Cultura

31/07/2020 | domtotal.com

Tolicionário sem fim

Uma enciclopédia da estupidez humana seria hoje uma obra bem pertinente

'O bobo rindo', quadro de autor holandês, possivelmente Jacob Cornelisz. Van Oostsanen
'O bobo rindo', quadro de autor holandês, possivelmente Jacob Cornelisz. Van Oostsanen (Wikimedia/ Google Arts)

Eleonora Santa Rosa*

Vontade de reler alguns clássicos, dentre eles o desconcertante Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert, último romance do escritor, publicado após a sua morte, uma sátira de primeira linha, tendo como foco as pretensões, os ideais de dois "palermas", dois copistas, personagens pequeno-burgueses, medíocres, com um vida sem graça e restrita, incomodados e insatisfeitos com as limitações e pequenezas de suas existências. Embora inacabado, o autor chegou a traçar o que seria o conteúdo de um segundo tomo em que essas duas figuras simplórias, desiludidas, se dedicariam, após a frustração de seus planos iniciais, como copistas, a levantar e transcrever todo o tipo de asneira, de estupidez dos livros que leem,  do que ouvem ou tomam conhecimento pelos periódicos ou por meio de  grandes autores.  O Dicionário das ideias feitas, embora pensado como uma obra à parte, acabaria encadeado, como desdobramento, uma espécie de 'Tolicionário', como bem apontou Augusto de Campos, absolutamente genial e divertidíssimo.

Trata-se uma súmula da monotonia, da falta de graça, da mediocridade e insensatez humanas e que hoje seria atualizada em profusão inacreditável. Esses dois funcionários modestos, a partir de uma herança recebida por um deles, Bouvard, compram uma casa no interior da França e partem para uma empreitada de cunho intelectual com o propósito de alargar seu conhecimento nos mais variados campos: história, agricultura, política, filosofia, pedagogia, dentre outros. No entanto, nada dá certo, não compreendem nada e naufragam em seus objetivos, frustrados por seus erros e incompreensão.

A pena afiada, ácida e sarcástica de Flaubert produziria, no fim da vida, esta obra implacável, ainda desconhecida por muitos, uma espécie de "enciclopédia da estupidez humana", aliás, tema atualíssimo, se pensarmos na imensidão da mediocridade e da estupidez que nos cercam, e nos milhares de tipos como eles que chegaram, inclusive, ao poder supremo da nação.

Para deleite pessoal e dos leitores, reproduzo aqui, aleatoriamente, a paródia flaubertiana, que na edição brasileira de Bouvard e Pécuchet constam como apêndice, sob a denominação o Dicionário de ideias feitas, juntamente do Catálogo de ideias chiques e de uma seleta de citações de autores anônimos ou de renome recolhidas pelo escritor, sob o signo da tolice e da imbecilidade.

A epígrafe do dicionário, por si, já é uma curtição:

"Devemos convir que toda ideia pública, toda convenção herdada, é uma tolice, pois convém à maioria". (Chamfort, Máximas)

Catálogo das Opiniões Chiques

A

Agricultura – Falta de braços.

Alcorão – Livro de Maomé que só se ocupa de mulheres.

Advogados – Há excesso de advogados na câmara. – Falseiam o julgamento – Deve-se dizer de um advogado que fala mal: sim, mas ele é forte em direito.

Água – A água de Paris produz cólicas. – A água do mar faz flutuar o corpo dos nadadores. – A água de colônia cheira bem.

Artistas – Todos farsantes – Elogiar-lhes o desprendimento (velhos). – Espantar-se de que se vistam como todo mundo (velhos). – Ganham somas alucinantes, mas jogam tudo pela janela. – São sempre convidados para cear. – A mulher artista é sempre dissoluta.

Artes – Completamente inúteis, pois podem ser substituídas pelas máquinas, que fabricam mais rapidamente.

B

Bandeira (nacional) – Sua vista faz bater o coração.

Bocejo – É preciso dizer: "Perdão, não é fastio, é do estômago".

Barba – Sinal de força. – Muita barba faz cair os cabelos. – Útil para proteger as gravatas.

Bases (da sociedade) – São a propriedade, a família, a religião, o respeito às autoridades. – Falar encolerizado quando as atacam.

