Religião

30/07/2020 | domtotal.com

A jornada de fé da artista Erin McAtee a levou ao encontro com o outro

Retratos pintados pela artista desenvolvem a mística do olhar

A artista Erin McAtee, de Nova York, aponta para um retrato em seu caderno de rascunhos
A artista Erin McAtee, de Nova York, aponta para um retrato em seu caderno de rascunhos (Olivia Swinford/ NCR)

Stephen G. Adubato*

A artista Erin McAtee, de Nova York, começou sua jornada criativa com o desejo de "conhecer mais profundamente a experiência humana". Iniciou, em seus primeiros dias de artista, com seu mentor e professor na faculdade e continuou em um estágio no centro de artes da arquidiocese e trabalhando com ministérios para os sem-teto. McAtee faz obras de arte que giram em torno de seu desejo de intimidade e de encontro com outras pessoas.

A artista contou a experiência formativa que teve nas aulas de Dave Johnson enquanto estava na faculdade. "Dave era informal, mas realmente se importava com o que estava ensinando. As pessoas costumam focar na necessidade de fazer desenhos perfeitos, em vez de focar no processo de desenhar como um todo", disse ela.

Quadro ´Bendito seja Jesus nos mais pobres dos pobres´Quadro 'Bendito seja Jesus nos mais pobres dos pobres'Johnson a treinou em uma técnica conhecida como desenho observacional, que inicia o processo de desenho a partir da vida. Isso inclui olhar para a natureza morta, paisagens e pessoas. McAtee disse que aprendeu "como simpatizar com o modelo e prestar atenção à maneira como estão posando. Frequentemente acabo assumindo a pose que o modelo está assumindo enquanto desenho. A partir daí, a obra começa a ganhar vida própria".

"Bendito seja Jesus nos mais pobres dos pobres", de Erin McAtee (foto fornecida pela artista)

A artista disse que Dave a ensinou pelo exemplo e que ainda "ensinou-me a olhar para as pessoas que estou desenhando. Descobri que o desenho é um espaço de encontro. Já não era apenas uma coisa estéril".

O relacionamento de McAtee com Johnson foi um dos muitos que formaram sua sensibilidade artística durante seus anos de faculdade. De fato, passou grande parte de seu tempo com os alunos do Newman Center de sua escola, a organização católica que oferece oportunidades de comunhão, oração e enriquecimento cultural.

McAtee nasceu e cresceu como católica, mas diz que nunca pensou muito em sua fé.

"No começo, estava vivendo a 'vida universitária', não me importando muito com a minha própria dignidade ou a dos outros seres humanos. Naquele momento, estava realmente me sentindo como uma pessoa dentro de uma concha, enchendo-me de coisas e experiências vazias. Mas continuava com meu 'jeito de igreja' quando estava com os alunos do Newman Center".Retrato de Retrato de "Danny" no caderno de esboços de Erin McAtee

A artista acabou percebendo que suas buscas vãs não eram tão vazias, afinal. "Estava finalmente tentando encher meu coração com todas essas coisas", disse. Essas ações representavam a fome de algo maior.

McAtee logo começou a notar a correlação entre o vazio dentro de seu coração e seu desejo de beleza em sua arte. Mas foi só depois, quando uma amiga do Newman Center a convidou para explorar sua fé mais profundamente, que algo nela mudou. Nesse momento, a artista começou a conectar os pontos.

"Houve um momento decisivo durante o verão entre o meu primeiro e o meu segundo ano de faculdade, quando comecei a levar a oração a sério, especialmente a oração à Virgem Maria. Também comecei a levar o meu relacionamento com minhas amigas mais a sério", aponta.

Esse compromisso com a vida de oração e com o vínculo comunitário a ajudou a abandonar as coisas e atividades que costumava fazer para se distrair de seu sentimento interior de vazio.

Ao continuar seus estudos, sentiu um desejo crescente de compartilhar sua experiência de fé com seus colegas do departamento de arte. "Eu me perguntava como poderia compartilhar o que está acontecendo em meu coração sem empurrar Jesus pela goela dessas pessoas, ou recorrer à saccharine, arte religiosa atrevida com a qual ninguém se importaria. E logo, meus professores começaram a ver que minha fé não era apenas uma coisa superficial... estava enraizada em uma experiência real vivida. Eles me incentivaram a aprofundar minha experiência de Deus e a explorar outros artistas que tinham esse mesmo desejo".Obras de Erin McAtee, Obras de Erin McAtee, "Nene", à esquerda e "Mary"

Mesmo depois de redescobrir sua fé em Deus, McAtee continuou lutando para enfrentar sua própria pobreza interior. Ela percebeu o quanto ainda precisava arrancar algumas das ataduras que usara para cobrir sua necessidade e vazio, e ainda descobriu que não seria capaz de fazê-lo sozinha. Isso é parte do que a levou a passar um tempo com comunidades religiosas em Nova York onde fazia pastoral com os sem-teto.

