Religião

31/07/2020 | domtotal.com

Padre-geral dos jesuítas escreve sobre o dia de Santo Inácio de Loyola

Padre Arturo Sosa aponta os rumos para a celebração do ano inaciano que inicia em maio de 2021

Padre Arturo Sosa na capela erigida nos antigos aposentos de Santo Inácio em Roma pouco depois de ser eleito prepósito geral da Companhia de Jesus
Padre Arturo Sosa na capela erigida nos antigos aposentos de Santo Inácio em Roma pouco depois de ser eleito prepósito geral da Companhia de Jesus (GC36 Communications)

Por ocasião da festa litúrgica de Santo Inácio de Loyola, celebrada nesta sexta-feira (31), o prepósito-geral dos jesuítas, Arturo Sosa, escreve carta a toda Companhia de Jesus e à comunidade inaciana. No texto, padre Sosa aponta o espírito com o qual a ordem fundada por Inácio, colaboradores e pessoas de espiritualidade inaciana devem celebrar o ano dedicado ao santo de Loyola, prevista para o período de maio de 2021 a maio de 2022.

Leia a íntegra da carta:

Festa de Santo Inácio de Loyola 2020 - Mensagem do padre-geral Arturo Sosa, SJ

A oportunidade do Ano Inaciano 2021-2022

Recordar Santo Inácio e celebrar sua festa é ocasião para partilhar algumas reflexões sobre o Ano Inaciano que se inicia no próximo mês de maio de 2021. O Ano Inaciano de 2021-2022 nos oferece uma grande oportunidade que – oxalá! – poderemos aproveitar a fundo, sem deixá-la passar despercebida. É um apelo para que permitamos ao Senhor trabalhar nossa conversão. Peçamos a graça de sermos renovados pelo Senhor. Desejamos descobrir um novo entusiasmo interior e apostólico, uma nova vida, novos caminhos para seguir o Senhor. Por este motivo escolhemos como lema deste ano: ver novas todas as coisas em Cristo.

Todo este ano será orientado pelas Preferências Apostólicas Universais de 2019-2029. Sabemos que assimilá-las supõe a conversão de cada um de nós, de nossas comunidades e de nossas instituições ou obras apostólicas. Peçamos a graça de uma mudança real em nossa vida-missão de cada dia.

Neste momento, eu me dirijo especialmente a nossos companheiros e companheiras de missão, leigos, leigas, religiosos, religiosas e todos os que, mesmo de outras crenças ou convicções humanas, participam da nossa mesma luta. Esperamos, durante o Ano Inaciano, compartilhar com vocês a experiência fundacional pela qual o corpo apostólico da Companhia participa na missão de reconciliar todas as coisas em Cristo. 

Muitos de vocês têm profundo compromisso com esta inspiração, com o carisma que dá vida à Companhia de Jesus. Agradeço ao Senhor por esta graça e a cada um de vocês por seu entusiasmo e proximidade conosco. Queremos aproveitar o Ano Inaciano para acompanhar mais de perto o trabalho que o Espírito Santo está fazendo em cada um, e que cada um possa sentir este chamado mais profundamente.

Digo aos jovens: queremos aprender como acompanhá-los. É de vocês que queremos aprender. Cada um de vocês é único, nascido com um projeto especial. Inácio lutou para descobrir o sentido de sua vida. Nele se pode encontrar a inspiração para a busca que cada um de vocês faz para fazer de suas vidas algo significativo, uma contribuição para um mundo melhor, onde se respeite a dignidade das pessoas e se conviva alegremente com a natureza. Nosso desejo é acompanhá-los por meio de nossas atividades, e, sobretudo, por meio de nossas próprias pessoas, dispostas a partilhar tempo, sonhos e esperança.

A meus irmãos jesuítas de todas as gerações, dispersos por todo o mundo, digo que o Ano Inaciano é um novo apelo para nos inspirarmos em Santo Inácio, o Peregrino. Sua luta interior e sua conversão o levaram a uma familiaridade muito próxima com Deus. Esta familiaridade, este intenso amor, permitiu-lhe encontrar Deus em todas as coisas e a inspirar outros para formarem, juntos, um corpo apostólico, cheio de zelo missionário. Somos herdeiros deste carisma e responsáveis por sua continuidade nos tempos em que vivemos.

