Religião

31/07/2020 | domtotal.com

Como a Igreja age politicamente?

Um resumo breve sobre a diplomacia 'sui generis' da Igreja Católica.

Papa Francisco recebe Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil, durante a canonização de Irmã Dulce, em outubro de 2019, no Vaticano
Papa Francisco recebe Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil, durante a canonização de Irmã Dulce, em outubro de 2019, no Vaticano (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

Não é raro ver as pessoas questionarem os rumos tomados pela diplomacia vaticana diante de determinadas situações. Em temos de Francisco, o secretário de estado é o cardeal Pietro Parolin, que já pode ser considerado um dos maiores estrategistas pontifícios da era contemporânea, na opinião de especialistas. Um diplomata experiente que carrega na bagagem uma longa experiência em terras estrangeiras, inclusive com passagem pela América Latina.

Atualmente, são 183 países com os quais, oficialmente, Santa Sé estabelece diálogo. Por isso é importante entender os pormenores das relações entre a Igreja e os estados, bem como a natureza do organismo que coordena essas relações. Só assim, seremos mais honestos em nossas análises, sem cair naquela interpretação pífia de que a Igreja "deva quebrar regras" sem se importar com os conflitos diplomáticos que possam surgir.

É muito fácil questionar sobre o acordo recente entre Santa Sé e a China ou pedir que a instituição seja mais combativa em relação à crise da Venezuela. Difícil é tentar compreender os motivos que levam a instituição ora a silenciar ora a manifestar-se sobre determinadas questões.

Sem adentrar em temas específicas neste artigo, os quais exigem um texto dedicado a eles - como no caso da China - precisamos compreender que a Santa Sé, como representante da Igreja Católica, é um sujeito soberano de direito internacional. E a única organização religiosa dotada de um estado soberano. Portanto, a Santa Sé, considerando o seu grau de representatividade, "faz política" - no melhor sentido da palavra -, não politicagem, o que é completamente diferente. 

Durante a eleição de um pontífice, o voto vai para o candidato que mais corresponda aos anseios da instituição, e se adeque, naquele momento específico, às suas necessidades. Portanto, considerar que um conclave se submeta às exigências de um establishment, e não esteja condicionado aos parâmetros pré-estabelecidos pela própria instituição, não condiz, sequer, com a própria missão do papado.

Os sumos pontífices de transição são eleitos para atuarem com uma certa continuidade em relação ao governo de seus antecessores, sobretudo quando os cardeais sentem que não é a hora de realizar mudanças bruscas (Basta lembrar da transição entre João Paulo II e Bento XVI). Já os pontífices mais jovens são escolhidos para levar uma certa "vitalidade" às estruturas. Outros papas levam a tiara para lidar com situações mais específicas, que exijam uma certa "perspicácia diplomática", como foi o caso de João XXIII, o papa que promoveu o diálogo em plena Guerra Fria.

Francisco se enquadra neste último caso. Um papa considerado "outsider" em relação a determinados padrões, mas escolhido para desempenhar um papel que o distingue dos demais: devolver a credibilidade à Igreja, abalada pelos escândalos que marcaram os últimos anos de pontificado de Bento XVI. E não só: para satisfazer os desejos de mudança em relação à própria estrutura da cúria romana, que herda aquele espírito de "corte renascentista" que os pontífices contemporâneos pós-conciliares tentaram combater, sem sucesso.

Como explica a historiadora Rita Almeida de Carvalho, em artigo publicado pela revista científica História e Relações Internacionais, "o papado hoje, poder neutro sem quaisquer aspirações de natureza temporal, é totalmente independente e livre de todos os laços humanos que o constrangem e obrigam".

Em outras palavras, a Igreja pensa em si e na sua soberania, de modo que ela se destaque no cenário internacional, e assim garanta a sua liberdade de culto e de atuação em todos os territórios. Não há interesses econômicos, militares ou comerciais em jogo, mas o desejo de salvaguardar a liberdade de 1 bilhão de membros e se tornar um instrumento de mediação e um promotor da dignidade humana, sobretudo em situações de conflito.

Se a Igreja considera que a política, enquanto agente promotor da dignidade humana, não cumpre o seu papel, em muitas ocasiões ela se pronuncia, mesmo que demore a fazê-lo. Papa Francisco, não por acaso, pede insistentemente, sobretudo neste período, um cessar-fogo global, citando, inclusive a situação na Síria. O país, arrasado pela guerra, encontra-se em ruínas por causa disputa entre americanos e russos. A Igreja compra a briga de pessoas, não de partidos. O que é diferente.

Ainda de acordo com a estudiosa, "a Igreja Católica procura assim contribuir para a criação de uma nova ordem social, baseada na lei divina e nos ensinamentos cristãos contidos no Evangelho. A diplomacia papal é um instrumento desta pretensão, faz parte da organização transnacional da Igreja concebida para exercer influência".

O bispo Silvano Tommasi, que foi observador permanente da Santa Sé junto à ONU até 2016, explica que a Igreja Católica "trabalha com as nações para que a força da lei prevaleça sobre a lei da força". E o papa, nesse sentido, atua como agente pacificador e conciliador: características assumidas mais concretamente pelo pontífice romano a partir do último grande concílio ecumênico da década de 60. Como disse João Paulo II, em 1998, "a sua missão diplomática era ajudar os indivíduos a cumprirem ο seu destino em paz e harmonia, com vista ao bem comum e ao desenvolvimento integral dos indivíduo".

Por isso a diplomacia pontifícia é considerada sui generis, ou seja, é diferente de todas as outras no tocante aos próprios objetivos que a motivam. Sua soberania moral se exerce sobre pessoas, não sobre territórios. É por isso que quando o papa visita um país estrangeiro, o faz a convite da Igreja local, não das autoridades civis.

Cobrar de Papa Francisco ou de qualquer outro pontífice pronunciamentos incisivos diante de situações delicadas é desconsiderar o peso dessa estrutura que o precede. Há quem critique as "omissões papais" sem sequer conhecer o status quo do Vaticano junto à comunidade internacional. Quer queira, quer não, a Igreja é amparada por um estado que oferece garantias não só à sua subsistência, mas à subsistência de toda a cristandade.

Em tempos de tanto obscurantismo intelectual, nada melhor que nos lembrarmos que estamos diante de uma instituição milenar, a qual precisa ser estudada com afinco para poder ser compreendida. Só assim, nos livraremos das investidas ideológicas que ameaçam sua missão e atrapalham suas investidas diplomáticas em vista da harmonia e do bem comum.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.



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