Cultura

31/07/2020 | domtotal.com

Sidarta para iniciantes

Um dia Sidarta estava meditando sob uma árvore e alcançou a iluminação

Dizem que o verdadeiro caminho em nosso deserto pessoal é solitário
Dizem que o verdadeiro caminho em nosso deserto pessoal é solitário (Unsplash/Rattap)

Fernando Fabbrini*

Contam que o pequeno príncipe Sidarta Gautama pertencia a uma família riquíssima e vivia na maior folga num castelo da Índia. Os pais cercavam-no de tudo quanto era bonito e agradável: joias, músicas, danças, comidas fantásticas, perfumes, roupas. E quando virou rapaz tinha um sem-número de lindas e sensuais moçoilas à sua volta. A preocupação do rei e da rainha era proteger o filho e evitar que sofresse com as tristezas desse mundo. Só que... exageradamente, como fazem hoje muitos pais e mães.

Pois lá seguia o Sidarta, num vidão daqueles. Mesmo assim, o rapaz não se sentia feliz. Faltava alguma coisa. Volta e meia era tomado por um tédio profundo, um não-sei-o-quê incômodo. Desencantado, mandava tudo às favas; recolhia-se e olhava as estrelas, perdido em pensamentos e emoções. Um dia, cismou sair do castelo e dar uma voltinha pela cidade – passeio que nunca tinha feito. Que nada! No portão, foi gentilmente impedido pelos guardas da corte:

— Vossa alteza não pode sair! – disseram-lhe. São ordens de seus pais!

Sidarta ficou bravo. Puxa: era um príncipe, poderoso e coisa e tal, e não lhe era permitido sequer um rolêzinho pelas redondezas? Sacanagem, pô. Ele não desistiu. Certa manhã, disfarçado com roupas comuns, esgueirou-se pela porta dos fundos, enganou os guardas e ganhou a rua. Foi um choque, um tapa na moleira. Bastou andar alguns quarteirões para enxergar a realidade que seus pais lhe escondiam desde o nascimento. Viu mendigos pedindo esmolas, gente doente, faminta e miserável pelas ruas, dor e penúria. E, pela primeira vez, viu um funeral. Caiu na real, um tombo daqueles.

A experiência mudou tudo. Sidarta abandonou as mordomias do castelo, fugiu para o deserto e passou a vida meditando, refletindo sobre a condição humana, o prazer, o sofrimento e a morte. Um dia, sob uma árvore, finalmente entendeu e sentiu tudo; mergulhou na paz, na serenidade verdadeira, passando a ser conhecido como o Buda.

Gosto dessa história principalmente porque, guardadas as devidas proporções e eventuais fantasias, ela faz uma analogia perfeita com a nossa vida comum. Por mais que nos cerquemos de roupas de grife, baladas, show de rock, carros do ano, chocolates e casos de amor – delícias de nosso castelo – dentro de nós costuma permanecer um certo vazio. Isso varia de um para outro; o tempo e a intensidade dessa "desilusão" não é igual para todos. No entanto, mais dia, menos dia, pode bater o tal desassossego.

Alguns piram: mergulham ainda mais no chocolate, nos delírios, nas roupas de grife, nas paixões – inutilmente. Outros, para piorar, vão buscar o indizível nas drogas, na bebida, na lista interminável de vícios à disposição dos humanos. Outros ainda disparam a procurar guias para jornadas em seus desertos particulares.

Aí é preciso cuidado. Há gente boa, mas também charlatões que se se dizem mestres dessa cura dos males da alma – só que por dinheiro. Na Índia, por exemplo, existia um "iluminado" que cobrava fortunas de incautos para que encontrassem a paz cantando mantras – enquanto quebravam pedras o dia inteiro. Seu "ashram" vivia cheio. As pedras ele vendia para construtores de casas e tornou-se milionário. Não há relatos de "iluminações" dos seus ingênuos seguidores.

Dizem que o verdadeiro caminho em nosso deserto pessoal é solitário, quase nunca em grupos, particularíssimo, surpreendente e muitas vezes difícil. O que desconfio é que, assim como o príncipe Sidarta, a caminhada começa lá dentro da gente e sua chegada ocorre – que surpresa! – no mesmo ponto da partida. Somente lá. E em nenhum outro lugar, coisa, pessoa, atividade, mania, seita, delírio ou ilusão.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal 'O Tempo'.



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