Religião

31/07/2020 | domtotal.com

Inácio, um homem à frente do seu tempo

Em meio a uma época de mudanças aceleradas e múltiplas vozes, a espiritualidade inaciana pode ajudar a discernir caminhos

Da experiência de Deus feita por Inácio, nasceram o mapa - os Exercícios Espirituais - e a bússola - o discernimento, como Inácio o concebeu - que o capacitaram a atravessar a sua época e podem nos capacitar a atravessar a nossa
Da experiência de Deus feita por Inácio, nasceram o mapa - os Exercícios Espirituais - e a bússola - o discernimento, como Inácio o concebeu - que o capacitaram a atravessar a sua época e podem nos capacitar a atravessar a nossa (Unsplash/Denise Jans)

Luiz Beltrão*

Nesses tempos turbulentos, temos a sensação de que os velhos mapas não nos servem mais. As antigas referências parecem ultrapassadas. Pandemia, isolamento social, fraturas políticas, deriva econômica, deterioração ambiental, toda essa tormenta questiona o sentido, a sensação de pertencimento e o propósito da existência. Muitos de nós nos sentimos perdidos e sem rumo. Guardadas as devidas distâncias, Inácio de Loyola também viveu num tempo agitado. Mais que uma época de mudanças, aquele século 16 foi uma mudança de época, de reformas religiosas, renascimento cultural, descoberta de novos continentes e povos, que abalaram profundamente a concepção do ser humano sobre si mesmo, sobre Deus e sobre a vida. Mas Inácio soube responder a essa época, posicionando-se lúcida e ativamente à frente de seu tempo. Talvez por isso sua espiritualidade tenha algo a nos dizer ainda hoje.

Mas apresentar uma proposta de cunho religioso não seria oferecer as velhas receitas? O que há de original em Inácio? Para sermos precisos, a originalidade não repousa em Inácio, mas em Jesus Cristo. Ele é a Boa Nova, a Palavra definitiva de Deus à humanidade. O que Inácio faz é intuir de maneira inédita como essa Palavra o alcança, se comunica com ele e o que deseja que ele faça.

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Da experiência de Deus feita por Inácio, nasceram o mapa – os Exercícios Espirituais – e a bússola – o discernimento, como Inácio o concebeu – que o capacitaram a atravessar a sua época e podem nos capacitar a atravessar a nossa. Os Exercícios Espirituais são um programa cuidadosamente ordenado, por meio do qual Inácio propõe uma experiência de Deus: uma sequência integrada e orientada de orações e reflexões, em vista de uma maior liberdade, em busca da vontade de Deus (discernimento) para o compromisso responsável com o destino da história (eleição).

Na verdade, em Inácio, esses três elementos – liberdade, busca da vontade de Deus e compromisso com ela – não encontram cisão. Há um grande temor na pós-modernidade, e mesmo entre crentes, acerca da expressão "fazer a vontade de Deus". Não é raro ouvirmos: E onde ficam a minha vontade, os meus desejos, o meu livre arbítrio? Fazer a vontade de Deus não é anular o ser humano?

A resposta quem nos dá é Jesus. Nele a vontade de Deus comunga com a vontade do ser humano. Nele não cabem antíteses, como se a vontade de um fosse inimiga do outro. Nele, a plena realização do ser humano é fazer a vontade de Deus e a plena felicidade de Deus é a mais elevada aspiração humana. E uma das originalidades de Inácio foi recolocar o Jesus dos Evangelhos no centro, ter-nos levado novamente ao essencial da fé. É apenas em Jesus, a quem escolheu (ou por quem foi escolhido) como denominador de seu instituto, que Inácio compreende a realidade, desde seu princípio e fundamento.

