Religião

31/07/2020 | domtotal.com

Por que Cristo escolheu um pescador?

Através de sua vida e ensinamentos, nosso Senhor trouxe honra a muitas profissões

De certa forma, um pescador é um embaixador dos peixes, mas seu toque não é gentil
De certa forma, um pescador é um embaixador dos peixes, mas seu toque não é gentil (Kelly Sikkema / Unsplash)

Rachel Lu*
American Magazine

A memória permanece viva até hoje. Estava na água, respirando o ar úmido do verão. Na minha mão direita, segurava uma lâmina afiada. A mão esquerda segurava minha vítima em dificuldades. Por trás, cinco pares de olhos me olhando com assombro. Como, eu me perguntava, as coisas tinham chegado a isso? Tudo parecia tão agradável e inofensivo no começo. De repente, me vi com a vida em uma mão e a morte na outra.

Não se preocupe, você, leitor gentil. Eu tenho licença para matar. Claro, estou falando de peixes. A lembrança que relato é do meu primeiro esforço de fazer um filé com um peixe capturado por meus cinco filhos na doca de nossa casa em Minnesota. Foi uma experiência perturbadora, embora, em retrospectiva, tenha me ensinado algo sobre minha vida como cristã. Jesus chamou seus seguidores para serem pescadores de homens. Podemos entender isso melhor se considerarmos o que é preciso para ser um pescador de peixes.

Eu não cresci pescando. Minha família adorava fazer caminhadas e acampar, mas geralmente preservávamos a flora e a fauna. Quando o trabalho do meu marido me levou para Minnesota, notei que a pesca era muito popular aqui. Nossa casa gradualmente se encheu de crianças, e me vi observando com interesse como um vizinho e seus dois garotos pegavam um barco e passavam a tarde inteira no lago pescando. Sabia que meus sonhos de pescar teriam que esperar, porque crianças e anzóis não se misturam. Ainda assim, esperava que chegasse a nossa vez.

Chegou, um pouco antes do esperado. Há quatro anos, eu e os meus meninos voltamos do treino de futebol um dia e encontramos meu esposo todo animado. Ele havia encontrado "nossa casa". No começo, fiquei sem acreditar, mas depois vi as fotos. A casa em si não era digna de notar, mas tinha uma característica emocionante. O quintal descia até um lago. Nas 12 semanas seguintes, trabalhamos mais do que nunca em nossas vidas e, em uma manhã mágica, acordamos com a visão de uma águia, voando sobre nuvens ondulantes. Parecia um milagre.

De fato, posso dizer que amo a vida no lago ainda mais do que eu previa. É quase vergonhoso ser tão abençoada. Todos deveriam poder desfrutar desses prazeres sublimes: os passeios pela tarde, as jantas pela noite, as manhãs tomando café na varanda fresca e sombreada. Eu até aprecio o cuidado difícil do quintal e as horas gastas lutando contra as plantas invasoras do meu caiaque. Para mim, a água parece parte da casa. Nenhum outro lugar jamais me deu esse mesmo sentimento de paz. Enquanto isso, é difícil imaginar um lugar melhor para criar cinco filhos. Isso, é claro, nos leva de volta à pesca.

Nós obviamente queríamos pescar, mas por onde começar? Como ninguém na família sabia pescar, passei os meses de inverno aprendendo com vídeos no Youtube. Na primavera, os peixinhos menores chegaram perto da beira do lago, e eu sabia que seria o momento. Em um dia de heroísmo, prometi fazer uma refeição com a primeira pesca real dos meninos. Eles pegaram nove dourados em uma única tarde e, de repente, fui eu quem estava com um peixe mordendo a isca na vara de pesca.

Era estranho como eu sonhava em pescar por anos sem perceber completamente que isso envolvia matar. As músicas da fogueira dos acampamentos da minha juventude e os encantadores folhetos da igreja nunca enfatizaram esse ponto. Não obstante, filetei esses nove dourados e muitos outros depois. Até agora, muitos peixes já passaram por minha faca. Gosto de servir aos convidados uma refeição do lago à mesa, e a pesca em si é uma maneira emocionante de abraçar nossa casa aquática. Ainda assim, nunca mais me permiti esquecer que os pescadores são trazedores de morte.

