Cultura

30/07/2020 | domtotal.com

Sambódromos e Maracanãs sombrios

Além do vírus que veio de longe, temos a ignorância que vem aqui de perto

Agora desfila numa espécie de Sambódromo sombrio uma leva de gente boa que está partindo sem prévio aviso
Agora desfila numa espécie de Sambódromo sombrio uma leva de gente boa que está partindo sem prévio aviso (Fernando Maia/Riotur)

Ricardo Soares*

Já estou virando meio antigo. Modelo 1959 e de lá ouço Celly Campello e seu Banho de lua, um governo JK que sonhava um Brasil diferente além de ver, aqui de longe agora, um jovem casal pelas areias de Copacabana sendo seguido por um cãozinho vira-latas que adivinha que a minha concepção estava chegando. É, mas isso, a concepção, aconteceu um ano antes. O ano de 1958, que até em livro foi lembrado como ano que não devia ter terminado.

Isso posto, fico pensando no que daqui há muitos anos poderá estar escrevendo quem nasceu ou foi concebido nesse maldito 2020, que traz uma tsunami de notícias ruins para a humanidade e sobretudo pra nós, brasileiros. Por outro lado, quero ir pra outra sintonia, nessas minhas ondas curtas de esperança, que vê também tanta gente jovem partindo sem ver cura para nossas mazelas.

Julho vai acabando sem grandes perspectivas. Uma marola esquisita que começou em março e a gente achava que logo ia passar. Não passou.  Não passou e eu, por ser de um modelo já antigo, talvez tenha esperado que ela fosse mais ligeira porque o tempo que me resta não é o tempo que eu tinha há 30 anos. No meio disso estou aí, lançando um romance. Justamente um romance de memórias inventadas que conta tempos idos e vividos no fim dos anos 70, quando havia ditadura, mas havia horizontes. O livro chama-se Devo a eles um romance a quem interessar possa. É só dar um Google que aparece o link pra compra. Embuto sem vergonha o comercial na crônica porque julgo ser um tempo urgente e propício para ler e para escrever.

Agora desfila numa espécie de Sambódromo sombrio uma leva de gente boa que está partindo sem prévio aviso. O colega jornalista Rodrigo Rodrigues, os gênios da raça Aldir Blanc e Sérgio Sant’Anna e todo um Maracanã superlotado de gente que podia ter escapado dessa. Mas não escapou porque, além do vírus que veio de longe, temos a ignorância que vem aqui de perto, costurando no poder um desgoverno monumental que estraga o linho e a linha de toda a nação. Por isso me dá saudades do ano de 1959. Um ano que não vivi. Mas nele nasci. Não para ver essa praia em que viemos dar. Na qual estamos encalhados mas espero, com fé, que dela sairemos.

*Ricardo Soares é escritor, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros. O mais recente 'Devo a eles um romance' à venda no site da editorapenalux.com.br



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