Budismo – "Falsa religião da Índia (definição do Dicionário Mouillet, 1ª edição).

C

Calvície – Quando precoce, é causada por excessos na juventude, ou pela concepção de grandes pensamentos.

Clássicos – Deve-se fingir conhecê-los.

Cavalaria – Mais nobre do que a Infantaria.

Censura – Deve-se dizer que é útil.

Celebridades – Preocupar-se com o mínimo detalhe de sua vida privada, para poder difamá-las.

Chulé – Sinal de saúde.

Claro-escuro – Não se sabe o que é.

Constipação – Todos os homens de letras são constipados. – Influi sobre as convicções políticas.

Corcundas – Têm muito espírito. – São muito procurados pelas mulheres lascivas.

Crucifixo – Benéfico numa alcova, ou na guilhotina.

D

Dentadura postiça – Terceira dentição. Tomar cuidado para não engoli-la enquanto se dorme.

Derrota – É tão completa que não resta ninguém para levar a notícia.

Dicionário – Dizer: "é feito para os ignorantes!".

Dúvida – Pior que a negação.

E

Enciclopédia – Ironizá-la como obra de rococó ou mesmo combatê-la

Ereção – Só se diz com referência a monumentos.

Erudição – Desprezá-la como prova de espírito limitado.

Escroques – São sempre da alta sociedade.

F

Filosofia – Devemos sempre escarnecê-la.

Fundamento – Todas as notícias não têm fundamento.

G

Geração espontânea – Ideias de socialistas.

Grupo – Convém sobre a lareira e em política.

Gozar – Palavra obscena.

H

Hipócrates – Deve-se sempre citá-lo em latim, porque ele escrevia em grego.

Histeria – Confundi-la com a ninfomania.

Homero – Nunca existiu. – Célebre pela sua maneira de rir: um riso homérico.

I

Ideólogo – Todos os jornalistas o são.

Ideal – Inteiramente inútil.

Imbecis (sic) – Aqueles que não pensam como nós.

Imoralidade – Bem pronunciada, essa palavra realça aquele que a emprega.

Imperialistas – Todos gente honesta, pacífica polida, distinta.

Instrução – Fazer crer que a recebemos bastante. –  O povo não precisa de instrução para ganhar a vida.

Inventores – Morrem todos no hospital. – Há sempre alguém que se aproveita de suas descobertas, o que não é justo.

L

Literatura – Ocupação dos ociosos.

M

Mar – Não tem fundo. Imagem do infinito – Provoca grandes pensamentos.

Metafísica – Rir-se da metafísica; mas dá um ar (é uma prova) de espírito superior.

Método – Não serve para nada.

Mercúrio – Acaba com a doença e com o doente.

Mito – ...

0

Outorga – Deve-se fraudá-la.

Operário – Sempre honesto, quando não provoca motins.

Orquestra – Imagem da sociedade; cada qual executa sua parte, e há um chefe.

Otimista – Equivalente a imbecil (sic).

P

Pensar – Uma coisa penosa; tudo que nos força a pensar, geralmente abandonamos.

Pirâmide – Construção inútil.

Poesia – Inteiramente inútil; passou de moda.

Prática – Vale mais do que a teoria.

Princípios – Sempre indiscutíveis; pouco importa a natureza, o seu número. São sagrados.

R

Reconhecimento – Não precisa ser manifestado.

Riqueza – Monopoliza tudo, até a consideração.

Retrato – O difícil é manter o sorriso.

S

Sífilis – Todo o mundo está mais ou menos contaminado.

T

Tolerância (Casa de) – Não é aquela onde há opiniões tolerantes.

V

Vizinhos – Procurar obter deles favores que não nos custem nada.

Voltaire – Célebre por causa de seu ricto horroroso – Superficial em Ciências.

Na próxima semana, se não ocorrer nenhuma surpresa no 'tolicionário' nacional, vamos ao extraordinário Catálogo das ideias convencionais.


Citações extraídas de Bouvard e Pécuchet – Gustave Flaubert – Edição Nova Fronteira – 1981 Tradução de Galeão Coutinho e Augusto Meyer.

*Eleonora Santa Rosa – Jornalista, gestora e estrategista cultural, ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR.



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