Um pescador alcança mundos, inserindo-se com habilidade e astúcia em um mundo que nenhum ser humano poderia habitar. De certa forma, um pescador é um embaixador dos peixes, mas seu toque não é gentil. Um pescador não dá ouvidos ao conselho de Aliyyah Eniath de "tirar apenas fotos, não deixar nada além de pegadas e matar apenas o tempo".

Na imaginação popular, os caçadores humanos são frequentemente vistos como assustadores e predadores, enquanto o pescador apresenta uma figura mais benigna. Sua vítima fria e aparência alienígena não é do tipo que inspira fortes simpatias em humanos. Para o pescador, porém, é diferente. Ele sente por sua presa escamosa, admirando a beleza etérea única do peixe, mesmo quando afunda a faca no animal.

Por que Cristo escolheu esses homens como seus primeiros discípulos? Através de sua vida e ensinamentos, nosso Senhor trouxe honra a muitas profissões: o carpinteiro, o jardineiro, o pastor. Claramente, Jesus viu a dignidade do trabalho honesto feito por homens comuns. Esses outros homens, porém, são criadores e protetores. Eles nutrem os seres vivos e fazem uso dos frutos da terra. Esses homens não são predadores humanos, como o pescador. No entanto, Cristo escolheu os pescadores para serem seus primeiros emissários no mundo. Não podemos duvidar que essa escolha foi deliberada: "de agora em diante", disse Jesus ao assombrado São Pedro, "você será pescador de homens" (Lc 5,10).

Penso nisso quando pego um peixe no gancho, procurando na água um brilho de escamas. Como convertida à fé católica, entendo de maneira pessoal como o batismo pode trazer um profundo sentimento de frustração e perda. O Evangelho é bonito e, finalmente, dá vida, mas seu abraço inicial pode ser doloroso. Muitos relacionamentos próximos mudam abruptamente. Os preciosos planos de vida devem ser reformulados. Antes que possamos experimentar o renascimento, devemos primeiro morrer para nós mesmos. Um pescador pode entender isso. Ele já vive nas margens, onde a vida e a morte se juntam em um abraço apertado.

O pescador também sabe que deve abordar seu trabalho com imaginação, destreza e uma simpatia viva. Nenhum pescador teve sucesso em pé em seu barco, teorizando sobre a superioridade do mundo acima das ondas. Com observação cuidadosa e habilidade praticada, o pescador deve alcançar um território desconhecido, saindo para encontrar os peixes onde eles estão. Os evangelistas também precisam dessa habilidade. Eles não são vendedores. Eles são caçadores. 

É preciso muito discernimento e uma imensa humildade para trazer o Evangelho à vida de outra pessoa. Devemos seguir cada trilha aonde nos conduz, sempre focando na outra pessoa e não em nós mesmos, entendendo que as consequências podem ser dolorosas de maneiras imprevistas. Isto está finalmente nas mãos de Deus, não nas nossas. Quando São Pedro deixou suas redes para seguir Jesus, ele claramente não tinha noção de onde aquela jornada terminaria.

Poucas coisas na vida são tão emocionantes quanto o momento abençoado em que minha vara de repente bate na minha mão, indicando a presença de um peixe. Por alguns segundos ou minutos sem fôlego, sou uma predadora séria, totalmente concentrada na perseguição. Quando mantenho minhas presas comigo, no entanto, fico inundada com um humilde senso de reverência. Em parte, estou admirando a beleza do peixe. Ao mesmo tempo, tenho consciência de uma estranha conexão entre nós. Nós dois amamos este lugar único, onde o vento e a água se encontram. Mas nós dois fomos pegos de várias maneiras. Sabemos como a vida e a morte podem estar entrelaçadas. No final, eu sou a pescadora ou o peixe? Talvez o bom evangelista saiba que esta pergunta não tem uma resposta clara.

Publicado originalmente na American Magazine


Tradução: Ramón Lara

*Rachel Lu é escritora freelancer e instrutora de filosofia. Atualmente mora em Saint Paul, Minnesota.



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