Religião

31/07/2020 | domtotal.com

Exercícios Espirituais e Companhia de Jesus são legados de Santo Inácio ao mundo

Igreja celebra Inácio de Loyola a 31 de julho, fundador dos jesuítas e propositor de uma mística para nossos tempos

Afresco da aprovação do estatuto da Companhia de Jesus na Igreja de Nossa Senhora das Neves em Olomouc ( República Tcheca ), pintado por Jan Krystof Handke
Afresco da aprovação do estatuto da Companhia de Jesus na Igreja de Nossa Senhora das Neves em Olomouc ( República Tcheca ), pintado por Jan Krystof Handke (Wikimedia)

Gilmar Pereira*

"Os jesuítas ainda existem?" – uma pergunta que ouvi inúmeras vezes. Existem e são muito ativos, por sinal. Espalhados por todo o mundo, os membros da Companhia de Jesus continuam atuando na linha do seu fundador, Inácio de Loyola, que se celebra à 31 de julho.

História talvez não seja o forte do brasileiro médio, acusado de ter pouca memória. Contudo, para além disso, alguns ainda se lembram de estudarem sobre os jesuítas na escola, mas tudo como uma lembrança vaga. Há quem ainda faça uma miscelânea entre eles, franciscanos, dominicanos, carmelitas e saem esbravejando: "eles acabaram com os índios!".

Particularmente, entendo um pouco dessa confusão. Jesuítas são muito complexos. Dizem que se você perguntar uma coisa para três deles, sai com cinco opiniões e uma bibliografia (grande). Isso se deve não só aos extensos estudos e processos de desenvolvimento humano que passam, mas sobretudo à liberdade e à criatividade que os Exercícios Espirituais de Santo Inácio suscitam.

Sendo assim, quando se fala dos Sete Povos da Missão, por exemplo, não se pode compreender as reduções jesuítas do período colonial nem como ação negativa da Igreja, nem na perspectiva altamente elogiosa de um livro como A república "comunista" cristã dos guaranis: 1610-1768. Não se pode, nem os filhos de Inácio o deixam – eles são muito críticos e autocríticos.

Essa complexidade dinâmica da Companhia, extraída de sua espiritualidade, encontra-se primeiro na figura de seu fundador. Aliás, muita das vezes se ouve dizer que Inácio era militar, o que não é verdade, embora tenha lutado no cerco de Pamplona aos moldes da realidade cavalheiresca da época. Esse suposto militarismo fez com que fosse nomeado a posteriori padroeiro da Infantaria do Exército Brasileiro, além de criar no imaginário a ideia do jesuíta como um soldado de Cristo.

Muito dos equívocos sobre Inácio e a Companhia de Jesus se dá pelos embates que os jesuítas tiveram com os iluministas, particularmente o marquês de Pombal. A influência e o poder desse grupo fizeram com que o papa Clemente XIV, incitado por Carlos III de Espanha, promulgasse um breve suprimindo a Companhia. Como a história é dos vencedores, não dos vencidos, grande parte do que ficou registrado foi a versão dos seus detratores.

Como o breve do papa só tinha validade onde o rei ou imperador local fizesse valer, a Companhia de Jesus sobreviveu sob o auspício da Czarina Catarina da Rússia. Sua restauração no âmbito universal da Igreja só se deu em 1814, mas sua presença, desde então parece mais discreta. Talvez seu maior reavivamento tenha sido sob o generalato de padre Pedro Arrupe, com a Congregação Geral 32ª (CG32), instância máxima da ordem em que se discutiu o estado do corpo apostólico e da missão no espírito do Concílio Vaticano II.

Como uma espécie de novo Pentecostes, a CG32 inflamou os jesuítas a serem como "um fogo que acende outros fogos", no serviço da fé e promoção da justiça. Esse resgate do seu carisma foi fundamental para que o tesouro dos Exercícios Espirituais fosse revisitado por toda a Igreja e mais pessoas pudessem tomar os caminhos originais de seguimento a Jesus Cristo suscitados pelo Espírito. Assim, jesuítas e leigos inacianos estão presentes nos mais distintos trabalhos, conforme se sentem chamados e discernem na oração.

Choca algumas pessoas que padres e irmãos religiosos sejam cientistas, atores, palhaços, astrônomos, fotógrafos, historiadores, médicos, artista plásticos, cineastas, poetas etc. Isso porque promover o Reino de Deus, na concepção inaciana, não se resume a falar de temas religiosos. Antes, passa por colaborar na realização do humano, imagem e semelhança de Deus. Isso se expressará desde a atuação na educação, para que as crianças se desenvolvam da melhor maneira possível, até a pesquisa em laboratório, junto das ciências, para que todos tenham melhor qualidade de vida e o conhecimento humano expanda.

Por isso é difícil definir a Companhia de Jesus, porque os jesuítas não se traduzem pelo que fazem, mas como fazem e pelo que os inspira: colocar-se "sob a bandeira de Cristo". Essa ação exige discernimento diário para adequar as novas disposições da vida àquilo que Deus chama cada um, individualmente e como corpo apostólico.

Essa originalidade é o que torna Inácio uma figura mais complexa do que a imagem de um militar sisudo e cheio de regras. Basta lembrar daquele homem que foi estudar latim numa turma de crianças, a fim de dar conta dos estudos que lhe seriam exigidos, sem temer ser ridículo. Daquele duro basco, mas que também era sensível e se banhava em lágrimas durante as orações. Este mesmo que fez uma dança típica de sua época para alegrar um irmão acamado. Foi esse homem que trilhou um caminho de santidade e o registrou de modo que outros também pudessem fazê-lo – nos Exercícios Espirituais – e que se associou a outros para melhor servir – na Companhia de Jesus – e que inspira não só religiosos, mas leigos, homens e mulheres, pelo mundo todo.


No Especial de hoje vemos como, em meio a uma época de mudanças aceleradas e múltiplas vozes, a espiritualidade inaciana pode ajudar a discernir caminhos. Isso o vemos no texto Inácio, um homem à frente do seu tempo, de Luiz Beltrão. Já Patrícia Rodrigues, no artigo O que a espiritualidade inaciana tem a nos oferecer em 2020?, relata como Inácio de Loyola ensina uma trilha rumo ao melhor de nós e do mundo, no encontro com Deus e o próximo. Rompendo com a ideia de que essa mística pudesse ser entendida como algo para apenas quem tem votos religiosos ou que fosse apenas masculina, Elaine de Azevedo Maria escreve A espiritualidade inaciana e as mulheres. Nesse artigo ela mostra como essa espiritualidade é espaço que possibilita a atuação das mulheres, conferindo-lhes protagonismo.

*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, possui estudos em Fotografia e cursa psicanálise. Professor, mestre de cerimônias e responsável pela editoria de religião do portal Dom Total.



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