Religião

06/08/2020 | domtotal.com

Permitir protestos e não permitir missas é contraditório

Qual é o impacto de longo prazo das restrições na saúde espiritual dos católicos?

Uma mulher reza perto de Centerport Harbor, em Nova York, durante uma missa ao ar livre de manhã cedo na Igreja Nossa Senhora Rainha dos Mártires, durante a pandemia de Covid-19, 26 de julho de 2020
Uma mulher reza perto de Centerport Harbor, em Nova York, durante uma missa ao ar livre de manhã cedo na Igreja Nossa Senhora Rainha dos Mártires, durante a pandemia de Covid-19, 26 de julho de 2020 (Gregory A. Shemitz/CNS)

Crux/CNS

O arcebispo de San Francisco, Salvatore J. Cordileone, agradeceu aos padres da arquidiocese em uma carta de 30 de julho por seu "cuidado pastoral contínuo" ao seu povo e lembrou-os de continuar com o cuidado espiritual "sempre de acordo com os protocolos de saúde de cada cidade".

Cordileone também pediu a seus padres "que fizessem todo o possível para tornar a missa disponível para o seu povo".

"Dados os limites de número que nos foram impostos, peço a cada sacerdote – exceto idosos e pessoas com problemas de saúde – que estejam dispostos a celebrar até três missas no domingo, conforme necessário para responder à demanda do povo de Deus", Disse o arcebispo.

Atualmente, 37 das 58 prefeituras do estado da Califórnia estão na lista de monitoramento de coronavírus pelo governo, incluindo a cidade e a prefeitura de São Francisco, assim como as cidades de Marin e San Mateo – essas jurisdições compõem a grande arquidiocese de São Francisco.

Em San Francisco, os serviços religiosos e funerais em áreas abertas são permitidos com um limite de 12 pessoas, mas atualmente não são permitidas aglomerações. Os encontros religiosos em templos, como missas e orações de domingo, também estão proibidos em todas as igrejas de San Mateo.

Em Marin, todas as casas de culto estão fechadas para encontros. São permitidas pequenas reuniões "sociais" em áreas externas de até 12 pessoas, mas os noticiários dizem que as autoridades locais estão permitindo protestos de até 100 pessoas.

Como outras dioceses católicas em todo o país, muitas paróquias da arquidiocese de São Francisco continuam transmitindo missas on-line, uma vez que a celebração pública da missa permanece ainda com restrições.

"Há mais de quatro meses que estamos privados do modo usual como nós, católicos, santificamos o sábado", disse o arcebispo. "Como igreja sacramental, é de nossa natureza, e de fato é da nossa própria identidade, reunir-nos fisicamente para adorar e participar da Eucaristia. Tenho certeza de que você, assim como eu, está muito preocupado com os efeitos a longo prazo que isso terá na saúde espiritual de nosso povo."

Cordileone também disse nas últimas semanas que recebeu todos os tipos de conselhos sobre o que fazer para combater os limites de pessoas em encontros presenciais, e disse que "mudar bruscamente" as regras e normativas também levou à confusão.

"Ao longo de todas essas conversas", disse Cordileone, "eu falei de como queremos ser aliados da cidade no cuidado de nosso povo – não apenas por sua saúde física e financeira, mas também mental e espiritual – enfatizando também as muitas maneiras diferentes pelas quais apoiamos nosso governo local no esforço de conter a propagação do vírus e ajudar os mais necessitados."

O arcebispo também disse que a confusão sobre as normas estaduais e locais sobre a prevenção do Covid-19 levou a um "pedido de cessação e desistência" do promotor municipal Dennis Herrera em 29 de junho. O promotor ameaçou a arquidiocese com grandes multas depois de ouvir relatos de que algumas igrejas católicas aparentemente estavam operando "em desacato" aos protocolos de saúde pública da cidade, incluindo as condições para o uso de máscaras e distanciamento social.

"A arquidiocese permanece firme na proteção da saúde de seus fiéis e de todos os cidadãos", seguindo os protocolos de saúde e segurança, escreveu Paula Herney, consultora geral da arquidiocese.

Cordileone disse em sua carta aos padres em 30 de julho que as autoridades da cidade argumentaram que permitir certa capacidade nas lojas – que era de até 50% – é mais seguro do que permitir cultos em ambientes fechados porque os clientes entram em uma loja, fazem compra e saem, em vez de permanecer na loja por um longo período de tempo, diferentemente dos fiéis que permanecem dentro de uma igreja pelo período de um culto ou encontro.

