Mundo

03/08/2020 | domtotal.com

Quanto poder é demasiado para as gigantes da tecnologia?


Mesmo no mundo que possibilitou as possibilitou, as grandes empresas assustam. O seu poder, setorial ou universal, chaga a ser mais pervasivo que o dos Estados soberanos. A audição das quatro gigantes da tecnologia - Apple, Facebook, Google, Amazon - essa terça-feira (28), na Subcomissão Antitruste do Congresso Norte Americano, não fez mais do que reforçar a impressão da sua inexorabilidade.

O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, testemunha perante a Subcomissão Antitruste do Congresso dos EUA sobre 'Plataformas on-line e poder de mercado'
O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, testemunha perante a Subcomissão Antitruste do Congresso dos EUA sobre 'Plataformas on-line e poder de mercado' (Graeme Jennings/ Pool/ AFP)

José Couto Nogueira*

Colocar no mesmo saco a Apple, o Facebook (dono de si próprio, do Instagram e do WattsApp ), a Alphabet (dona da Google e do YouTube) e a Amazon, talvez seja misturar gatos diferentes, uma vez que os seus modelos de negócios são distintos e apenas parcialmente se sobrepõem. Contudo, as gigantes do chamado bigtech têm em comum as suas dimensões estratosféricas e a presença universal, o que leva a pensar que abusarão dos seus poderes. Por razões diferentes, mas concomitantes, depois de anos de veneração pelo seu empreendedorismo e avanço tecnológico, têm sido criticadas por "práticas abusivas", prejudiciais à livre concorrência e à disseminação de ideias falsas.

Na Europa, onde o gigantismo empresarial e o domínio dos mercados são sempre vistos com mais hostilidade do que nos Estados Unidos, os órgãos comunitários e os governos têm-nas acusado de delitos vários, como fuga aos impostos e colheita de informações privadas. São processos complexos, que se arrastam nos tribunais, mas cuja conclusão, mesmo que lhes seja desfavorável, não toca no cerne da questão: o seu domínio, ou controle, ou influência, na vida privada dos cidadãos.

É que, por mais voltas que se dê, não é possível viver sem essas empresas, nem parece exequível substituí-las – afinal, o seu sucesso deve-se às necessidades que criaram e das quais ninguém quer prescindir. Nos países autoritários (a China, de longe, neste domínio) a sua proibição levanta a questão contrária, igualmente inaceitável, do controle das atividades e das opiniões por parte do Estado.

Ou seja, resumindo, não queremos viver com elas, mas já não podemos viver sem elas.

Ou, como disse o representante David Ciclilline, democrata de Rhode Island: "Para pôr as coisas de uma maneira simples, têm poder de mais".

O primeiro problema é como medir esse poder, em termos absolutos ou relativos. Por exemplo, a Amazon distribui cerca de um milhão e seiscentas mil encomendas por dia, desde livros (o seu "produto" original) até comida para gato. No entanto, mesmo sendo o maior vendedor online do mundo, tem, afirma-o Jeff Bezos, apenas 4% do mercado. Ou seja, não pode ser acusada de monopólio (As acusações são outras, como se verá).

O segundo problema é avaliar a influência, quiçá excessiva, que têm na formação da opinião pública e nas decisões dos compradores. A isto, responde Mark Zuckerberg que as suas plataformas não emitem opiniões, apenas as veiculam; e não vendem produtos, simplesmente os anunciam (Sobre isto, também se falará).

Por si próprios ou comparativamente, os números com que estas empresas lidam são de uma dimensão difícil de captar. Por exemplo, o Google recebe diariamente seis bilhões de solicitações, e o Gmail processa cerca de cem bilhões de mensagens (Só para lembrar, a população mundial é de cerca de sete bilhões de pessoas...). A Alphabet, sua proprietária, teve um lucro de US$ 34 bilhões no ano passado.

A Apple já vendeu 2,2 bilhões de iPhones. Em 2017 havia 728 milhões destes aparelhos funcionando e em 2019 a empresa ganhou US$ 142 bilhões a vendendo-os. Mas, também neste caso, não pode ser acusada de monopólio, uma vez que tem apenas 25% do mercado.

