Religião

03/08/2020 | domtotal.com

Nem mesquita, nem igreja, defende muçulmano sobre Santa Sofia

O debate sobre a Hagia Sophia: uma abordagem a partir da teologia da libertação muçulmano-cristã

Hagia Sophia ao nascer do sol
Hagia Sophia ao nascer do sol (Flickr/Matthew e Heather)

Farid Esack*
Contending Morning

A recente decisão do Conselho de Estado turco e do presidente Erdogan de transformar a Hagia Sophia em uma mesquita gerou muito debate em todo o mundo muçulmano. Por um lado, há muitos, dentro e fora da Turquia, que apoiam a decisão.

Alguns que concordam com a decisão argumentam que a questão se refere principalmente à soberania nacional turca. Outros podem enquadrar a decisão como uma correção islâmica popular ao erro histórico cometido pelos kemalistas seculares, que transformaram a Hagia Sophia de mesquita em museu. Por outro lado, há quem defenda que o motivo da decisão é a agenda política restrita do partido populista do presidente turco Erdogan, que se opõe fundamentalmente às noções seculares liberais modernas do pluralismo religioso e étnico.

De fato, a Hagia Sophia é um local em constante disputas há mais de um milênio e desempenha um papel simbólico importante na forma como as histórias das civilizações imperiais bizantinas e otomanas são lembradas no presente.

Embora esses dois grupos tenham exercido papéis importantes no debate, há uma tensão mais fundamental em jogo, principalmente para cristãos e muçulmanos que se dedicam a alimentar ideias radicais de suas crenças com base em uma tradição compartilhada de uma crítica profética e libertadora do materialismo e do poder.

Tendo em conta o dano e a supremacia do liberalismo moderno e do secularismo no mundo islâmico, devemos afirmar fortemente o direito e a responsabilidade de muçulmanos e cristãos de construir o poder através de perspectivas e estruturas inspiradas na religião. Dito isto, devemos sempre perguntar: quais perspectivas e estruturas religiosas são essas? E de quem? É esse o cristianismo do imperador Constantino ou o cristianismo de Jesus e seus primeiros seguidores? Nas palavras de Ali Shariati (1958–1977): "Não basta dizer que devemos retornar ao Islã. Devemos especificar qual islamismo: o de Abu Zarr ou o de Marwan, o governante [...] um é o islã do califado, do palácio e dos reis. O outro é o islã do povo, dos explorados e dos pobres".

Como sugere o dissidente político turco muçulmano Ihsan Eliacik, a Hagia Sophia atualmente não é símbolo nem sinal do ethos e do poder proféticos para cristãos ou muçulmanos. Por que precisamos orar em um edifício tão grandioso quanto a Hagia Sophia (seja como cristãos, muçulmanos ou de outras religiões)? Eliacik sugere que escutemos o sangue, o suor e as lágrimas nessas paredes antes de pensar que os Profetas colocariam os pés em um lugar desses para adorar a Deus.

Os afrescos e as caligrafia cheias e excessivas, as colunas e as cúpulas, o mármore e os minaretes dizem muito mais sobre o lugar, apresentando-o como um símbolo aristocrático – como um símbolo da acumulação de riqueza e imperialismo religioso e étnico – do que um lugar para inspirar uma mensagem sobre um Deus de Justiça e de Misericórdia. A igreja de Jesus estava nas estradas de terra e nas ruas da Palestina, e a mesquita de Muhammad era feita de barro e de palmeiras.

Podemos imaginar seriamente Jesus ou Muhammad acompanhados por seus seguidores e brigando por um espaço pomposo e luxuoso, de poder e riqueza material como este? Muçulmanos e cristãos continuam jogando o mesmo jogo que nossos Profetas nos ensinaram a criticar. Inclusive, exortaram-nos a tirar o olho se nos faz pecar – até mesmo destruir aquilo que não é de Deus. Neste drama em torno de Hagia Sophia, cultuamos uma religião que é contra a religião verdadeira, em nome da religião. É um paradoxo!

Tanto o islã quanto o cristianismo ficam ainda mais desorientados de suas origens e potenciais basilares quando seus sultões, califas, papas e monarcas ficam obcecados em construir palácios, monumentos e símbolos de poder antiético em nome de sua religião – ostensivamente para a glória de Deus, mas, na verdade, é um gesto de narcisismo ao deus dos nafs (o eu inferior), desses líderes auto glorificados.

Historicamente, essa espoliação em larga escala ocorreu pela primeira vez no século 4º do cristianismo em Constantinopla e no primeiro século do islã em Damasco. (Alguns muçulmanos argumentariam que isso começou muito antes, quando alguns dos companheiros do Profeta já haviam se enriquecido com espólio da guerra e começavam a praticar nepotismo, ambos os fatos levaram o povo a amargos protestos contra o acúmulo de riqueza e demonstrações de ostentação pelo maior representante, o companheiro Abu Dharr al-Ghiffari [652 d.C.]).