A artista descobriu que passar tempo com pessoas que voluntariamente viviam um voto de pobreza e pessoas que sofriam de pobreza involuntária a ajudou a se sentir mais confortável em enfrentar suas próprias feridas. O trabalho de McAtee com as Missionárias da Caridade (as freiras de Madre Teresa), as Irmãs da Vida e os Frades Franciscanos da Renovação deu a ela um espaço para explorar ainda mais sua arte, as questões espirituais e o desejo de estar próximo daqueles que são pobres.

Através de um irmão franciscano em Newark, Nova Jersey, McAtee conheceu uma mulher sem-teto que morava na rua havia quatro anos, lutando com vícios em heroína e cocaína e vivendo em um relacionamento tóxico com o namorado, que também usava drogas. Depois que o namorado a espancou severamente, ela o deixou e acabou na frente do convento dos franciscanos.

O irmão que a acolheu, ofereceu acompanhamento espiritual e a ajudou a entrar em reabilitação. Ele estava falando com McAtee nesse momento, e a mulher perguntou se a artista poderia vir e fazer um retrato dela antes de iniciar a reabilitação.

"Ela realmente queria que eu a desenhasse. Fui até Nova Jersey com dois pedaços de papel, um para ela guardar e outro para mim. Ela se sentou como se tivesse modelado um milhão de vezes antes de escolher uma posição. Ficava me olhando, enquanto eu registrava sua imagem no papel", disse McAtee.

O tempo que passaram juntas foi acompanhado de momentos de silêncio e de conversa. "Percebi como era natural para ela fazer contato visual comigo. Ela não tinha medo de olhar para o desenho e sorrir para sua imagem no papel", lembra a artista. "Muitas pessoas se sentem desconfortáveis ao serem vistas. Todos nós fomos vistos por olhares que não nos desejaram bem... por pessoas que nos prejudicaram".Obra de Erin McAtee, Obra de Erin McAtee, "Denise"

Considerando o quão mal a mulher havia sido tratada, McAtee ficou surpresa com o estado de vulnerabilidade que sentia no momento com essa outra mulher, em parte porque havia desenvolvido um vínculo anterior de confiança mútua com o irmão franciscano.

A experiência ajudou McAtee a refletir sobre a forma de receber o olhar dos outros, a forma como olham para ela e a ensinou a "receber bem", aponta.

"Quando estou presa no olhar de outra pessoa, o que essa pessoa está olhando em mim? Está vendo se sou uma boa mulher? Eles me olham com amor ou com malícia? Posso confiar?"

O trabalho de McAtee como artista faz parte de sua "jornada perpétua para descobrir o que esse olhar significa e caminhar até um olhar mais purificado sobre as pessoas... para olhar as pessoas como Deus faz, como pai". Sua arte a ajudou a começar a cultivar esse "olhar puro" para si mesma e para os outros.

McAtee comentou que nossa cultura às vezes pode dificultar o cultivo desse tipo de olhar. "Acho que um grande problema é a indiferença. O ator Jim Caviezel disse uma vez que esse é o maior pecado do século 21... especialmente em cidades grandes. Lutamos para fazer contato visual e até reconhecer os pobres. Todos formaram essa cultura de: 'Vou fingir que essa pessoa não está aqui porque não tenho tempo para isso'", reflete a artista.Obra de Erin McAtee, Obra de Erin McAtee, "Clarita", a esquerda e "Mary" à direita

É muito mais fácil manter a solidariedade com os pobres à distância – talvez colocando dinheiro na caneca de um mendigo ou apoiando políticas que advogam por seus direitos – em vez de olhá-los cara a cara, disse ela. "Precisamos nos perguntar: 'Como respondo no meu coração a essas pessoas?' Após esse passo, convidemos Deus para participar de tudo isso: é preciso muita humildade... humildade é reconhecer a verdade de quem realmente somos... É preciso vulnerabilidade para ficar na frente de uma pessoa e estabelecer uma conexão real com ela".

"Quando estou desenhando alguém, meu desenho corre o risco de permitir que eu olhe para a pessoa, e essa pessoa confia que eu estou olhando para ela com amor e que não estou procurando tirar vantagem ou explorá-la. Por isso não escondo nada quando estou desenhando um retrato, para que o produto final apareça, não como reservado ou como se eu estivesse olhando para a pessoa de uma maneira distorcida. Não posso me dar ao luxo de não dar tudo de mim para a pessoa à minha frente".Erin McAtee (Olivia Swinford)Erin McAtee (Olivia Swinford)

Publicado originalmente por National Catholic Reporter


Tradução: Ramón Lara

*Stephen Adubato estudou teologia moral na Universidade Seton Hall e atualmente ensina religião em Nova Jersey. Também escreve no Cracks in Postmodernity, no Canal Católico de Patheos



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