Os Exercícios se fazem, essencialmente, por meio da contemplação, da experiência com a pessoa e o mistério de Jesus. É por meio dessa interação, do olhar amoroso, interno, saboreal que o exercitante descobre a verdade sobre si mesmo e sobre Deus. O processo se aprofunda. Deus vai ganhando cada vez mais espaço e a pessoa, sendo tecida e se tecendo, em liberdade e amor. Do olhar brota o enamoramento e, deste, a identificação. Cria-se uma arte relacional, um estado contínuo de abertura, um espaço interior de liberdade, onde se vive em atenção e fidelidade a Deus e ao melhor de si mesmo. Uma arte que capacita o exercitante a ouvir e a compreender a palavra que Deus lhe dirige continuamente por meio de seus pensamentos e sentimentos, assim como por meio das pessoas, das criaturas, da história, da cultura e dos acontecimentos.

Ouvir e compreender essa palavra será também fazer ressoar a palavra do próprio coração, porque a vontade de Deus coincidirá com nossos desejos mais profundos, se nosso coração estiver transfigurado pelo coração dele. Por isso, se fecundo esse processo, o desejo de Deus e os nossos desejos serão um só; um e outro vibrarão em uníssono e uma alegria integradora, que Inácio chamará de consolação, será o sinal distintivo de verificação. E como andamos com os pés no chão e em meio a uma história ambígua, na qual se mesclam joio e trigo, esse também será o espaço onde conseguiremos filtrar os enganos e as seduções que tentarão nos iludir. Esse espaço é o discernimento.

Portanto, o discernimento, no sentido inaciano, não é uma mera técnica de se fazerem boas escolhas ou de se tomarem sãs decisões. É um âmbito relacional, de identificação e sintonia com Jesus. Se é inaciano é cristocêntrico. E se é crístico, passa pela cruz. Não há discernimento inaciano que não seja assimilativo às opções e aos critérios de Jesus, que assumiu até o fim e até a oferta da própria vida as consequências de sua fidelidade ao Pai.

Quer dizer que todo discernimento inaciano resulta numa decisão, numa escolha; assumir alguma postura, perspectiva ou posicionamento, com ousadia e alegria, ternura e vigor, altivez e gratidão, com mira na humanização da humanidade, naquilo que compete a cada um, ao modo de Jesus, o que levará certamente a confrontos e rupturas. Esse é o único caminho que leva à ressurreição, à vida em abundância desde aqui.

Inácio foi um homem à frente do seu tempo não apenas porque se antecipou cronologicamente em termos de concepções e intuições, mas, sobretudo, porque se posicionou na vanguarda do enfrentamento das situações que se apresentavam como desafiadoras à sua época. E suas mesmas ferramentas podem nos ser úteis, porque adaptáveis a nossos contextos e circunstâncias.

Em tempos de turbulência é necessário encontrar o norte, sob pena de navegarmos à deriva ou, pior, rumo ao precipício. Para isso é necessário parar e ouvir as vozes que nos interpelam e corresponder àquelas que nos guiam ao bom destino. São muitos os convites de nossa sociedade globalizada,  plugada 24 horas por dia. Mais ainda com a pandemia, quando somos confinados em espaços que nos questionam a qualidade de nossas relações mais fundamentais. Presto atenção a essas vozes ou sou conduzido por elas, sem refletir? Para onde essas vozes me levam? Elas me tornam mais livre, íntegro e pacificado? Ou mais brutalizado, isolado e autorreferencial?

A proposta do nosso amigo basco é aproveitar esse tempo e se exercitar, com seu mapa e bússola, na arte de se sintonizar com Deus, descobrir e potencializar uma melhor versão de si mesmo, assumir as rédeas da própria vida, viver fazendo a diferença e comprometer-se com o destino da história, tendo o Jesus dos Evangelhos como critério absoluto de configuração e íntimo companheiro de travessia.

*Luiz Beltrão: Leigo inaciano, casado há 24 anos com Renata Beltrão e pai de três filhos. Biólogo de formação, é mestre em Ciências Florestais e especialista em Direito Ambiental. Servidor público na área de consultoria legislativa em meio ambiente, colabora no Centro Cultural de Brasília no acompanhamento de Exercícios Espirituais e como pesquisador do Observatório de Justiça Socioambiental Dom Luciano Mendes de Almeida (OLMA). É, juntamente com sua esposa, assessor espiritual do Movimento Arquidiocesano de Jovens Segue-me de Brasília.



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