Para Inácio, uma vida de pobreza era expressão da intimidade com Jesus, o Senhor. Mais que palavras, sua pobreza foi sinal de sua transformação interior, de sua crescente vulnerabilidade perante o Senhor, de sua indiferença radical na disposição de seguir a vontade de Deus, de sua convicção de que do alto tudo procede como um dom.

Como podemos nós, os atuais membros da Companhia de Jesus, receber e vivenciar esta graça da pobreza evangélica?

Em primeiro lugar, vivenciando de perto a vida de Jesus tal como a vivenciaram Inácio e seus primeiros companheiros. Sim, um relacionamento íntimo com o Senhor é possível se o desejamos e pedimos com insistência, como já aprendemos nos Exercícios Espirituais. Esta intimidade nos é dada não para a desfrutarmos, cada um de nós, tranquilamente. Ao contrário, é uma intimidade que nos capacita a amar e seguir Jesus mais de perto; Ele continua a nos chamar, especialmente através dos mais pobres e marginalizados, através do grito da terra, através de tudo o que é vulnerável. Para os primeiros companheiros a vida em pobreza, individual e comunitária, sempre acompanhou o cuidado com os pobres. Esta é uma parte essencial do carisma que herdamos.

Guiados pelo discernimento das Preferências Apostólicas Universais acolhemos o desafio de ouvir o grito dos pobres, dos excluídos, daqueles cuja dignidade foi violada. Aceitamos caminhar com eles, e promover juntos a transformação das estruturas injustas manifestas claramente na atual crise mundial. Permitam-me ser claro: esta crise não é apenas sanitária e econômica, mas, sobretudo, social e política. 

A pandemia da Covid-19 revelou as graves deficiências das relações sociais em todos os níveis, na des-ordem internacional e nas causas do desequilíbrio ecológico. Somente o amor a Jesus traz a cura definitiva. E somente poderemos ser testemunhas deste amor se estivermos estreitamente unidos a Ele, unidos conosco mesmos e com os que o mundo descarta.

Viver nosso voto de pobreza nas atuais condições do mundo exigirá mudanças em nossa cultura organizativa. O percurso dos Exercícios Espirituais pode ser nosso guia, começando pela profunda renovação de nossa liberdade interior rumo à indiferença e à disponibilidade ao “que mais convém”. Precisamos também reconhecer nossas deficiências e, inclusive os pecados nesta matéria, para poder alcançar nossa própria identificação com o Jesus pobre e humilde dos Evangelhos. Peçamos agora, como já tantas vezes o fizemos na contemplação do chamado do Rei Eterno [EE 98], a graça de renovar nosso desejo de imitá-lo “sofrendo todas as injúrias, toda ignomínia e toda pobreza, tanto atual como espiritual”.

É como jesuítas que devemos nos perguntar o que significa, em nosso tempo introduzir mudanças em nossa vida de pobreza religiosa para torná-la mais estrita. No texto inaciano a expressão completa diz que, segundo as exigências dos tempos, veja-se se é necessário introduzir mudanças que a tornem mais estrita. O que queremos fazer é entender quais são as demandas destes tempos visando também o futuro. O exame de nossa vida de pobreza se converte na forma concreta de inspirar a conversão para uma recristianização de nossa vida-missão.

Queridos irmãos jesuítas, queridos companheiros e companheiras de missão, este pode ser um momento transformador para a Companhia de Jesus. Pode ser um momento que nos traga nova energia, nova liberdade, novas iniciativas, novo amor pelos outros e para com nossos irmãos e irmãs mais sofridos. Ao recordar Santo Inácio de Loyola e sua conversão encontramos alento. Sim, uma mudança é possível. Sim, nosso “coração de pedra” pode se converter em “coração de carne”. Sim, nosso mundo pode encontrar novas formas para ir adiante. Ponhamos nossas mãos nas de Jesus, nosso irmão e amigo, e partamos rumo a um futuro incerto, mas esperançoso, tendo confiança de que Ele está conosco e que seu Espírito está nos guiando.

Santo Inácio de Loyola, rogai por nós.

Que o Senhor nos abençoe enquanto caminhamos com Ele.



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