Cultura TV

04/08/2020 | domtotal.com

Prêmio Emmy em tempo de Covid

Um grande vencedor já pode ser apontado: Netflix

Até o momento, a data de realização do Emmy está mantida e segue agendada para 20 de setembro
Até o momento, a data de realização do Emmy está mantida e segue agendada para 20 de setembro (Valerie Macon/ AFP)

Alexis Parrot*

2020 talvez tenha sido o ano em que mais tenhamos parado em frente à TV, devido à imposição do isolamento social frente à pandemia do Covid-19. De forma de entretenimento mais barata e acessível, a televisão acabou se tornando também a companheira indispensável durante os dias e meses que parecem não passar durante a quarentena.     

É muito natural que desta vez voltemos um olhar especial para o Emmy, o prêmio que busca celebrar anualmente o que há de melhor na produção televisiva norte-americana desde 1949.

Embora tenha se inspirado no Oscar, é bem mais abrangente, com 136 categorias contra apenas as 24 de seu companheiro dedicado ao cinema.   

Ainda que a cerimônia de entrega (que será virtual este ano) só aconteça em 20 de setembro, um grande vencedor já pode ser apontado, após uma rápida olhada nos finalistas divulgados na semana passada. Trata-se da Netflix, que conseguiu abocanhar o maior número de indicações (160 no total), estabelecendo um novo recorde – deixou para trás a outrora campeã HBO que atingiu apenas 108.

A primeira explicação para tamanha lavada é a quarentena, mas não só isso. Ao estarmos mais em casa (ou só em casa), temos assistido mais TV, assim como os membros votantes da Academia de Artes e Ciência da Televisão. Se assistimos por mais tempo, também assistimos mais conteúdos, o que pode aumentar consideravelmente o universo elegível de produções para o Emmy.    

Mesmo sem a robustez do número de indicações da Netflix, sua concorrência direta também está no páreo, majoritariamente nas principais categorias do prêmio: Amazon Prime, com 30 e Hulu, com 26 (ambas ganhando da tradicional rede CBS, que emplacou apenas 23). As recém-inauguradas  Disney + e Apple TV+ também foram lembradas e abocanharam respectivamente 19 e 18 indicações. 

Enquanto nos acostumamos ao chamado "novo normal", descobrimos também um "novo zapear": o controle remoto não está mais restrito aos canais de TV aberta e fechada. O streaming entrou na equação – e pelo visto, de sola. 

Diversidade e inclusão

Sempre seguindo os passos do careca dourado – que desde 2010 aumentou o número de indicados a melhor filme para até uma dezena – o Emmy também vem turbinando a quantidade de indicações para várias categorias. O argumento para tal mudança é justo, a possibilidade de oferecer um panorama mais completo da produção tanto da TV quanto do cinema no período; mas sabemos tratar-se também de uma jogada bem pensada de marketing – quanto mais indicados, mais se movimenta o mercado na promoção dos concorrentes.

No caso de melhor drama e comédia, o upgrade traz a possibilidade da inclusão de alguns títulos que de outra forma dificilmente estariam no grid, como a canadense Schitt's Creek (repetindo o feito pela segunda vez) ou a décima temporada de Curb your enthusiasm, bem meia boca se comparada à anterior em que Larry David lidava com uma fatwa decretada pelo aiatolá iraniano.

Outra série que pode ter se beneficiado, esta por real merecimento, é What we do in the shadows. Conta a história de um grupo de vampiros atrapalhados que ainda hoje vive em Ellis Island, a porta de entrada para os imigrantes europeus que, na fuga da fome e da miséria aspiravam viver o sonho americano. Ali chegaram e por mera preguiça, se instalaram e ficaram. É baseada no filme homônimo que revelou o neozelandês Taika Waititi, responsável pelo sensacional Jojo Rabbit, além do último e próximo filmes do Thor.

Nas categorias de atuação, para além do marketing, um dos impactos mais saudáveis é o aumento na diversidade das indicações. Em comparação ao ano passado, houve um expressivo salto entre as indicações de atores e atrizes de etnias minoritárias, atingindo o patamar de 38% nesta edição do prêmio, algo inédito e digno de aplausos.

No Oscar, a história é bem diferente. Após anos de cobranças reiteradas por mais diversidade entre os profissionais indicados e na temática dos filmes concorrentes, apenas este ano a Academia cinematográfica se mexeu de fato, alegando ter dobrado o número de mulheres e não-brancos entre seus membros. O resultado do movimento será notado nas indicações de 2021 que, espera-se, não repitam o fiasco do ano passado quando apenas dois atores negros constavam entre os vinte concorrendo aos prêmios de atuação.

Algumas apostas

2020 é o primeiro ano embalado pela ressaca do final de Game of Thrones. Com a ausência do épico no páreo, é lícito dizer que todo mundo tem alguma chance de ganhar.

Para melhor série dramática, Succession tem algum favoritismo – muito embora deva admitir não entender o apelo do programa. Aquele punhado de gente rica brigando verborragicamente entre si pelo controle da firma da família (enquanto são incapazes de controlar as próprias vidas) não me interessa em nada. Não consigo enxergar ali metáforas, subtextos, crítica social e nem ironia – tudo que leio por aí que dizem que a série tem, mas provavelmente o defeito deve ser meu.

Better call Saul está sendo esnobada desde a estreia (e dessa vez, nem Bob Odenkirk, maravilhoso no papel do protagonista, foi indicado). Por essas e por outras, é mais que improvável que lhe entreguem o prêmio justamente na penúltima temporada.

Não acredito no sucesso de Ozark ou Killing Eve. Historicamente, séries policiais não emplacam o grande prêmio, a não ser quando uma obra-prima, como Os Sopranos. Definitivamente, não é este o caso das supracitadas. Sobre Killing Eve, questiono até se é mesmo uma série dramática; acho que estaria melhor enquadrada se concorresse como comédia, tamanhos são os absurdos que apresenta em trama e construção de personagens.

Stranger things e The mandalorian, não têm a mínima chance – como qualquer produção de fantasia. Arrisco dizer que a segunda tem até menos chances ainda, se comparada com a primeira. Stranger things é bom; The mandalorian, não.

Se tiver que apostar em um vencedor, fico entre a jóia da coroa que é The crown e a distopia fascista de The handmaid's tale; esta com alguns corpos de vantagem sobre a outra, pelo assustador comentário que faz sobre nossa atualidade.     

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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