Mas o arcebispo argumentou que "uma igreja pode ser um lugar muito mais seguro do que uma loja, porque é um ambiente mais controlado: as pessoas estão paradas; podemos garantir o distanciamento social; podemos garantir que as pessoas estejam usando máscaras para o rosto; podemos manter as portas abertas para permitir o fluxo de ar; podemos higienizar áreas de alto contato entre as missas".

"Com relação aos encontros ao ar livre, todos sabem que os protestos de rua pré-planejados e programados podem continuar sem impedimentos", disse Cordileone, "enquanto o limite de não mais de 12 pessoas ainda se aplica a todos os outros tipos de reuniões, inclusive a nós católicos".

"Mais uma vez aqui", acrescentou, "um culto ao ar livre é um evento muito mais seguro do que um protesto, já que as pessoas estão paradas, o distanciamento social é respeitado e os participantes estão usando máscaras".

"Infelizmente, apesar de todos esses esforços e explicações, e apesar de ouvir palavras de aprovação do nosso plano de segurança arquidiocesano que foi submetido à Força-Tarefa de Recuperação da cidade, não houve mudança alguma nos protocolos de saúde em San Francisco", disse Cordileone.

Em uma nota mais positiva, o arcebispo disse que queria que os católicos orassem por dois homens que estava ordenando em 1º de agosto, pelos novos padres Ben Rosado e Ian El-Quito, e pelos homens que serão ordenados diáconos em 8 de agosto e por aqueles que estão sendo ordenados diáconos permanentes em 15 de agosto.

Cordileone também pediu aos católicos da arquidiocese que "invadissem o céu com orações e jejum por uma restauração do culto público sem impedimentos, por um fim rápido a essa pandemia, por trabalhadores e pesquisadores da área da saúde e por funcionários do governo que devem tomar decisões muito complicadas pelo bem-estar geral de nossas comunidades."

Em todo o país, especialmente em Kentucky, à medida que os casos de Covid-19 no estado aumentavam, o arcebispo Joseph E. Kurtz, em uma carta de 25 de julho a seus padres, disse que as paróquias da arquidiocese de Louisville continuariam realizando missas com capacidade reduzida e pediu aos pastores que "dobrassem o cuidado em questões como o distanciamento social e o uso de máscaras".

Ele também lembrou que havia dispensado a obrigação de comparecer à missa aos domingos e dias sagrados de preceito.

Em julho, o governador Andy Beshear instou os Kentuckianos a evitarem grandes reuniões e, em uma recente consulta ao Conselho de Igrejas de Kentucky, o governador sugeriu que as igrejas fizessem uma pausa de dois domingos na realização da missa presencial.

"Os bispos católicos da comunidade de Kentucky discutiram esse pedido no final desta semana e decidiram não pedir às paróquias que suspendessem as celebrações por causa do excelente trabalho que as paróquias católicas têm feito com o que foi exigido, por exemplo: distanciamento social, uso de máscaras, higiene, limpeza etc. e por causa de uma possível confusão por parte dos fiéis", disse Kurtz aos padres.

O arcebispo disse que os bispos católicos enviaram uma carta resumindo suas ideias e propostas ao reverendo Kent Gilbert, presidente do Conselho de Igrejas de Kentucky, em cópia a Rocky Adkins, consultor sênior de Beshear. Nele, os bispos disseram que se comprometem com os protocolos de segurança e saúde "e enfatizarão especialmente o uso de máscaras como um fator importante para poder se reunir com segurança para os momentos de oração e missa durante a pandemia".

"Na grande maioria de nossas paróquias", disseram os bispos, "a cautela prudente por parte de nosso povo manteve o tamanho da multidão bem dentro dos protocolos de segurança sobre as capacidades dos espaços. Dado o número crescente de casos, o atendimento pode diminuir ainda mais."

"Neste momento, não suspenderemos a celebração pública da missa, mas continuaremos monitorando a situação", acrescentaram. "Esperamos ansiosamente continuar o diálogo sobre esta e outras medidas nas próximas semanas, à medida que avançamos nas próximas semanas e meses".

Publicado originalmente por Crux


Tradução: Ramón Lara



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