A mensagem radical dos Profetas é basicamente dupla:

  1. Ao contrário do discurso do "Islã é paz" dos "muçulmanos moderados", atacar incansavelmente a tirania e desestabilizar – ou "tornar ingovernável" – ordens e governos injustos, e
  2. Buscar justiça para todos nas margens da sociedade e se esforçar para estabelecer apenas ordens sócio-políticas inspiradas por nossas fontes sagradas.

Os governantes não devem viver estilos de vida extravagantes, nem seus símbolos de soberania podem representar a acumulação bruta de riqueza e de poder. Devem sempre fazer o possível para se ater aos lares terrestres (sem mencionar ecologicamente amigáveis!) e humildes daqueles que seguem o caminho eterno da justiça.

Assim, constantemente temos que voltar a nos perguntar: estamos seguindo Jesus, ou o imperador Constantino? Estamos seguindo Muhammad, ou os assassinos de sua família e a tradição profética?

Preferimos ter um palácio em Damasco e Constantinopla ou uma morada humilde nesta vida que causa menos danos e nos beneficia de várias formas na outra vida, quando nossos palácios e templos ostentosos – como todas as construções terrenas – jazem em ruínas e o Transcendente pesa nossa justiça na balança?

Essas são as perguntas que devemos fazer de maneira honesta e crítica quando os nomes e símbolos de nossas religiões começam a ser sequestrado por idólatras "não-idólatras". Demonstrações superficiais de piedade e supremacia étnico-religiosas têm sido criticadas como formas ocultas de idolatria pelos Livros Sagrados e Profetas há muito tempo. Muitos de nós cultuamos um islã ou um cristianismo que está envolto em muito mais do que o compromisso sincero de lidar com a existência e tentar entender o que deveríamos estar fazendo na Terra como peregrinos no caminho de volta ao Transcendente.

No islã, um local de culto é chamado de masjid, um espaço de reverência e adoração. No masjid, espera-se que tremamos na presença do Transcendente, sem exultar na glória de um chauvinismo nacional étnico restrito, mascarado como islã. Também não é um lugar para prestar homenagem ao sultão da época. Nem pelo fato de que outros – gregos, armênios, espanhóis ou quem quer que seja – tenham feito isso conosco, nem com a desculpa de que esses crimes continuam sendo perpetrados contra antigos símbolos do islamismo. Isso não nos dá licença para fazer o mesmo com outras pessoas.

A sugestão de Sahak Maşalyan, patriarca da Igreja Armênia da Turquia, de que a Hagia Sophia seja aberta a todas as religiões é interessante e vai além do discurso patético de "Deus é realmente uma mascote de futebol ou basquete para a nação". "Por que não manter o espaço como museu durante parte da semana e abri-lo para um ritual Alevi semah nas noites de quinta-feira, para orações sunitas às sextas-feiras, para a comunidade judaica aos sábados e para congregações cristãs aos domingos?", ele perguntou. "Essa transformação", diz Baki Tezcan, em outro ensaio, "manteria a Hagia Sophia viva e serviria melhor para sua preservação a longo prazo como patrimônio cultural da humanidade, ofereceria uma alternativa à hegemonia política islâmica, reconheceria a diversidade da Turquia e estabeleceria uma precedente internacional exemplar para outros lugares semelhantes no mundo todo".

Os jogos dos poderosos e a vontade das massas de animá-las não vão levar a humanidade a enfrentar os desafios críticos que todos nós, habitantes da Terra, enfrentamos – nossa única casa, que até pouco tempo atrás estávamos destruindo pedra por pedra, agora passamos a destruí-la em uma escala maior. Talvez precisemos ir além da aparentemente nobre sugestão do patriarca Masalyan, que visa apaziguar diferentes tribos e grupos religiosos, todos eles que, novamente e aparentemente, mas apenas aparentemente, estão obcecados por suas divindades tribais e representadas em imagens.

Eu tenho uma proposta rebuscada.

No contexto de enormes desigualdades socioeconômicas, de uma destruição ecológica em curso e marés crescentes de ideologias supremacistas étnico-religiosas na Turquia e em todo o mundo, a resposta teológica e social da liderança clerical ou governamental não deve ser guiada pela falsa consciência de simbolismo. Por que não converter a Hagia Sofia em algo como um abrigo para os pobres, um hospital para doentes e necessitados, um centro radical de educação ou artes para aumentar a consciência ou um jardim interno?

Independentemente de quão exagerada essa proposta possa parecer, estou convencido de que Muhammad e Jesus ficariam muito mais confortáveis em adotá-la do que estariam se fosse uma catedral, um museu, um templo ou uma mesquita.

Publicada originalmente por Contending modernities


Tradução: Ramón Lara



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