Estas audições das comissões do Congresso não foram as primeiras, nem serão as últimas. Tanto Mark Zuckerberg (Facebook), como Sunday Pichar (Alphabet) e Tim Cook (Apple) já tinham sido chamados a depor em diferentes ocasiões. Apenas Jeff Bezos (Amazon) nunca tinha sido chamado.

Ficou para a história a audição de Bill Gates, em 1998, quando a Microsoft foi acusada de várias práticas predatórias. Não correu muito bem para Gates, mas, na prática, nada aconteceu à empresa. Também ficou patente, na altura, que os membros da comissão eram bastante info-excluídos. A mesma ignorância ficou patente na audição de Mark Zuckerberg, em 2018, quando rebentou o escândalo da Cambridge Analytica, a empresa inglesa que usou a informação obtida no Facebook para influenciar as eleições norte-americanas.

Desta vez os membros da Comissão mostraram saber do que falavam, baseados numa pesquisa de centenas de milhares de documentos, mas mesmo assim Sunday Pichar teve de explicar pacientemente a Greg Steube, republicano da Florida, porque é que o pai do representante não recebia os e-mails do seu gabinete.

As perguntas foram contundentes da parte dos dois partidos. Basicamente, os democratas preocupam-se com os problemas de livre concorrência e direitos dos trabalhadores, enquanto os republicanos estão convencidos que as bigtech têm uma parcialidade contra as ideias conservadoras, mas juntaram-se para criticar duramente todos os aspectos possíveis, como se pode ver nestes exemplos:

Representante Mary Scanion, democrata, a Jeff Bezos: "O senhor disse que a Amazon se foca nos clientes, mas como é que os clientes podem beneficiar se o senhor sobe os preços depois de eliminar os seus concorrentes?".

Representante Jerry Nadler, democrata, a Mark Zuckergerg: "Consolidações e a aquisição de potenciais correntes são violações da lei antitruste. O senhor mesmo disse que comprou o Instagram para neutralizar um potencial concorrente. Se foi isso que aconteceu, por que é que o Instagram não deve ser vendido para se tornar uma empresa diferente?".

Representante Ken Buck, republicano, aos quatro inquiridos: "Vocês estão dispostos a certificar aqui e agora que as vossas empresas não usam e nunca usarão trabalho escravo para manufaturar os vossos produtos, ou os produtos vendidos através das vossas plataformas?" ("Trabalho escravo", num sentido lato, que engloba trabalho em condições miseráveis).

Se quiser assistir a toda a audiência, está guardada no site da revista Wired.

Mas talvez não valha a pena gastar cinco horas e meia do seu tempo para chegar às conclusões óbvias; o que estas empresas fazem é legal e nem sequer é imoral. Todas as suas atividades que nos incomodam são também as que seguimos, compramos e usamos com o maior prazer – e mesmo que não o sejam, ao menos o prazer é o de nos queixarmos.

Tim Cook, por exemplo, quando acusam a Apple de tratar mal os produtores dos apps do iPhone/iPad, impondo regras obscuras e inspecionando o código dos programas, além de cobrar uma percentagem das vendas, responde com toda a lógica que só quer vender apps de qualidade, que não possam roubar dados aos utilizadores, e que está a proporcionar aos produtores uma "vitrine" para milhões de clientes.

Mark Zuckerberg, respondendo a outro tipo de problema, a "parcialidade" anti-conservadora da censura do Facebook, diz que não lhe cabe a ele avaliar as opiniões de quem usa a plataforma e a única coisa que pode fazer é retirar conteúdos violentos ou notoriamente falsos. Além da impossibilidade de avaliar os posts dos mil e trezentos e noventa bilhões de pessoas que acessam o Facebook diariamente.

Para arrematar a situação, a pandemida de Covid-19, que destruiu milhões de empresas e empregos no mundo inteiro, foi extremamente favorável a estas gigantes do bigtech. As quatro empresas acabaram de publicar os resultados do segundo trimestre de 2020, com um aumento extraordinário de receitas.

Resumindo, os problemas existem, mas não têm solução à vista. A nossa época é cheia de contradições, o que não será propriamente um defeito. Apenas é o que é. Se não se sente bem com esta situação em que a sua vida é espionada até aos seus sentimentos mais íntimos, pode dizer o que quiser para o mundo, e os produtos de que gosta lhe são entregues à porta de casa, pode sempre emigrar para a Patagônia e viver em comunhão total com a Mãe Natureza.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.



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