvidar da eficiência das vacinas e a defender o terraplanismo em pleno século 21.

O cenário distópico da epidemia traz, além de uma recessão econômica de tempo indeterminado, restrição de mobilidade física e severa diminuição da sociabilidade, essas últimas características que foram essenciais até para a evolução humana como espécie; sem falar do risco biológico de um vírus do qual pouco se sabe de suas variações genéticas e consequente diversidade de sintomas, sequelas, capacidade infectiva e reinfectiva.

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Portanto o que impera é um medo justificado da morte – a própria ou de entes queridos –, sendo natural uma intensificação na busca de mais orientação na vida. A espiritualidade faz-se necessária para muitos e não fica difícil se imaginar na posição que Santo Inácio nos sugere para fazer uma boa escolha, em seu livro dos Exercícios Espirituais (EE 186-187): imaginando-se em seu leito de morte, o que você gostaria de ter feito? O que escolheria? Que vida gostaria de ter vivido? Que experiências gostaria de ter feito? Que pessoas gostaria de ter ao seu lado?

O foco volta-se para o essencial, para o imprescindível, para tudo aquilo que dá sentido à vida e pelo qual vale a pena viver.  A incerteza do futuro e a dificuldade de se fazer novas tentativas associadas ao binômio pandemia/quarentena intensificam a urgência de escolhas corretas.

Daí a atualidade do legado deixado por Inácio de Loyola, mestre do discernimento dos espíritos. No seu livro Exercícios Espirituais, Inácio nos deixa um caminho de autoconhecimento e discernimento do que são os nossos verdadeiros anseios e necessidades. Afinal, as escolhas que faço realmente me levam a potencializar a minha existência? A desenvolver o melhor de mim (magis inaciano)?

Qualquer pessoa com uma razoável consciência de si, sabe que autoconhecimento não é uma tarefa fácil. Em meio a um mundo de valores complexos, plurais e às vezes até contraditórios, em meio a desafios sempre novos e dinâmicos, a consciência de si é um processo de constante reflexão e confronto consigo mesmo, com o outro e com a realidade. É um processo individual e único, sem fórmulas prontas, daí a necessidade de uma prática espiritual e análise também frequentes. Necessidades amplamente contempladas na proposta dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola e que se tornam especialmente atrativas em tempos de crises, como a atual.

No entanto apesar de ter muito a oferecer e de não faltarem interessados em uma busca transcendente, o número de católicos no Brasil vem diminuindo a uma taxa 1,2% ao ano e se estima que já em 2032, não serão mais maioria no país – segundo o demógrafo José Eustáquio Alves, em pesquisa de 2017, prévia à pandemia.

A diminuição de católicos no mundo que já vinha sendo observada há algum tempo, não acontece exclusivamente no Brasil e seria interessante observar se será alterada pela pandemia. Trata-se de um fenômeno complexo, com diversas causas, que inclui o aumento de ateus na Europa e de evangélicos na América Latina. E, obviamente, quando se fala em diminuição do número de católicos, ainda não se sabe ao certo se há uma diferença numérica entre os adeptos dos diversos carismas da Igreja Católica. Independente disso, poderia vir, justamente da Espiritualidade Inaciana, um sinal de renovação que ajudasse no intuito missionário de seu fundador, de revelar Jesus Cristo aos que desejarem e trazer a quem precisa o alento do Evangelho. Trata-se de uma espiritualidade com características imprescindíveis para o momento atual.

Santo Inácio e sua espiritualidade sempre primaram pela busca da liberdade. Nenhuma escolha plenificadora poderia ser feita em ausência de liberdade, sobretudo liberdade afetiva que é a mais sutil. Podemos ser escravos das nossas próprias carências e falsas ideias de realização. A consciência de que nossa mente e desejos nos "pregam peças" que muitas vezes nos afastam do nosso próprio objetivo final, é uma sabedoria que Inácio percebeu muito antes da ideia de subconsciente e de Freud.

Os Exercícios Espirituais foram feitos para auxiliar-nos a reconhecer e livrar-nos das nossas "desordens" e assim, encontrar a vontade de Deus para nós, que é aquilo que podemos fazer de melhor e também é o que nos realizará mais plenamente. Inácio sabia que para fazer escolhas livres é necessário equilibrar os afetos, enxergar com clareza e assim escolher o melhor entre as inúmeras possibilidades que se apresentam. Isso porque Inácio nem imaginava a profusão de possibilidades que se apresentaram com a pós-modernidade e a globalização: o fato de termos mais possibilidades chega justamente a ser angustiante, ao invés de libertador, pois muitas possibilidades vão aumentar o tempo da análise de qualquer escolha e podem tornar o processo extremamente longo e sem a convicção de se fazer a escolha correta. O que faz do discernimento inaciano uma ferramenta muito adequada para o mundo em que vivemos.

Outra característica importante dessa espiritualidade é sua vocação poliglota e missionária: sua capacidade de dialogar com seu interlocutor trazendo só a essência do Evangelho, buscando antes usar a linguagem de quem ouve e não a sua própria. Essa estratégia de Inácio é usada nos seus tempos de estudante em Paris, quando conquistou tantos discípulos entre gente tão diferente de si: um peregrino manco e de já certa idade, que influenciou discípulos jovens de classe social elevada, que mudaram suas vidas, com ele fundaram a Companhia de Jesus e deram continuidade à sua missão.

Muitos discípulos foram em missão pelo mundo, aprendendo a língua e cultura locais, como Francisco Xavier, apóstolo das Índias; Matteo Ricci na China – que viveu já em sua época os princípios básicos do Vaticano II, especialmente a inculturação e o diálogo inter-religioso – e Anchieta no Brasil, ao decifrar o Tupi-guarani e se inserir na realidade dos nossos povos originários.

Inácio ia ao encontro da realidade do outro e é isso que espera dos seus discípulos; uma Igreja "em saída" como nos sugere o seu também discípulo e pontífice, papa Francisco. Sair para dialogar no terreno do outro exige coragem e abertura. Sair da sua zona de conforto é fragilizar-se, para que o outro se revele tal como é, possa ser ouvido e acolhido, e só assim acolher. E o mundo ferido e secularizado de hoje está sedento e ansioso por essa abertura espiritual.

*Patrícia Rodrigues leciona Ética Socioambiental e Direitos Humanos na PUC-Rio, é PhD em Biologia Molecular pela Unicamp e pós doutora pela Fiocruz-RJ. Membro da Comunidade de Vida Cristã (CVX) e da Equipe dos Exercícios Espirituais para Jovens do Magis- RJ



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